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sexta-feira, 24 de junho de 2011

Luiz Bonfá: Um gênio do violão brasileiro

 Luiz Bonfá: Um Gênio do Violão Brasileiro.
                                                                                                    por Jorge Mello



PRIMEIRA PARTE:                                                                       

Introdução:

O presente artigo é o primeiro passo no sentido de abranger a obra deste genial violonista brasileiro, que tem um estilo único no seu instrumento. Compositor inspirado, possui páginas imortais como Manhã de Carnaval e The Gentle Rain, além de uma importantíssima obra violonística.
Pesquisar sobre Bonfá foi uma consequencia imediata do trabalho que fiz sobre Garoto (Anibal Augusto
Sardinha) e esta primeira parte, ainda sujeita à inúmeras modificações, descreve a trajetória de Bonfá até o Clube da Bossa, conjunto liderado por Garoto, que se apresentou na Rádio Nacional nos anos 1946/47

1- O aprendizado com Isaias Sávio

Luiz Floriano Bonfá nasceu no bairro de Santa Cruz, zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. De seu pai, imigrante italiano, herdou o primeiro nome e o sobrenome, além do amor pela música. Por influencia de seu pai, violonista amador que promovia animadas serestas em sua casa no bairro de Santa Cruz(Zona Oeste da Cidade do Rio de Janeiro), Bonfá aprendeu as primeiras notas no violão. Tais serestas, nas quais Pixinguinha e Bororó(1) por algumas vezes participaram, deixaram vívida impressão na mente do jovem Bonfá, a ponto de motivá-lo a dedicar, tempos depois, dois Lps Violão Boêmio vol 1 e2, com músicas que evocam aquela atmosfera nostálgica. A medida que evoluía no violão seu pai o requisitava para participar cada vez mais daquelas serestas, o que fazia com indisfarçável orgulho. Certa vez em que eles foram a uma festa na casa de uma família amiga onde Pixinguinha iria tocar, estava presente o grande violonista e professor, uruguaio de nascimento e brasileiro de coração, Isaias Sávio (01/10/1900-12/01/1977). A pedido do pai, Luiz Bonfá tocou violão naquela festa, perto do mestre uruguaio, para que este o avaliasse. Após ouvir Bonfá, Sávio imediatamente convidou-o para ser seu aluno. Algumas dificuldades ,no entanto, deviam ser resolvidas. A maior delas era a questão da frágil situação econômica de sua família, o que impossibilitava à Bonfá pagar a aula semanal. Compreendendo a situação, Sávio disse que daria as aulas gratuitamente. Outra questão era a grande distância entre as casas de Sávio, no alto da rua Cândido Mendes, já em Santa Teresa, e a de Bonfá, em Santa Cruz. O entusiasmo do jovem Bonfá foi mais que suficiente para superar essa dificuldade: Ele vinha de trem até a estação Central do Brasil, pegava um ônibus até a Lapa e de lá subia a pé até a casa de Sávio. Eram duas horas e meia para ir e outras para voltar!(2),(3). Durante três anos Bonfá seguiu essa rotina e valeu a pena: “Estudar com Sávio foi extraordinário. Ao contrário de muitos professores, ele era amigo de seus alunos. Éramos como uma grande família de alunos com um pai espetacular” (4). Tal aprendizado foi de 1934 até 1936, quando Bonfá opta pela música popular.

Sávio foi de fundamental importância para a disseminação do violão clássico no Brasil (5). Discípulo de Miguel Llobet, ele chega ao sul do Brasil em 1931, apresentando-se em Porto Alegre e excursionando pelo sul e sudeste, até chegar na cidade do Rio de Janeiro, onde fixa residência de 1932 até 1940, lecionando e realizando recitais. Bonfá, Antônio Rebello e Deoclésio Melim foram alguns de seus alunos nesse período. Em 1941 se estabelece definitivamente na cidade de São Paulo, onde funda, nesse mesmo ano, a Associação Cultural Violonística Brasileira. Em 1947 institui a cadeira de violão no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Antônio Carlos Barbosa-Lima, Paulo Bellinati, Marco Pereira e Toquinho, dentre outros, foram também seus alunos na capital paulista.

2- Integrando o Trio Campesino, de Amado Smendel

Pouco se sabe sobre o que fez Bonfá logo após o período em que estudou com Sávio. Quase por acaso deparei-me com um recorte de jornal (6) em que o cantor e compositor paraguaio Amado Smendel aciona a dupla Bonfá/Jobim , alegando que a música “A Chuva Caiu”, de autoria da dupla, é inteiramente plagiada de sua canção Mboracjhu gravada em 1939 pela RCA VICTOR, no Rio de Janeiro, na época em que dirigia o Trio Guaraní, integrado por Luiz Bonfá. De fato,tal música foi gravada por Amado Smendel em 27/04/1939 no lado A do disco 43.464 da VICTOR. No lado B, outra composição de sua autoria: a polca Eres Linda. Se for confirmada a participação de Bonfá nessas gravações, então o ano de 1939 passará a ser considerado como o ano em que ele inicia sua vida profissional.

Ainda pela VICTOR, Amado Smendel gravou o disco 34.596, em 06/03/1940, acompanhado por um conjunto (é provável que Bonfá participasse), interpretando as músicas Desde Lejos e Beatriz, ambas de sua autoria, est a última em parceria com Emílio Biggi. Agora acompanhado por seu Conjunto Paraguaio (novamente, a participação de Bonfá é muito provável), Amado Smendel grava em 21/07/1942, na Odeon (disco 12.196), a guarania Índia, de Manuel Ortiz Guerreiro/José Assuncion Flores, e Undente Vaerá, polca galope de Smendel em parceria com J. M. Rivas.

A estreia oficial de Luiz Bonfá como compositor se deu em parceria com Smendel, na rumba Buenas Noches Señorita, gravação de Los Campesinos (trio de Amado Smendel), pela Continental(disco 15.368), em 1945. No outro lado do disco o trio gravou Nú Vai, polca paraguaia de C. Mendoza e J.B. Rodrigues. Nas apresentações que fazia em cassinos ao longo dos anos de 1944/45 o trio se apresentava como Los Campesinos. No recorte de jornal vemos um cartaz da apresentação de Los Campesinos no Cassino São Vicente, em 1944, onde Garoto (Aníbal Augusto Sardinha) aparecia como atração principal (7). A amizade entre Bonfá e ele bem poderia ter nascido nessa ocasião.

O ecletismo musical de Luiz Bonfá é uma de suas marcas. Após participar de dois conjuntos em que predominavam guarânias e boleros, ele estreia em discos como solista de violão executando músicas com nítidas influências norte-americanas, uma das mais fortes em sua obra. As gravações, todas pela Continental, feitas por Bonfá ao violão e por Gaúcho na bateria, são as seguintes:

*Disco 15 410, lançado em agosto de 1945 :

Lado A- J Alousie-Sleepy Lagoon. Foxtrot de Jacob Gade e Eric Coates.

Lado B- My Boogie Woogie. Foxtrot de Luiz Bonfá.

*Disco 15 476, lançado em agosto de 1945:

Lado A- Remember to You. Foxtrot de Luiz Bonfá.

Lado B-My Old Bass. Swing de Luiz Bonfá.

*Disco 15 616, lançado em abril de 1946.

Lado A-Granada-Santa. Músicas de Agustin Lara.

Lado B-I Get Lost-Foxtrot de Luiz Bonfá.

3) Com Garoto, no Clube da Bossa.

Em sua fecunda vida artística Garoto (Anibal Augusto Sardinha) formou inúmeros conjuntos, nos quais ele era, sem contestação alguma, o líder natural. Ele fazia os arranjos e promovia incontáveis ensaios. Dentre os conjuntos que formou, um dos mais interessantes foi o Bossa Clube. Descobrir quem eram seus integrantes é uma tarefa muito difícil, na qual estou muito empenhado. Eles gravaram alguns discos 78 RPM e se apresentaram na Rádio Nacional de outubro até dezembro de 1945.Para estas ocasiões Garoto escreveu arranjos e temos informações de alguns deles, o que nos permite ao menos dizer qual era a formação do Bossa Clube. O noticiário da imprensa pouco ajudou nesse sentido e as informações relevantes foram obtidas no diário do Garoto e no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

O conjunto Bossa Clube participou de três gravações, todas pela Continental( discos nº15 473, 15 600 e 15 469,respectivamente), realizadas nos meses de outubro e setembro de 1945. No dia 2 de outubro eles acompanharam a cantora Emilinha Borba nas músicas O outro Palpite (Garoto e Grande Otelo) e Divagando(Nelson Miranda e Luis Bittencourt). No mesmo dia eles gravaram dois choros de Garoto: Sonhador e Celestial, com o autor solando as músicas na guitarra havaiana. No dia 27 de setembro acompanham a cantora Ademilde Fonseca nos choros Rato Rato(Casemiro Rocha/Claudionor Costa) e História Difícil(Vitor Santos/Pereira Costa).

Na Rádio Nacional Garoto apresentou, com seu conjunto Bossa Clube, o arranjo que fez para Holliday For Strings (D. Rose) no programa Revista Souza Cruz de 23 de outubro (terça-feira), às 20,30h. Este programa foi apresentado até o final de dezembro de 1945 e nele Garoto com o Bossa Clube apresentou os seguintes arranjos:

*Ontem ao Luar (Pedro de Alcantara/Catullo da Paixão Cearense), em 06/11.

*Relampago(Garoto), em 13/11.

*Minueto(Ignacy Jan Paderewsky), em ritmo de choro, em 27/11.

*Ameno Resedá (Ernesto Nazareth), em 11/12.

Violão tenor(solista), violões, violino, piano, baixo, bateria e percussão são os instrumentos identificados.

Alguns nomes como Luis Bittencourt(violão), Zimbres (piano), Vidal (baixo) e Bide (percussão) são considerados como muito prováveis integrantes daquele conjunto.



Com o fim do Bossa Clube surgiu o Clube da Bossa. Uma mera troca na ordem dos nomes? Seriam os mesmos integrantes? Seja como for, esse grupo fez sua estreia na Rádio Nacional em 13 de fevereiro de 1946, quarta feira, às 18 horas. O programa, que se chamava Clube da Bossa, tinha duração de 30 minutos e foi ao ar até o dia 17 de abril.

O conjunto Clube da Bossa reaparece aos sábados, às 10,15 h, no programa Calendário Musical Ross (das famosas pílulas do Dr. Ross), apresentado por Carlos Palut. Realizaram apenas três apresentações, com início em 25 de maio, pois em 15 de junho( que seria a quarta apresentação)Garoto perdeu a hora e ele e o conjunto não participaram do programa.

A partir de 22 de julho Garoto ensaia quase que diariamente com Luiz Bonfá e em agosto, também com Zé Menezes. De acordo com as informações colhidas no diário de Garoto, o Clube da Bossa, com Bonfá e Menezes, estreia às 20 h, no dia 11 de agosto (domingo). Uma nota publicada na coluna Rádio, por Alziro Zarur (8 )fornece os nomes dos integrantes do Clube da Bossa: " Um programa único no gênero, a cargo de Garoto e vários instrumentistas valiosos: Luiz Bonfá, Luis Bittencourt, Valzinho, Hanestaldo, Zimbres, Vidal, Bide e Sebastião Gomes". Notem que não aparece o nome do Zé Menezes...Foram realizados mais três programas em diferentes dias (17/08;09/09 e 16/09) até que no dia 01 de outubro apresenta-se o Clube da Bossa naquele que seria seu horário definitivo: Terça-feira, às 17,45 h. Numa nova entrevista concedida ao então cronista musical Alziro Zarur(9), Garoto assim declarou(transcrevo na íntegra, por ser muito instrutiva):

“Apresentarei oportunamente na Rádio Nacional o programa Senhor Violão, contando cada audição com músicas de um só autor. Exemplos: Músicas de Tárrega, Ponce, Chopin, Bach, Segóvia, Falla, Beethoven, Radamés Gnattali, Villa Lobos, etc. Terei também oportunidade de apresentar músicas e arranjos de minha autoria. Quanto ao Clube da Bossa, que se apresenta terças-feiras às 17,45, oferecerá aos seus ouvintes uma série de arranjos modernos. Como se sabe, os componentes do Clube da Bossa somos eu, Zimbres, Vidal, Sebastião, Bide, Bonfá e, como crooner exclusivo, Lúcio Alves.”

Mostramos abaixo o script de um desses programas do Clube da Bossa, já em 1947(10).




O Clube da Bossa gravou dois discos:
* Disco nº 800404-RCA VICTOR-Gravado em 08/03/1946.
Ericsson Martha e Clube da Bossa:
Lado A-Minha Prece (Luis e Renée Bittencourt).
Lado B-Amoroso (Garoto e Luis Bittencourt).

* Disco nº 15 692-Continental-Gravado em 27/06/1946.
Garoto e Clube da Bossa:
Lado A: Ameno Resedá (Ernesto Nazareth).
Lado B: Meu Cavaquinho (Garoto).

REFERÊNCIAS:

(1) Da Cor do Pecado, artigo sobre Bororó postado neste blog.

(2) Verbete Luiz Bonfá- Enciclopédia da Música Brasileira, pg 102. Art. Ed, 1977.Sãp Paulo.

(3) Violões do Brasil-Myriam Taubkin (org)-Luiz Bonfá,pg 78. Ed Sesc São Paulo,2007.

(4) O violão de Luiz Bonfá-texto original de Anthony Weller, adaptado por Eduardo Muszkat-Encarte do Cd Luiz Bonfá, Solo in Rio, 1959.

(5) Isaias Sávio-Violão e Mestres nº 5, pg 7.Junho de 1966.

(6) A chuva caiu- Recorte de jornal, sem identificação-Acervo Instituto Antonio Carlos Jobim.

(7) A Tribuna-Santos, SP-13/04/1944

(8) Garoto e o Clube da Bossa- Rádio, Alziro Zarur- A Noite, 12/08/1946, pg 6.

(9) Garoto é o “Senhor Violão”- Rádio, Alziro Zarur-A Noite, 09/11/1946,pg 7.

(10) Script do programa Clube da Bossa-Acervo particular de Jorge Mello.

 

7 comentários:

Roberto Luis disse...

Parabéns mais uma vez, Jorge. Podemos aguardar um livro precioso, contando toda a história do Bonfá?
Abraço no Jorge!

jorge mello disse...

Obrigado, Roberto!
Estou iniciando esse projeto da biografia do Bonfá.

Irinéa MRibeiro disse...

Aprender mais sobre esse grande violonista e compositor só mesmo vindo em seu blog! Também estarei a espera de um novo livro! Saudações jobimaníacas!

jorge mello disse...

Muito obrigado,Irinéa!

Neila B. Pereira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Neila B. Pereira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Neila B. Pereira disse...

Oi Jorge,...


Parabéns por sua pesquisa.
Eu considero muito bonito mesmo, o que você faz, ir atrás de informações antigas, sejam fotos, recortes, na net, revistas, enfim...

Como você pode ver, amigos elogiando e outros poderão buscar em seu blog informações para completar outros blogs que será a continuação do seu.

Continue assim, e conte comigo para o que precisar.

Eu vou escanear um rico material para você - são letras de músicas antigas e enviarei para o seu email, ok ?

Material este, Jorge, que meu pai gostava de sempre ler e eu como era um pouco como ele, ciumenta, às vezes tirava ao alcance de seus olhos e depois ele pedia emprestado.

Hoje, quem gosta destas coisas, talvez para lembrar meu pai e curtir as músicas contidas nas revistas, é a minha mãe.

Com certeza, do contrário, eu te daria as originais, ok ?

Bjs da sua mais nova fã e amiga.