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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O VIOLÃO SECO DE NESTOR CAMPOS-PRIMEIRA PARTE







O VIOLÃO SECO
DE NESTOR CAMPOS.
(primeira parte)
POR JORGE MELLO.

1- Introdução
Violonista e guitarrista de primeira linha, Nestor Campos tocou com Dick Farney, Luiz Bonfá, Tom Jobim, Johnny Alf, João Donato, K-Ximbinho, Altamiro Carrilho e Sivuca, dentre outros, vivendo intensamente o período pré-Bossa Nova.
Nestor Campos sucedeu Garoto tanto no Trio Surdina quanto na Rádio Nacional. Em 1959, já estabelecido em Portugal, excursionou pela Europa com o conjunto liderado por Sivuca. Fixou residencia em Portugal, onde atuou até o fim de seus dias.
2 - São Luiz do Paraitinga: A cidade onde nasceu Nestor Campos.
Observei que, em minhas incursões ao setor de microfilmagens da Biblioteca Nacional (BN), o nome de Nestor Campos aparecia com alguma freqüência em assuntos relacionados à década de 50. Comecei então a copiar tudo o que se referia a ele, , para ser usado numa ocasião futura. Pesquisei também nos acervos do Museu da Imagem e do Som (MIS), no setor de música da Biblioteca Nacional (BN), obtive documentos importantes sobre o Trio Surdina (do qual Nestor participou) com Nilo Sérgio Filho e entrei em contato (inicialmente através do blog VinylManiac) com as filhas do Nestor, nascidas em Portugal, em especial a Maria Benedita Campos, que me forneceu valiosas informações sobre aquele período e duas fotos (As duas fotos no início do artigo).
Nesta altura, já com o livro sobre o Garoto concluído (deverá sair em junho de 2011 pelas Eduções SESC SP), senti que era a hora do Nestor Campos aparecer! Comecei a investigar sua discografia e obtive algumas informações relevantes pela internet, especialmente nos blogs VinylManiac e Loronix. Ao juntar todas as peças que dispunha para delinear um perfil, ainda que incompleto, de Nestor, deparei-me com um problema: em algumas fontes, por sinal bem confiáveis, aparecia ele como nascido em 6 de março de 1920 na cidade de… São Luis de Piratininga, SP.(1), (2).
Essa questão foi esclarecida num artigo de Jayme Negreiros, dedicado a Nestor e publicado em 1954 (3). O artigo começa assim:
Faltava ainda uma parte essencial: sua pré-história e infância! Logo ao me convencer do seu lugar de origem entrei no site da Prefeitura de São Luis do Paraitinga, mantendo contato, isso em 2008, inicialmente com Eduardo de Oliveira Coelho (Departamento de Turismo) e em seguida e mais intensamente com o então Diretor de Cultura e também músico, Galvão Frade. Ele esteve com Dona Cinira, viúva de Elpídio dos Santos que, do alto dos seus 82 anos e extremamente lúcida, contou-lhe o seguinte:
“Nestor Pereira Campos é o nome do guitarrista que hoje forma no primeiro time dos nossos músicos, mercê do seu trabalho, do seu esforço, gôsto pela profissão e porquê ele discerne o bom do ruim (antigo e moderno também). Tocando assim meio “Chuck Wayne” hoje em dia, ele veio ao mundo em São Luiz do Paraitinga(Terra de Oswaldo Cruz) em 1920…”
Ainda segundo Dona Cirina, Neusa esteve recentemente na cidade, vindo matar as saudades e visitar a tradicional Festa do Divino.
“O pai de Nestor era conhecido na cidade por “Nego Pavão” e era casado com “Nhá Maria”. Ele morou num sítio no Bairro dos Pimentas, que fica na Zona Rural, depois mudando-se com a família para a cidade. “Nego Pavão” tinha seis filhos: Zé (tocava violão) era o mais velho, depois tinha o Nestor (Nestor Pavão) que também era músico, o Pernambuco que tocava caixa na Banda de Música da cidade e os outros que não tocavam instrumento nenhum. Waldomiro veio morar no Rio, a Neusa e a Nena ficaram em S. Paulo…”
São Luiz do Paraitinga(SP) possui atualmente cerca de 10 mil habitantes e tem uma intensa programação cultural, destacando-se o carnaval (em que possui extenso repertório de marchinhas produzidas por seus moradores) e a festa do Divino Espirito Santo. Outros eventos musicais ocorrem ao longo do ano naquela cidade, não sendo exagero chamá-la de “Cidade dos Músicos”.
As cidades de Taubaté e Ubatuba são ligadas entre si pela Rodovia Oswaldo Cruz. Aproximadamente no ponto médio desta rodovia está São Luiz do Paraítinga, cidade que já produziu ilustres moradores como o Médico e Cientista de renome mundial – seu maior expoente – Oswaldo Cruz. Ainda na área científica podemos citar o geógrafo e professor emérito da USP, distinguido por vários premios científicos, Aziz Ab`Saber. Na área musical a grande referência é o músico e compositor Elpídio dos Santos, autor da música de quase todos os filmes do comediante Mazzaropi. Recentemente veio a tona, ainda nesta área o nome de outro filho ilustre de São Luiz do Paraitinga: Nestor Pereira Campos.
No início de 2010 esta cidade foi praticamente destruída pela enchente no Rio Paraitinga.
Quase toda sua população foi obrigada a deixar seus lares. Todo centro histórico (cerca de 90 imóveis) foi inundado, com a enchente danificando prédios e causando o desabamento da igreja matriz São Luiz de Tolosa, que data do século 19. Passado pouco mais de um ano a cidade, graças a ajuda governamental e a participação de sua valorosa população, São Luiz do Paraitinga está se recuperando muito bem.

3) O início da carreira
*Tanto Dona Cinira quanto o jornalista Jayme Negreiros mencionam que a família de Nestor se mudou para a cidade de São Paulo e foi lá que ele iniciou sua carreira de músico profissional como integrante da Orquestra de J. França no periodo de 1941 até 1943. Esteve também no Rio de Janeiro onde tocou com Claude Austin no Copacabana Palace. Após um breve retorno a São Paulo, onde fez temporada no Esplanada, radicou-se na cidade do Rio de Janeiro.
*Em 1951 Nestor Campos excursionou pelo norte do Brasil como integrante do conjunto “Milionários do Ritmo”liderado por Djalma Ferreira, e tendo Helena de Lima como crooner.
É bem provável que ao longo de 1952, Nestor tenha se apresentado em algumas das jam sessions que aconteciam em pequenas boates do Rio de Janeiro e também como integrante e grande destaque do conjunto de Djalma Ferreira.
Não por acaso ele obteve expressivo resultado no concurso promovido por Paulo Santos no programa “Cinemúsica” (especializado em Jazz), na Rádio Ministério da Educação. Os ouvintes daquele programa elegeram por carta “Os melhores de 1952″(4) e Nestor Campos obteve um honroso 3º lugar, na categoria “guitarra”, ficando atrás de Zé Menezes e Garoto Observando a lista publicada, encontramos algumas curiosidades: Na categoria “pequenos conjuntos” o resultado foi: 1º) Djalma Ferreira e os Milionários do Ritmo, 2º) Os Copacabanas, 3º) Johnny Alf. Na categoria “piano”:1º) Fats Elpídio, 2º) Radamés Gnattali, 3º) Dick Farney. Em “Conjuntos Vocais”: 1º) 4 Ases e 1 Coringa, 2º) Os Cariocas, 3º) Garotos da Lua.
*O disco “Parada de Dança nº1″ com Djalma Ferreira e seus Milionários do Ritmo, foi o segundo lançamento da Musidisc de Nilo Sergio.Numa de suas faixas está Tanto Quanto Eu, música de Nestor Campos e Walter Santos, alí interpretada por Helena de Lima. Ainda pela Musidisc no final daquele ano, foi lançado o LP de 10 polegadas “Parada de Dança nº 2″ com também com Djalma Ferreira e seus Milionários do Ritmo. Numa das faixas está Lingua de Sogra, composição de Nestor. A formação desse conjunto é a seguinte: Djalma Ferreira-piano e solovox; Nestor Campos-guitarra; Edigio Bocanera-contrabaixo; Cecy Machado-bateria; Amaury Rodrigues-bongô.
*Baião do Sul, outra composição de Nestor Campos, foi gravada na RCA Victor(80 1086) em 09 de dezembro de 1952 por Zaccarias e seu Conjunto. Esta música também foi gravada pela Orquestra Tabajara de Severino Araújo, integrando o CD Gafieira lançado pelo selo Revivendo.
*Mesquita (vibrafone) e Seu Conjunto gravaram pela RCA Victor, em 4 de fevereiro de 1953, um 78 RPM com o baião Mariá, autoria de Britinho, de um lado e Mulatinho, choro de Nestor Campos e Mesquita, do outro. Esta música foi também gravada por Gaúcho e Seu Conjunto – Rio… Madrugada e Amor – pela RGE em 1958 e também pelo Sexteto Guanabara – Sorvete Dançante nº2 – pela Musiplay em 1963.
*Gravado pela Continental em 10 de junho de 1953, o 78 RPM (16 807) de Dick Farney e seu quinteto interpretando Nova Ilusão (José Menezes e Luis Bittencourt) e o choro João Sebastião Bach (Nestor Campos e Dick Farney) foi muito bem recebido pela crítica e pelo público. Nesta última música os diálogos entre piano e guitarra são notáveis!

4) A fase de ouro
*Em 1954, uma nova geração de músicos se apresentava em boates, especialmente a Beguin, onde aconteciam as chamadas Jam (Jazz After Midnight) Sessions, como noticiou Jayme Negreiros(5):
“Na Boite Beguin (Hotel Glória), como apresentação do que será o Festival de Samba e Jazz organizado por Jorge Guinle e Eduardo Tapajós (Este, gerente do hotel e da boate), haverá à noite uma Jam Session com a participação, dentre outros, dos músicos Johnny Alf (piano), Julinho Barbosa (piston), Guio de Morais, Hélio Marinho (sax tenor), Jorginho (sax alto), Ribamar (piano), Zé Bodega (sax tenor), Nestor Campos (guitarra), Elpídio (piano),Juvenal (baixo), Miranda Filho (bateria) e as cantoras Louis Cole, Lígia e Dolores Duran.”
Aquela boate também organizou ainda em 1954 algumas “Noites da Velha Guarda”, com Pixinguinha, Donga, João da Baiana e os demais que participaram da festa do IV Centenário de São Paulo. Isto mostra como o tradicional e o moderno coexistiam pacificamente. Donga, um ícone da Velha Guarda, assim se manifestou numa entrevista (6):
*Ainda neste ano de 1954 também apareciam, apadrinhados por Garoto, o já notável pianista Luizinho Eça (eles se apresentaram em duo nos bailes noturnos em clubes e/ou residências) e a cantora Silvinha Telles (que cantou acompanhada por aquele violão maravilhoso em saraus e no Salão do Automóvel Clube). Entretanto foi no mercado fonográfico que os novos talentos deixaram sua marca: na maior parte desses trabalhos figurava com destaque o nome do guitarrista Nestor Campos.
“Minha maior alegria é quando vejo surgir uma voz nova, um instrumentista de real valor. Aí tem vocês, por exemplo: Baden Powell, grande solista de violão; Zélia, exímia acordeonista;Alaíde Costa, cantora de voz dolente, com um profundo sentimento dos ritmos brasileiros; Leny Andrade, cantora e pianista de 11 anos; Leila Santos, soprano de invulgar merecimento e Sidney dos Santos Silva, solista de violão e contrabaixista que nada fica a dever aos melhores que temos conhecido e que…é meu neto!”
*O disco de estréia de Johnny Alf como cantor (Sinter-S 770) causou grande impacto na crítica especializada, tendo recebido de Jayme Negreiros (“O Jornal”, 21/09/1954, na seção discos) o seguinte comentário(7):
Alf interpretou Dizem Por Aí, samba-canção de Haroldo Eiras e Victor Berbara e Beija-me mais, samba-canção de Amaurí Rodrigues, acompanhado pela Orquestra Melódica de Lírio Panicali, formada por 4 violinos, viola, cello, harpa, acordeon (Gaúcho), acrescidos de um trio de intenções jazzísticas:Nestor Campos-guitarra; Pedro Vidal-contrabaixo e Manoel Dias-bateria.
“A mais moderna interpretação posta em disco brasileiro até hoje, por um cantor nosso”.

*Formado por João Donato (piano), Nestor Campos (guitarra) e Gagliardi (contrabaixo), o “Trio Donato” gravou um disco (Sinter 00-00.343) com as músicas Se Acaso Você Chegasse, samba de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins e Long Ago and For Away, canção de Jerome Kerr e Ira Gershwin, merecendo discretos elogios da crítica. Jayme Negreiros (8) destaca a boa interpretação, especialmente a de Nestor, no samba de Lupicínio mas é impiedoso na segunda música:
“Não está inteiramente capturado pelo trio o espírito jazzistico, bop, cool mesmo, que ainda tentou dar, o que me admirou muito, visto Donato, Nestor e Gagliardi serem estudiosos músicos e constantes admiradores da moderna música norte-americana”.
*O mesmo crítico musical (9) faz o seguinte comentário sobre um LP que estava sendo gravado por Bonfá:

“O LP “Luiz Bonfá”, com Claudio (violino), Donato (harmônica), Nestor (violão seco), Gagliardi (contrabaixo), Juca (bateria) e com o próprio Bonfá em seu instrumento, será realizado pela Continental. Músicas suaves, bonitas, como só o Bonfá sabe apresentar, variando os temas. Enfim, vai ser um LP ( que se sair como eu ouvi nos ensaios)inesquecível”.

Classificar curiosamente como “violão seco” o violão que Nestor toca, indica que o autor percebeu nele algo inusitado, bem diferente do violão de acompanhamento feito naquela época. Embora também solista, é claro que Nestor atuou como acompanhante no Lp do já famoso violonista e guitarrista Luiz Bonfá.

Realmente saiu o LP Luiz Bonfá pela Continental, LPP-21, mas não da forma anunciada por Jayme Negreiros. A inclusão dos músicos Tom Jobim, Altamiro Carrilho, Quinídio Teixeira e Pedro Vidal revela uma mudança na concepção original do disco. Vamos ao texto da contracapa reproduzido na íntegra:

Este disco, todo ele instrumental, traz a primeira composição de Tom e Bonfá, o choro moderno O Barbinha Branca. (10) Na opinião do autor deste artigo, na faixa Minha Saudade, tanto o violão que acompanha Bonfá quanto o acordeon de João Donato antecipam em 4 anos a famosa batida da Bossa Nova. É muito provável que este violão seja o “violão seco” de Nestor Campos, muito embora seu nome não conste no texto da contracapa. Mesmo tento certeza quase absoluta, creio que somente João Donato poderá elucidar esta questão.
“LUIZ BONFÁ, solista de violão e compositor dos mais aplaudidos da música popular brasileira, é a figura central deste disco, que reúne uma série de números selecionados, sendo alguns de sua própria autoria. DONATO, acordeonista, é o arranjador do samba de sua autoria Minha Saudade, tomando parte, além desta, nas gravações do choro de Bonfá Chora Chorão! E no fox do mesmo autor Canção de Outono. ANTÔNIO CARLOS JOBIM (TOM), pianista e maestro consagrado por sua grande personalidade, está neste disco tocando a valsa Dúvida (Luiz Bonfá) e o conhecido bolero Perfídia (Armando Rodriguez), do qual fez o arranjo. Foi o idealizador também da apresentação de O Barbinha Branca, choro do qual é autor juntamente com Bonfá. ALTAMIRO CARRILHO, consagrado flautista e compositor de sucesso, é o artista que se escuta executando o bolero Perfídia. CLAUDIO (VIOLINO) tem oportunidade magnífica em Uma Prece e Canção de Outono, ambas de Bonfá. QUINIDIO TEIXEIRA é o sax-tenor que executa O Barbinha Branca. Em Violão no Samba, de sua autoria e de grande efeito, Bonfá demonstra seu grande virtuosismo. Completando o disco, o ritmo de João Stockler (Juca) na bateria, e Vidal e Galhardo revezando-se no contrabaixo”.


*Ainda em 1954 Dick Farney gravou pela Continental um LP de 10 polegadas com o seu quinteto formado por ele ao piano, Nestor Campos (guitarra), Silvio Vianna (vibrafone), Gagliardi (baixo) e Hanestaldo (bateria). Dentre as 8 músicas que integram o disco, 2 são de Nestor: Choro nº1 e Nervosinho (choro). Na face A desse disco estão os dois choros de Nestor, além de Fique Calma, samba-choro de Nilton Magalhães e o choro de Sylvio Vianna, O Gênio de Marly. Se o lado A foi dedicado ao que podemos chamar de choro-jazz, o lado B é dedicado ao fox, com uma música de Eduardo Dutra (pai do Dick Farney) chamada Preludio Op 32.
*Quando o romeno Stephen Bernhardt chegou ao Brasil em 1952 talvez nem soubesse que construiria por aqui uma sólida carreira musical com seus discos alcançando altos índices de popularidade. Ele lançou seus dois primeiros Lps 10 pol pela Sinter em 1954 e 1955: “Steve Bernard e Sua Arte” (volumes 1 e 2). O repertório, bem eclético, onde se encontram choros (Ernesto Nazareth, Lina Pesce e Silvio Vianna), valsas e fox, foi executado pelos seguintes músicos: Steve Bernard (órgão), Nestor Campos (guitarra), Hanestaldo Américo (bateria), Silvio Vianna (vibrafone e maracas) e Raul Gagliardi (contrabaixo).

*Nestor Campos pertenceu aos quadros da famosa Rádio Nacional a partir de 1954. Jayme Negreiros já o menciona como contratado por aquela emissora no seu ensaio biográfico. Num livro dedicado a Radio Nacional, ele aparece como integrante do corpo artístico daquela emissora (11). Além disso encontrei no setor de partituras do Museu da Imagem e do Som um arranjo orquestral feito por Nestor para a Canção da Volta, de Antônio Maria e Ismael Neto.Ainda nno mesmo setor dessa instituição, encontrei uma composição de Nestor Campos e Silvio Vianna, intitulada Trevas. É bem provável que ele tenha sido o sucessor de Garoto na Nacional, pois que este rescindiu o contrato com a emissora em 28 de junho de 1954.

*Logo após a morte de Garoto a Musidisc lançou uma série de discos com o novo Trio Surdina (12) formado por Nestor Campos -violão, Gaúcho(Auro Pedro Thomaz) -acordeon e Al Quincas(Joaquim Gonçalves Oliveira Filho)-violino.
Dentre esses discos, gravados entre 1955 e 56, podemos destacar:
  • Boleros Famosos vol I(DL-1003) e II(DL-1005);
  • Ouvindo Trio Surdina vol I(DL-1006), II(DL-1009) e III(Dl-1017);
  • Aquarela do Brasil( DL-1004);
  • Dorival Caymmi,Ary Barroso e Noel Rosa (DL-1007).
O fato desta nova formação permanecer desconhecida por bastante tempo causou uma enorme confusão entre colecionadores e admiradores do Trio Surdina. “Quantos discos Garoto, Chiquinho e Fafá gravaram?” e “Quem são os integrantes do novo trio?” eram as perguntas mais freqüentes. Muito embora cada formação possua sua peculiaridade, seu som característico (Basta comparar “Noel Rosa e Dorival Caymmi” (M-014), formação original, com “Dorival Caymmi, Ary Barroso e Noel Rosa” (DL-1007) com a nova formação), a qualidade técnica era excelente em ambas! Thiago Mello,em seu excelente blog (13), chama a atenção para o excelente violão de Nestor. De fato, podemos observá-lo cuidadosamente através desses discos do Trio Surdina em sua nova formação, e constatar o alto nível técnico, a clareza das frases e a harmonização muito bem construída.
*O primeiro disco de Nestor Campos, um 78 RPM lançado em agosto de 1955 pela Columbia, foi assim recebido pelo crítico Sylvio Tullio Cardoso (14):
Nestor Campos - As Lavadeiras-Um Baixo no Choro.


O conjunto do guitarrista Nestor Campos executa a primeira música despretensiosamente, atentando sempre para a manutenção da linha melódica e do ritmo dançante. O sexteto está bem mais à vontade e desembaraçado no chorinho do reverso (autoria de Nestor), consumido em sua quase totalidade pela guitarra do líder.”
A composição de Nestor a que se refere Sylvio é Um baixo no choro.
*Muito embora a influência do Jazz tenha se manifestado principalmente nesta sua “fase de ouro”, a maior referência musical de Nestor é o choro, o que pode ser percebido através de grande parte de suas composições. Claro, não são composições no sentido ortodoxo do gênero mas que refletem sua leitura particular do choro. O subtítulo “A Fase de Ouro” dado a presente seção se justifica pelo fato de Nestor,entre 1954 e 1956, conseguir se firmar como instrumentista e compositor, além de integrar conjuntos e com os mesmos participar de gravações com expoentes daquele período, isso sem contar com sua atuação na Rádio Nacional onde trabalhou também como arranjador.

5) Música para se ouvir e, principalmente, dançar.
*Os Lps de Nestor Campos lançados a partir de 1956, quase todos, tem uma característica comum: o forte apelo comercial. Isto porém, não significa que ele tenha abandonado a qualidade técnica de suas interpretações e o bom gosto na elaboração de arranjos para grupos de pequena formação.

Pela Musidisc, Nestor Campos lançou 3 LPs:

a)Feitiço-Música da Noite (DL-1014) – Nestor Campos e Seu Conjunto de Boite”, com um repertório eclético que contempla, no lado A, o samba Agora é Cinza, Arrivederci Roma, Madeira, The Rose Tatoo. No lado B ,Dance e não se Canse (Nestor Campos), Cest La Vie, Molly-O, Morena Boca de Ouro.

Confesso que esperava bem mais desse disco de estréia do Nestor Campos. É bem provável que a decepção tenha como raiz a sua mudança de concepção, saindo de uma linha mais progressiva para uma bem mais convencional. Para exemplificar, basta comparar duas composições do próprio Nestor: Choro nº1 e Dance e não se canse, que está no presente disco.Nem tanto por suas inquestionáveis qualidades de executante, mas por essa mudança de concepção e pelo mau gosto na escolha de algumas músicas, o disco deixa a desejar.

Ainda assim o disco tem faixas muito boas como os sambas Agora é Cinza (Bide/Marçal) e Morena Boca de Ouro (Ary Barroso) , C Est la Vie (White/Wolfson) e Molly-o(Bernstein/Fins).
Não existe informação sobre os músicos que tocam nessa gravação os seguintes instrumentos: piano, baixo, vibrafone, acordeon e bateria. É bem provável que Gaucho seja o acordeonista.

b)Boite – Nestor Campos e seu Conjunto de Boite – LP 10 pol-1957″ (Hi-Fi 2).
Nesse disco estão duas composições de Nestor Campos: O bolero Ternura e o choro Passarinho da Noite. Esta última, muito bonita, foi também interpretada por Paulo Moura no Lp Sinter 1743, “Escolha e...dance com Paulo Moura”, lançado em 1958. Nestor participa da gravação dessa faixa, onde a forma de choro da composição fica mais evidente do que não gravação original. A belíssima Too Close to Confort e If You Can Dream são executadas em forma de bolero. A faixa Old Man Mambo é um mambo mesmo. Das faixas restantes, o baião Juntinhos Só Nos Dois e os sambas Mulher de Malandro (Ataulfo Alves) e Corcovado (Steve Bernard/Nazareno de Brito), destaco esta última. Parece incrível como um romeno tenha conseguido captar tão bem a essência do samba, produzindo uma bela melodia!
Em 1962 a Audiola lançou o Lp Ritmos Dançantes, com Nestor Campos. Esse disco é, na verdade, uma fusão dos dois primeiros, comentados acima. De qualquer forma, esse totulo retrata bem no que consistem os dois primeiros discos de Nestor.

c) “Bolero – Mambo – Nestor Campos and his Latin-American Orchestra” (Hi-Fi-2017).
Sebastião Fonseca, que assina o texto da contra-capa desse disco, lá nos informa que Nestor Campos passou seis meses no México para estudar e assimilar a música daquele pais. Esteve em permanente contato com as grandes orquestras da região e abriu seus ouvidos para o puro espirito da musica centro-americana, em especial, o Mambo.
Bem, não sei o quanto de lenda e o quanto de realidade tem no texto de Fonseca, mas o fato é que tal espírito foi mesmo compreendido por "Nestor Campos and his Latin-American Orchestra".

No lado A estão as músicas:
El Reloj/El Bodeguero/Amor Mio/Mambo do Panamá e La Barca.
No lado B:
Que Murmurem/Esperame en el cielo/High society/Sabra Dios e Mi ultimo fracasso.

*Nestor Campos teve, nesta fase, algumas participações importantes como em Turma da Gafieira, Lp 10 pol com músicas de Altamiro Carrilho, contando com o próprio na flauta, Raul de Barros no trombone, Maurilio Santos no trompete,nos saxofones: Cipó, Zé Bodega e Helio Marinho, Nestor Campos na guitarra, Zequinha Marinho no piano, Luiz Marinho no contrabaixo e Edison Machado na bateria. Tal ficha técnica encontra-se no blog VinylManiac(15). Trata-se de um disco de extrema importância no contexto da década de 50.

Também no excelente Porque Brilham Teus Olhos, Nestor e sua guitarra integra o conjunto liderado por Steve Bernard(órgão), tendo ainda Gagliard no baixo, Silvio Vianna na percussão e Anestaldo na bateria. esse disco foi lançado em 1957 pelo selo Fantasia (SPL-1805).
No Lp da Polydor( LPNG 4015, de 1958), Quinteto de K-Ximbinho em ritmo de dança vol III, Nestor participa como guitarrista no grupo liderado pelo genial clarinetista. Os outros integrantes são Vidal no contrabaixo, Water Gonçalves no piano e Hugo Tagnin na bateria. Neste disco aparece uma composição de Nestor, o belo choro Zezinho Teimoso.

Também com K-Ximbinho, participou como guitarrista do seu conjunto no Lp Polydor (LPNG 4025, de 1959) intitulado O Samba de Cartola. O título refere-se ao estilo mais sofisticado em que o samba é aquí apresentado, e não ao genial compositor Angenor de Oliveira, mais conhecido pelo apelido Cartola.

Sem dúvida alguma, a participação mais importante de Nestor nesse periodo e que marca o fim do mesmo, foi no Lp Samba Nouvelle Vague, de Sivuca.
Dele falaremos na segunda e última parte desse artigo.
Uma versão preliminar desse artigo foi publicada no site http://www.sovacodecobra.uol.com.br/

Agradeço à José Carlos Cipriano pela acolhida que tive nesse site quando dos meus primeiros artigos, e pela amizade construida ao longo desse convívio.

REFERÊNCIAS:

(1) Cardoso, Sylvio Tullio.Verbete Nestor Campos,pg 48, no Dicionário Biográfico de Música Popular.Rio de Janeiro, 1965.
(2) Verbete Nestor Campos no Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira.
(3) “O Jornal”, 28 de novembro de 1954, seção Discos, por Jayme Negreiros.
(4) “Os Melhores de 1952”.Jornal do Commércio-05 de março de 1953.
(5) “O Jornal”, 15 de maio de 1954, seção Discos, por Jayme Negreiros.
(6) “A Velha Guarda não silenciou”. Entrevista concedida por Donga (Ernesto dos Santos) à revista Radiolândia. Junho de 1954.
(7) “O Jornal”, 21 de setembro de 1954, seção Discos, por Jayme Negreiros.
(8) “O Jornal”, 03 de setembro de 1954, seção Discos, por Jayme Negreiros.
(9) “O Jornal”, 19 de setembro de 1954, seção Discos, por Jayme Negreiros.
(10)http://jorgecarvalhodemello.blogspot.com-"Colaboração musical: Luiz Bonfá/Tom Jobim.
(11) Pinheiro, Claudia (organização, coordenação e pesquisa). “ A Rádio Nacional: alguns dos momentos que contribuíram para o sucesso da Rádio Nacional”. Nova Fronteira, 2005.
(12)http://jorgecarvalhodemello.blogspot.com-"Desvendando o mistério:Trio Surdina.
(13)http://bossa-brasileira.blogspot.com
(14) “O Globo”. 10 de setembro de 1955. O Globo nos Discos Populares. Sylvio Tullio Cardoso.
(15)http://vinylmaniac1.blogspot.com




1 comentários:

Demerval disse...

Olá, entrei no blog de meu xará Demerval e pude apreciar via algumas apresentações de preciosos instrumentistas a arte da música.
Passei pra dizer da importancia a ser dada "ao saber ouvir", que desde sempre é um dos recursos disponibilizados por Deus a todos para que a harmonia deixe de ser coisa de instantes.
Deixo também um convite para que o Xará Demerval e outros que gostem de ler, entrarem nesse endereço onde postei alguns textos.
Saudações.
Demerval/Uberlandia-MG
http://www.poesias.omelhordaweb.com.br/pagina_autor.php?cdEscritor=3729&cdPoesia=70901