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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O VIOLÃO SECO DE NESTOR CAMPOS-SEGUNDA PARTE

O Violão Seco de Nestor Campos (segunda parte)
                                                          por Jorge Mello.
 1) Na Tv Portuguesa, com Maysa:
Ao iniciar as pesquisas para a minisérie Maysa, quando fala o coração o diretor Jayme Monjardim (filho de Maysa) recebeu um belo presente: imagens inéditas de dois programas feitos por ela para a tv portuguesa em 1959. O título era Encontro com Maysa: um programa com Maysa Matarazo, sendo o mesmo uma realização de Fernando Frazão. 
Começava o programa com uma versão instrumental de Ouça (composição de Maysa e seu maior sucesso), e logo em seguida aparecia Maysa de perfil, fumando um cigarro. Ao fundo um painel com a Baia de Guanabara, com destaque para a praia do Russel, Enseada de Botafogo e o Pão de Açucar. Ela se vira para a frente e diz- Boa Noite- com acentuado sotaque lusitano. Em seguida o apresentador Henrique Mendes tenta, em vão, decifrar o enigma Maysa. É bem melhor deixá-la cantar para que cada telespectador faça sua tentativa. De qualquer modo, estará diante de uma cantora esplêndida, com uma interpretação de arrepiar, numa total entrega, isso sem falar na afinação e divisão.
 Acompanhada por uma orquestra com excelentes arranjos(destaque para o piano),Maysa canta cinco canções: Suas Mãos, Negro Malandro de Morro, Bom Dia Tristeza, E a Chuva Parou e A Resposta.
 O segundo programa começa da mesma forma, exceto pela ausencia do apresentador. Maysa agora canta acompanhada do Conjunto Copacabana( com a seguite formação: Piano, guitarra, baixo e pandeiro) as músicas Brigas, My Funny Valentine, Neste Mesmo Lugar, Chega de Saudade e Eu não Existo Sem Você. Em Chega de Saudade acontece algo inusitado! Ela parece chamar alguém com as mãos...o volume do pandeiro e da guitarra aumentam, pois Caco Velho e Nestor Campos aproximam-se dela e com ela dividem a cena até o final da música. Por sinal, a guitarra de Nestor se faz presente de forma brilhante em todas essas músicas! Creio ser esta a única imagem animada desse grande músico...
Estas apresentações estão no making off do dvd da série Maysa, quando fala o coração.
É também possível assistir a apresentação da música Chega de Saudade no site do Youtube, através do link:
http://www.youtube.com/watch?v=1A6ZqSwKS44
Agradeço ao meu amigo e grande pesquisador Thiago Mello(http://bossa-brasileira.blogspot.com) por essa informação.
2) O encontro com Sivuca
Numa entrevista que concedeu ao site Gafieiras (www.gafieiras.org.br), Sivuca conta que fraturou o crânio ao cair de uma bicicleta quatro dias antes de terminar uma tournê pela Europa com um grupo de músicos brasileiros, com Waldir Azevedo, Edson Machado e Tião Marinho dentre eles. O grupo retornou ao Brasil e Sivuca permanecia internado num hospital, na Itália. Já reestabelecido, ele parte para Portugal e forma um quinteto com os seguintes músicos que por lá se encontravam: Nestor Campos na guitarra, Dimas Sedicias no contrabaixo, Nei de Castro na bateria e Olga Silva nos vocais. Isso ocorreu em 1959, que foi o ano do lançamento do disco (gravado na Europa)de Sivuca intitulado Vê se Gostas. Na entrevista ao Gafieiras ele não cita esse disco e como ele é muito raro, ainda não sei se o quinteto nele participa ou não.
Após obter muito sucesso em Portugal, o quinteto seguiu para Paris. Lá fizeram cerca de quinze audições em casas noturnas, até que finalmente surgiu uma luz no fim do túnel:O cantor brasileiro Silvio Silveira, radicado lá, levou Eddie Barclay, produtor e proprietário da gravadora Barclay para assistir a uma apresentação. Ele gostou muito do que viu, principalmente do acordeonista..."leve esse acordeonista lá, que nós precisamos falar. Os outros podem ficar", foram as palavras de Barclay. Entretanto os integrantes do quinteto tinham um trato entre eles : o primeiro que arrumasse alguma coisa levaria o grupo! Desse modo eles gravaram dois discos por aquela gravadora, por volta de 1963: Rendez-Vouz a Rio e Sivuca e seus Ritmos Brasileiros. Uma curiosidade acerca desses dois discos: Sivuca canta as mais destacadas músicas da bossa-nova, como Samba de Uma Nota Só e Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça e Rapaz de Bem, de Johnny Alf. É interessante também observar nessas músicas, a batida do violão de Nestor.
A temporada de Sivuca na França se estenteu até o início de 1964, embora eu não saiba se Nestor permaneceu com ele. Certamente ele se lançou em carreira solo, como sugerem as imagens das capas dos discos, mostradas no início desse artigo, não mais gravados na Barclay, mas sim na Pacific. 









 


 































3) Nestor Campos em Portugal


* No Restaurante-Bar Dominó:

Após a temporada em Paris, ao invés de incrementar sua carreira internacional, a exemplo do que fez Sivuca, Nestor Campos decidiu fixar residência em Lisboa, passando a se apresentar no Restaurante-Bar Dominó, que ficava no Parque Mayer. Neste restaurante, de propriedade de Maria Luisa Barbosa, com quem Nestor viria a se casar, ele se exibia pra um público cativo, admirador de sua arte. O grande Vinicius de Moraes fazia questão de vê-lo  tocar, sempre quando estava em Lisboa. Apresentavam-se lá também o cantor Nicolau Breyner, a cantora brasileira Carmen Costa e o humorista Raul Solnado, dentre outros.
Nestor privou também da amizade de outros grandes nomes da música brasileira, como Tom Jobim, Baden Powell, João Gilberto e Chico Buarque, como me contou sua filha Maria Benedita de Campos. Ainda segundo ela, seu pai tocou com Duke Ellington e participou como instrumentista, arranjador e compositor de trilhas musicais para filmes protagonizados por Brigitte Bardot e Sidney Poitier. Vale lembrar que Maria Benedita, Alice e Neuza são filhas do segundo casamento de Nestor em Portugal.
José Ribamar Neves Filho, médico, músico e produtor cultural, entrevistou Nestor Campos em 1974, sendo a entrevista publicada na revista Musicalissima, provavelmete em abril daquele ano.
* No Bar Bipi-Bipi: 
Por volta de 1980 um piloto de avião reformado, brasileiro, conhecido como Comandante Sobral, contratou Nestor Campos para tocar no bar de sua propriedade, cujo nome era Bipi-Bipi( em homenagem ao satélite Sputnik). 
Jorge Rosa, um amigo virtual que espero transformar também em real, forneceu-me interessantes informações acerca da personalidade artística de Nestor Campos. Nosso artista era conhecido por não "fazer canjas" com outros músicos.Raramente abria uma exceção e quanto isso acontecia era motivo de comentários sobre as qualidades do músico convidado. Tal foi o caso do bandolinista brasileiro Eduardo Miranda. Este me disse o seguinte:
" Eu toquei um bom tempo com o Nestor Campos...Posso lhe dizer que sem dúvida ele foi um dos maiores músicos que conhecí ao longo da minha carreira musical. Um estilo muito particular que, sem imitar ninguém, conseguia etar ao nível dos maiores violonistas do seu tempo, inclusive Baden Powell ( e não só)".
Outra exceção foi a cantora Mara Abrantes, que interpretou uma canção de Nestor Campos em parceria com Antônio José, poeta portugues. Um Resto de Azul é o nome desta canção que não sei se chegou a ser gravada. Jorge Rosa disse-me que Mara Abrantes tinha uma das mais doces vozes que ele já ouviu.
Sempre que Teresa Rosa, irmã do Jorge, entrava no Bipi Bipi, Nestor cantava para ela a música de Tom e Billy Blanco, Teresa da Praia. Uma das lendas que corriam a respeito de Nestor é que ele teria participado na composição dessa música. Jorge Rosa é enfático ao dizer que Nestor cantava muito bem.
As fotos que abrem o presente artigo foram disponibilizadas por Jorge Rosa, a quem de público faço meu agradecimento.
Na foto de cima, da esquerda para a direita: Abóbora (apelido dado por Tim Maia à Paulo Roberto), Nestor Campos, Zé Candango (pandeiro) e Dalú (surdo treme-treme). Na foto de baixo: Abóbora, Zé Candango e Nestor  Campos.
Nestor Campos faleceu em 1993.

4) Musicografia
1)  ZEZINHO TEIMOSO- CHORO.
 GRAVADO EM 1958 NO LP EM RITMO DE DANÇA-QUINTETO DE K-XIMBINHO-VOL III. POLYDOR-LPNG 4015

2) PASSARINHO DA NOITE- CHORO.
* GRAVADO EM 1957 NO LP NESTOR CAMPOS E SEU CONJUNTO DE BOITE-MUSIDISC HI-FI 2.
**GRAVADO EM 1958 NO LP PAULO MOURA E SUA ORQUESTRA DE DANÇA.

3) JOÃO SEBASTIÃO BACH- CHORO EM PARCERIA COM DICK FARNEY.
*GRAVADO EM 10 DE JUNHO DE 1953 POR DICK FARNEY E SEU QUINTETO.
**GRAVADO EM 1963 NO LP OS FARROUPINHAS-CONJUNTO FARROUPILHA.

4) MULATINHO- CHORO EM PARCERIA COM MESQUITA.
*GRAVADO EM 04 DE FEVEREIRO DE 1953 POR MESQUITA(VIBRAFONE) E SEU CONJUNTO, 78 RPM 80-1103-B
**GRAVADO EM 1958 POR GAUCHO E SEU CONJUNTO NO LP RIO, MAGRUGADA E AMOR.
***GRAVADO EM 1963 PELO SEXTETO GUANABARA NO LP MUSIDISC, SORVETE DANÇANTE, VOL 2.

5) UM BAIXO NO CHORO- CHORO.
GRAVADO EM 1955 POR NESTOR CAMPOS NO 78 RPM DA COLUMBIA, CB-CB 10.176-B.

6) CHORO Nº1- CHORO
GRAVADO EM 1954 POR DICK FARNEY E SEU QUINTETO, LPP 4-CONTINENTAL.

7) NERVOSINHO- CHORO.
GRAVADO EM 1954 POR DICK FARNEY E SEU QUINTETO, LPP 4-CONTINENTAL.

8) LINGUA DE SOGRA- CHORO.
GRAVADO EM 1953 NO LP PARADA DE DANÇA Nº 2, MUSIDISC M-010
POR DJALMA FERREURA E SEUS MILIONARIOS DO RITMO.

9) CHORO Nº 2- CHORO
GRAVADO EM 1957 NO LP DANÇANDO COM STEVE BERNARD, POLYDOR PLNG 4009, POR STEVE BERNARD E SEU CONJUNTO.

10) UM CHORINHO DA CHINA- CHORO EM PARCERIA COM GAUCHO.
* GRAVADO EM 1959, NO LP RIO, MADRUGADA E AMOR Nº 2, POR GAUCHO E SEU CONJUNTO.
** GRAVADO EM 1960 POR CARLINHOS MASAFOLI E SEU ACORDEON.

11) DAMA DA NOITE- BEGUINE.
GRAVADO EM 1953 NO LP PARADA DE DANÇA Nº 2, MUSIDISC M-010
POR DJALMA FERREURA E SEUS MILIONARIOS DO RITMO.

12) DANCE E NÃO SE CANSE-
GRAVADO EM 1955 NO LP 10 POL MÚSICA DA NOITE, MUSIDISC DL 1014, POR NESTOR CAMPOS E SEU CONJUNTO DE BOITE.

13) CHARANGA-
GRAVADO EM 1957  NO LP DEPOIS DAS 10, POLYDOR LPNG 4009, POR STEVE BERNARD COM SEU CONJUNTO DE BOITE.

14) UM RESTO DE AZUL-EM PARCERIA COM O POETA PORTUGUES ANTONIO JOSÉ.
INTERPRETADA POR MARA ABRANTES.

15) BAIÃO DO SUL- BAIÃO.
GRAVADO EM 09 DE DEZEMBRO DE 1952 NO 78 RPM, 80-1086 a, RCA-VICTOR, POR ZACCARIAS E SEU CONJUNTO.

16) FRASES DE AMOR- BOLERO EM PARCERIA COM ALBERTO PAZ.
* GRAVADO EM 13 DE FEVEREIRO DE 1957 NO RPM ODEON 14 369, POR ALAÍDE COSTA.
** GRAVADO POR EMILINHA BORBA NO CD DA REVIVENDO: SUA MAJESTADE, A RAINHA DO RÁDIO.

17) TANTO QUANTO EU- SAMBA EM PARCERIA COM WALTER SANTOS.
GRAVADO EM 1953 NO LP 10 POL PARADA DE DANÇA Nº1, MUSIDISC M-002, POR HELENA DE LIMA COM DJALMA FERREIRA E SEUS MILIONÁRIOS DO RITMO.

18) TREVAS- EM PARCERIA COM SYLVIO VIANNA.
ENCONTRADA NO ACERVO DE PARTITURAS DO MUSEU DA IMAGEM E DO SOM-MIS, RJ.

19) BEDUINO TRISTE- BOLERO EM PARCERIA COM SYLVIO VIANNA.
Gravado em 1958 por Carlos Augusto com a Orquestra de Simonetti, no Lp 10 pol Carlos Augusto vol 1, Polydor197b.

20) TOADA DO BEIJO-EM PARCERIA COM SYLVIO VIANNA.
GRAVADA EM 1956 POR CARMINHA MASCARENHAS NO 78 RPM DA COPACABANA, 5.550-b.
 
Creio sinceramente que o número de composições feitas por Nestor deva ser bem maior que este, mas o que aí está é tudo o que conseguí apurar.
Finalizo este artigo lançando uma sugestão: Por que não lançar um cd com as gravações originais das composições de Nestor Campos, destinando a renda obtida para ajudar na reconstrução da cidade de São Luiz do Paraitinga?

 

2 comentários:

Jorge disse...

Hoje estou orgulhoso. Orgulhoso de ter tido uma pequenina participação neste magnífico trabalho, orgulhoso de ter sido amigo de um dos maiores artistas que o Brasil e Portugal já conheceram e orgulhoso do meu amigo Jorge de Mello, que tira do esquecimento figuras que jamais deviam ter sido esquecidas. Bem haja!

Jorge Rosa

Irinéa MRibeiro disse...

Eu curti muito conhecer um pouco desse artista! Agora estarei mais pertinho do seu blog. Obrigada por ele!