GAROTO & JOHNNY ALF.POR JORGE MELLO.
Garoto e Johnny Alf são frequentemente citados, e com toda razão, como precursores da Bossa Nova. Reportei nesse blog o início da carreira de Alf (1), tendo afirmado que eles não gravaram juntos. Isso não aconteceu dessa forma! Pretendo, através desse artigo, me redimir desse equívoco, explicando como isso aconteceu. Esse blog tem um compromisso com a verdade dos fatos e isto sempre prevalecerá.
Tempos atrás, consultando alguns livros, encontrei referencias a uma gravação feita por eles, o que me despertou grande curiosidade. Em seu antológico livro "Chega de Saudade", Ruy Castro assim descreve os bastidores daquela gravação(1):
"Um produtor da Sinter, Ramalho Neto, convenceu sua gravadora a fazer um 78 rpm com Alf, nem que fosse instrumental.Alf sentou-se ao piano e formou um trio estilo "Nat King Cole" com Garoto ao violão e Vidal ao contrabaixo. Gravaram Falseta, do próprio Alf, e De Cigarro em Cigarro de Luiz Bonfá"
Já no livro "Garoto, Sinal dos Tempos", de Iratí Antônio e Regina Pereira é dito que(2):
"...e uma das pioneiras gravações da Bossa Nova, realizada em 1952, trazendo Falsete, de Johnny Alf e De Cigarro em Cigarro, de Luiz Bonfá, com Alf ao piano, Vidal no contrabaixo e Garoto ao violão".
Fui ao Museu da Imagem e do Som, onde pude escutar o disco com atenção. Fiquei surpreso com a faixa De Cigarro em Cigarro, pois lá não percebi nada que lembrasse tudo o que eu já tinha ouvido (e foi muita coisa!) de Garoto tocando violão. Em relação outra faixa, a minha reação não foi tão forte, mas também ali não identifiquei o violão de Garoto.
Procurei mas não encontrei nenhuma declaração de Johnny Alf sobre a gravação daquele disco, o que aumentava ainda mais minhas dúvidas sobre a eventual participação de Garoto.
Na seção “Variedades Musicais” da revista Carioca, em julho de 1953, foi publicado o seguinte texto assinado por Daniel Taylor(3):
“A Sinter acaba de contratar Alf, uma grande revelação como pianista e compositor. Johnny Alf formou seu trio e já colocou na cara De Cigarro em Cigarro, o grande sucesso do momento e Falseta, um choro de sua autoria. Seu trio está formado de piano (Alf), Kid (violão) e Vidal(contrabaixo)”.
Busquei nos diários do Garoto, dos anos 1952 e 1953, qualquer anotação de gravação com Johnny Alf e nada encontrei! Devo dizer que ele era extremamente cuidadoso e meticuloso, anotando em seus diários com riqueza de detalhes tudo o que fazia. Parecia certo que Garoto não tinha participado da gravação daquele disco!
Recentemente o jornalista e pesquisador Ronaldo Evangelista, de São Paulo, chamou minha atenção para um vídeo disponibilizado no Youtube, com uma gravação raríssima de um programa da extinta Tv Tupi, em 1976, em que Johnny Alf fala sobre a gravação de Falseta.
Tem início o vídeo com Alf ao piano cantarolando uma música. Ele para e diz:
“Falseta é o nome dessa música. Foi um chorinho que eu fiz para completar um 78 rpm, que tinha De Cigarro em Cigarro do outro lado. Era uma música que fiz instrumental. Mas a importância dessa gravação é que eu tinha o concurso do famoso Garoto, um violonista que vocês conheceram bastante, que faz parte também de Gente Humilde. Garoto tocou comigo nessa gravação. Para mim, é até uma espécie de privilégio e um status para a posteridade ter tido Garoto na gravação. Era eu, ele e Vidal no baixo. Garoto tinha muita coisa bonita, era um grande músico, grande pessoa, era gente de coração grande. Pelo menos quem não conheceu Garoto pessoalmente pode comprovar isso pela composição dele que vou apresentar a vocês.”
“Garoto praticamente já era um precursor da Bossa Nova com essa música. Vocês sentiram pela harmonia...”.
Johnny Alf fez sua estréia em discos n 78 rpm Sinter com o samba-canção De Cigarro em Cigarro, o grande sucesso daquele momento, no lado A e com seu choro Falseta no lado B. Em seu depoimento, Alf deixa claro que Garoto participou somente da gravação do lado B. É provável que o violão no lado A seja tocado por Kid, como anunciou Daniel Taylor.
Bem recentemente, em 28 de dezembro, retornei ao Museu da Imagem e do Som com o propósito de ouvir novamente Falseta. O diálogo travado nessa música entre o piano e o violão requer deste um elevado apuro técnico, além de grande conhecimento da linguagem do choro moderno, requisitos esses plenamente satisfeitos por Garoto. Após repeti-la inúmeras vezes na vitrola e comparar o estilo ali empregado com aquele encontrado em Paulistinha Dengosa, choro de Garoto e por ele executado, além, é claro, do fundamental depoimento de Alf, chego à conclusão que eu estava equivocado! O violão em Falseta é mesmo do Garoto.
REFERÊNCIAS:
(1) Johnny Alf-Rapaz de Bem-http://jorgecarvalhodemello.blogspot.com
Esse vídeo pode ser acessado através do seguinte link: http://www.youtube.com/watch?v=-5cTHg-cSp4Alf, ao piano,canta então Duas Contas, acompanhado de baixo e bateria, numa interpretação de tirar o fôlego. Ao terminar, ele acrescenta:Na Discografia da Música Popular Brasileira(4) aparece “set.1953” como data de lançamento do 78 rpm da Sinter nº 256, matriz S-554, mas não traz informações sobre a data da gravação.(2) Castro, Ruy-Chega de Saudade, pg 95. Companhia das Letras, SP. 2ª ed.
(3) Antonio, Irati& Pereira, Regina. Garoto, Sinal dos Tempos, pg 71. Funarte, 1982.
(4) Revista CARIOCA, nº 928- 18 de julho de 1953. Variedades Musicais, pg 38.
(5) Discografia da Musica Popular Brasileira-78 RPM-Nirez, Jairo Severiano, Alcino Ramos e Gracio Barbalho.