O VIOLÃO ENTRA PELA PORTA DA FRENTE DO INSTITUTO NACIONAL DE MÚSICA EM 1908.
por Jorge Mello.
Uma nota publicada num jornal carioca em 05 de julho de 1908 dá o tom exato do evento que ocorreu no Instituto Nacional de Música naquela data(1):
“CATULLO CEARENSE - Realiza-se hoje no Instituto Nacional de Música, as duas horas da tarde, um concerto originalíssimo. Trata-se nada mais, nada menos do que um concerto de violão, dirigido pelo conhecido cantor e no qual tomarão parte diversos artistas do bizarro instrumento (os grifos são meus). Catullo, como se sabe, é o rei da modinha brasileira. Não somos nós que dizemos, é o povo que sabe sentir sua alma simples e ingênua, sentimentalmente aberto para a poesia popular. É o caso de se predizer uma enchente colossal para o originalíssimo concerto.”
Nessa simples nota podemos perceber que não se trata somente de um recital de modinhas (“Catullo dará nessa matinée números exclusivamente de sua lavra”) como noticiou o mesmo jornal em 19 de junho (2), pois também se apresentaram cultores do “bizarro instrumento”. O Maestro Ernani de Figueiredo assim se referiu ao acontecimento(3):
“ a seguir (julho de 1908) o Santos (Quincas Laranjeiras) foi convidado por Catullo da Paixão Cearense para acompanhá-lo numa audição de suas cantatas no Instituto Nacional de Música, onde teve oportunidade de, com Alfredo Imenes, Santos Coelho e outros, apresentar o violão na execução dos clássicos”.
Alexandre Gonçalves Pinto, o Animal, quando escreveu sobre a morte de Quincas Laranjeiras (4): “ Pranteamos aqui o falecimento desse inigualável líder do violão, este que, em companhia de Catullo e José Cavaquinho ,introduziu o violão no Instituto Nacional de Música onde deu uma audição com grandes aplausos, abrindo caminho para que o violão se exibisse nos grandes e aristocráticos salões”.
Carlos Wehrs (5) aponta a popularidade e prestígio de Catullo como essenciais para a cessão do Instituto: “ Alberto Nepomuceno, na direção do Instituto, abriu-lhe as portas do velho prédio da rua Luis de Camões, e o sucesso foi extraordinário, festejado principalmente por aqueles que sonhavam conseguir, para violão, cavaquinho e quejandos, o status que naquela época ainda lhes era negado”.
Wehrs, seguindo de perto o que escreveu Luciano Braga no prefacio do livro Lira dos Salões(6), acusou a presença de muitas e importantes figuras como os maestros Francisco Braga e Henrique Oswald, de Luis Murat, Nestor Vítor, Alberto de Oliveira, Oswaldo Cruz e Guimarães Natal, dentre muitos outros como demonstração da importância daquele acontecimento.
Murillo Araújo, um dos biógrafos de Catullo, dá a sua versão sobre o provável diálogo que resultou na cessão do Instituto para o Recital de Modinhas e Violão(7). Ao fazer o pedido ao diretor daquela instituição, o maestro Alberto Nepomuceno, este ponderou que aquele lugar era o templo da música erudita. E o violão...Nisso Catullo o interrompe e emenda:
“ O violão é um instrumento de capadócios, não é isso sr. Diretor?! Mas não há razoés para ser assim e ainda menos razões para assim continuar sendo. Por quê um tal desprezo por um instrumento afinal tão sonoro como qualquer de seus irmãos melodiosos? E o que dizer da modinha?! É o canto nosso, é a genuína cantiga do povo”.
Nesse instante o maestro Francisco Braga entrou no gabinete de Nepomuceno e fez a defesa da causa de Catullo, saindo este com seu pleito atendido.
Sem dúvida alguma o prestígio que Catullo desfrutava na ocasião foi decisivo para a realização do evento. Entretanto a reabilitação do violão não se daria se a este coubesse apenas o papel de mero acompanhador de modinhas, mesmo contando com o apoio de grandes intelectuais. Catullo era freqüentemente convidado por Luis Murat, Coelho Neto, Hermes Fontes, Alberto Oliveira, Mello Moraes Filho, Silvio Romero, Afrânio de Mello Franco e Afonso Arinos, dentre outros, para participar de saraus. Num desses, na vivenda de Mello Moraes Filho, o prof. Rocha Pombo ouviu Catullo pela primeira vez e encantou-se com sua arte(8). Tal popularidade, entretanto, não era suficiente para reabilitar o violão! Era necessário que ele fosse mostrado como instrumento solista na exibição dos clássicos, e para isso foi de fundamental importância a presença de grandes violonistas como Joaquim Francisco dos Santos (Quincas Laranjeiras) e Alfredo de Sousa Imenes(9).
REFERENCIAS:
(1) Catullo Cearense- Correio dos Theatros- Correio da Manhã, 05/07/1908.
(2) Catullo Cearense- Correio dos Theatros- Correio da Manhã, 19/06/1908.
(3) A voz de uma autoridade sobre o violão- Revista O Violão- Fevereiro de 1929.
(4) Wehrs, Carlos. “Meio Século de Vida Musical no Rio de Janeiro: 1889-1939.”Pg 45. Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro.1990.
(5) Pinto, Alexandre Gonçalves- “ O Choro; reminiscências dos chorões antigos”, pg 134. Typ. Glória, 1936-2ª Ed Mec/Funarte, 1978.
(6) Cearense, Catullo da Paixão- “Lira dos Salões”, Livraria Quaresma editora, 1913.
(7) Araújo, Murillo-“Ontem, ao Luar( Vida Romântica do Poeta do povo, Catullo da Paixão Cearense)”, pg 129- Ed. A Noite, 1950.
(8) Costa, Haroldo- “Catullo da Paixão-Vida e Obra”. Pg 94-ND Comunicação-2009.
(9) Prat, Domingos. “Diccionario de Guitarristas”. No verbete “Alfredo de Sousa Imenes” o autor assim o qualifica: “ Notável Violonista brasileiro, nascido na cidade do Rio de janeiro em 25/08/1865. Como mestre desse instrumento dominava com perfeição a teoria e a técnica da escola de Dionísio Aguado.. Como executante era o que se podia chamar de exímio, podendo-se afirmar que foi o primeiro violonista-músico daquele pais”.
2 comentários:
Adorei sua pesquisa sobe Bororo. Conhecemos melhor Bororó e o Rio Antigo.Trabalhos assim merecem ser bem divulgados.Quando sai seu livro? Abraços.
Olá Yonne!
Tenho dois livros em vista:
1)Biografia do Garoto, que está pronta e deve ser lançada provavelmente em março de 2011.
2)"João Pernambuco e a identidade Nacional", que já comecei a escrever.
Obrigado pelo comentario elogioso.
abs.
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