DEMERVAL DA FONSECA NETO- FURINHA
POR JORGE MELLO
1) Introdução.
A vida artística de Demerval da Fonseca Neto é aquí apresentada de modo fragmentado em função da escassez de dados. Talvez tenha sido exatamente isso que me fascinou e me impeliu a realizar essa pesquisa. Demerval ou Furinha, apelido pelo qual era conhecido no meio musical, era um ás do banjo e tocava também o cavaquinho, bandolim, guitarra havaiana e clarinete. Na música de sua autoria (em parceria com Lamartine Babo) Tristeza Havaiana, interpretada por Francisco Alves com acompanhamento da Orquestra Pan American dirigida por Simon Bountman ele, que era o banjista da orquestra, fez um solo de guitarra havaiana. Duas décadas depois aparece ele tocando clarinete em rodas de choro com músicos do porte de Pixinguinha, Garoto, Radamés Gnattali...ele devia tocar bem esse instrumento! Nesta "segunda fase" de sua vida artística, iniciada na década de 50, concentra-se a maior parte de sua obra musical, a maior parte inteiramente desconhecida.
Desconhecida é também sua formação musical, se teve um aprendizado formal em escolas de música ou se era um músico intuitivo...Sobre o periodo em que se afastou das atividades profissionais da música para se dedicar à odontologia, nada sabemos. temos a suspeita de que sua esposa se chamava Marisa e que um (não sei se o único) filho seu se chama Jorge Demerval da Fonseca. O que aconteceu com Furinha a partir de 1955 é para mim ainda um grande mistério
2) Primeira fase:
Demerval da Fonseca Neto nasceu no bairro do Catumbí, cidade do Rio de Janeiro, em 09 de junho de 1903. Nascido numa família musical, ele começou com o cavaquinho e depois a bandurra (uma espécie de bandolim) (1) até chegar ao banjo. Iniciou sua vida profissional como músico tocando esse instrumento e em 1926 integrou a Orquestra Raul Lipoff, que se apresentava em festas e bailes. Nessa época já er a conhecido nio meio musical pelo apelido de Furinha. Um companheiro seu dessa orquestra, o saxofonista(sax alto) e clarinetista Luis Americano, um dos nossos mais brilhantes compositores e instrumentistas, gravou em 1927 três discos 78 RPM pela Odeon em solos de saxofone tendo a acompanhá-lo um piano e um banjo, sendo que lá não consta os nomes dos respectivos instrumentistas. Tais discos são (2):
i)10.051-a-Leda, valsa de Luis Americano
10.052-b-Sentimento, choro de Luis Americano
ii) 10.052-a-Calamitoso, choro de Luis Americano
10.052-b- Muito me Cantas, choro de Luis Americano
iii) 10.079-a-Na Maciota, polca de Luis Americano
10.079-b- desordeiro, maxixe de Freire Jr.
A suspeita de que o banjo nas gravações acima fora tocado por Furinha foi confirmada através do " disco e meio" gravado pela Odeon por Luis Americano no início de 1929. No primeiro disco a ser comentado agora, Luis Americano participa apenas do lado b:
i) 10.347a- Verinha, choro de Demerval Neto "Furinha", solo de piston por Djalma Guimarães com acompanhamento de piano e banjo.
10. 347-b- Linda Erika, choro de Luis Americano com ele ao saxofone e com acompanhamento de piano e banjo.
A composição de Furinha no lado a desse disco é a evidência máxima de sua participação como banjista em todas essas gravações.
ii) 10.362-a- Dindinha, choro de Luis Americano em solo de clarinete com acompanhamento de piano e banjo
10.362-b-Lisses, choro de Luis Americano em solo de saxofone com acompanhamento de piano e banjo.
Data de 1928 sua primeira composição gravada: Tudo Teu, choro interpretado por Djalma Guimarães na Odeon.
A Orquestra Pan American criada em 1927 pelo violinista e maestro Simon Bountman gravou 50 músicas e participou como acompanhante de inúmeras gravações na gravadora Odeon desde sua criação até 1930. Este número é ainda maior se a Orquestra Pan American do Cassino Copacabana for a mesma criada por Bountman. Eram integrantes da orquestra os seguintes músicos: I. Kolman no saxofone e clarinete, Julio Sammamede no saxofone, Djalma Guimarães no trompete, Caldeira Ramos no trombone, J. Rondon no piano, Amaro dos Santos na Tuba, Demerval Neto no banjo e Aristides Prazeres na bateria (3).
Ainda no final da década de 20 do século passado Furinha integrou a Original Jazz-Band cuja formação era a seguinte: Alberico de Souza "Bequinho" no piano e liderança, Carlos de Almeida (violino), Demerval (banjo), João Macário (piston), paulino (saxofone) e Joaquim na bateria (4). A irmã de Bequinho era casada com seu rival no piano Oswaldo Cardozo de Menezes, estes os pais da também pianista Carolina Cardoso de Meneses. As atividades da Original Jazz-Band limitavam-se a apresentações em festas e bailes.
Não se sabe ao certo a data em que Demerval começou a cursar a Faculdade de Odontologia e nem como ele conseguia, durante esta fase, conciliar seus estudos com sua atividade de músico profissional destacado. Em seu importante livro O Samba o autor, Orestes Barbosa, assim escreve ao falar do papel dos instrumentos no samba(5): E os banjos...Furinha, Pantaleão Cândido de Oliveira, Aristides (Moleque Diabo) e Ernani Braga.
No verbete Furinha encontrado na referência (1) é dito que ele "passou a integrar em 1931 a Orquestra de Simon Bountman no Cassino do Copacabana Palace Hotel na qual atuou até 1935, passando a exercer a partir de então sua profissão de dentista.
Na biografia de Jacob do Bandolim(6) se diz que ele possuia um caderno intitulado Repertório Trivial que constava de 329 títulos de composições de grandes nomes que já fazem parte da história da música popular brasileira. Dentre eles figura no nome de Demerval Neto (Furinha).
3) Segunda fase:
Existe, tomando como base sua discografia, um grande hiato na produção musical de Furinha. Ele ressurge musicalmente em 1951 tendo como parceiro o grande Alberto Ribeiro (que também exercia uma profissão paralela: a medicina). Uma boa parte de sua obra desfilou na década de 50 no programa Um Milhão de Melodias, onde os intérpretes eram acompanhados pela Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali (7). Algumas dessas músicas não chegaram a ser gravadas comercialmente mas felizmente possuem registro seja em discos de acetato ou em partituras (8). Outro personagem fundamental nessa história foi o Garoto (Aníbal Augusto Sardinha). Em comum entre eles: A cidade de Areal que fica um pouco acima de Petrópolis no Estado do Rio de Janeiro. Num papo informal com Tom Jobim, Raphael Rabello e Herminio Bello de Carvalho, Radamés conta que: " Nós estávamos lá em Areal, onde eu tinha um sítio que comprei do Furinha (Demerval da Fonseca Neto). É aquele dentista que tocava banjo no Copacabana com o Simon Bountman. Bom, nós estávamos lá quando o Chiquinho do Acordeom e o Garoto fizeram o São Paulo Quatrocentão e ganharam uma nota violenta. Depois o Garoto ficava lá no nosso sítio. Então ele comprou o terreno ao lado e construiu uma casa lá. O Furinha até é que fez a planta. Enquanto a casa estava sendo construida o Garoto ia lá no meu sítio com a família. Aí eu tocava minha flautinha na sessão de choro à noite. Não havia piano e eu que sou o pior flautista do mundo, tinha o melhor acompanhante..que era o Garoto"(9).
As informações que se seguem forma por mim obtidas na pesquisa que realizei sobre a vida e obra de Garoto. A partir de 1953 os caminhos de Garoto e Furinha se cruzaram com muita frequencia.
Com a casa pronta Garoto passa também a organizar rodas de choro em seu sítio. A primeira delas ocorreu em 27 de março de 1954 com Garoto ao violão, Furinha no clarinete e Radamés na flauta. Naquela ocasião Furinha e Garoto compuseram o choro Fura Fura (Imagem 3).
Em 02 de julho Garoto registrou em seu diário(10): "Luizinho (Eça) e Candinho estão passando o fim de semana conosco no sítio". No dia seguinte eles tomaram parte na já famosa roda de choro com Furinha, Garoto e Radamés.
Duas rodas de choro notáveis aconteceram na casa de Pixinguinha, em 17 de maio e 02 de junho. Com o anfitrião na flauta(1), Radamés ao piano,Pedroca no piston, Furinha no clarinete e Garoto ao violão eles fizeram choros e improvisos inesquecíveis (observação feita por Garoto em seu diário).
Fafá Lemos retornou dos Estados Unidos para passar um tempo com parentes e amigos em 13 de junho. Três dias depois os amigos Furinha, Garoto, Radamés Gnattali e Billy Blanco reuniram-se para homenageá-lo no Tijuca Tenis Clube( Imagem 2).
O último aniversário de Garoto em vida (39 anos) foi comemorado na residência do casal Lia Torá e Julio de Morais, na Urca. Lá estavam Pixinguinha, Radamés Gnattali, Furinha, Fafá Lemos e demais amigos. Uma comemoração com choros notáveis, executados por uma verdadeira seleção (imagem 4). Em 05 de outubro mais uma noitada de choro na residência de Lia Torá, com Garoto, Radamés Gnattali, Furinha e Avena de Castro.
Em 05 de novembro aconteceu a última roda de choro em Areal no ano de 1954, desta vez no sítio de Radamés, com ele, Garoto, Furinha e o Dr. Alberto Ribeiro.
No último dia de 1954 Garoto assim escreveu em seu diário: " Passaremos o Ano Novo com Lia Torá, Furinha, Marisa e famílias".
O Clube do Amigos do Samba ressurgiu no início de 1955 pelas mãos de Garoto e sua (2ª) esposa Cecy. As reuniões eram realizadas semanalmente no bar do Automóvel Clube, na rua do Passeio, tendo a frente Garoto e seu violão, além de convidados como Chiquinho do Acordeon, José Vasconcelos, Avena de Castro, Furinha, Trio da Noite e Sylvia Telles, dentre outros. Certa vez numa dessas reuniões Garoto mostrou sua mais recente criação: o samba-canção Tema e Variações, parceria inusitada com o poeta Manoel Bandeira(11). Dentre os presentes estavam o Prof. Fernando Tude de Souza, sr. Percy Levy e sra, sr Leopoldo Teixeira Leite, srta Edna Savaget, sr. Demerval da Fonseca Neto e sra, Jorge D. da Fonseca e José Vasconcelos dentre outros.
Tudo indica que o Jorge D. da Fonseca citado acima seja filho de Demerval da Fonseca Neto, ou seja, o filho do Furinha...Ocorre que o grande violonista Baden Powell num dos inúmeros discos que gravou (Ebrau BR 404 0019-1972), fez uma homenagem ao Garoto (uma de suas grandes influências) apresentando quatro músicas: Bom de Dedo, Gente Humilde, Pausa para Meditação e Filho do Furinha. É curioso notar que o nome de duas músicas do Garoto que aparecem nesse disco não são os mesmos que aparecem em outros discos também dedicados à ele. O que Baden chama de Bom de Dedo é, na verdade, o choro Jorge da Fusa e o Filho do Furinha, o choro Gracioso. Não sei ao certo o porquê dessa escolha de nomes feita por Baden, talvez algo que só o filho do Furinha possa explicar. Particularmente não acredito que alguém possa colocar o nome Bom de Dedo numa música sua, especialmente o Garoto! Seria mais lógico supor que o nome Filho do Furinha seja atribuido ao choro Jorge da Fusa...
Na minha ânsia de esclarecer essa questão supus que Jorge D. da Fonseca fosse Jorge Demerval da Fonseca e percorrí vários caminhos através do Google até encontrar alguem com esse nome na Associação Nacional dos Servidores da Previdência Social. Entrei em contato com essa associação, explicando meus motivos e pedindo que o Jorge Demerval entrasse em contato comigo (deixei meu tel residencial) para saber se ele é ou nao o filho do Furinha...Até a presente data não obtive resposta. Creio que desvendaria não somente essa questão como certamente preencheria grande parte das lacunas existentes na história do Furinha.
4) Musicografia/Discografia de Demerval da Fonseca Neto (Furinha):
1- Conta uma lenda- choro lento em parceria com Lamartine Babo. Apresentado no programa Um Milhão de Melodias, da Rádio Nacional. partitura disponível no acervo do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro(http://www.mis.rj.gov.br/)
2- Distancia Infinita- samba canção em parceria com Alberto Ribeiro. Gravado por Vero (pseudônimo de Rdamés Gnattali) ao piano acompanhado por seu conjunto em 29/01/1951 na Continental(16.371-b)
3- Festa no Nelito-choro. Apresentado no programa Um Milhão de Melodias pela Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali
4- Foi num Adeus-choro em parceria com Alberto Ribeiro. Apresentado no programa Um Milhão de Melodias da Rádio Nacional.Partitura disponível no acervo MIS-RJ 5-Fura fura-choro em parceria com Garoto. Partitura manuscrito autografado.
6- Itajubá-maxixe. Apresentado no programa Um Milhão de Melodias pela Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali. Partitura disponivel no acervo MIS-RJ
7- Marca Barbante-choro. Apresentado no programa Um Milhão de Melodias pela Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali. Partitura disponível no acervo MIS-RJ
8- Onde Estás-choro. Gravado em 1950 por Vero ao piano, acompanhado por seu conjunto na Continental (16.288-a)
9- (As) Palavras não dizem tudo- samba em parceria com Alberto Ribeiro. Gravado por Elizeth Cardoso na Todamérica(TA-5.145-a) em 25/01/1952 acompanhada por orquestra. Gravação disponível também no Cd Elizeth Cardoso Vol 1 lançado pela RGE em 1997. Trata-se de uma coletânea de músicas gravadas em 78 RPM(13)
10- Tudo Teu-choro. Interpretado por Djalma Guimarães no piston em gravação Odeon (10.094-a) de 1928.
11- Tristeza Havaiana- valsa em parceria com Lamartine Babo. Interpretada por Francisco Alves tenho a acompanhá-lo a Orquestra Pan American de Simon Bountman em disco Odeon (10. 635-b) lançado em julho de 1930, com Furinha fazendo um solo de guitarra havaiana.
12- Venho de Longe-samba em parceria com Alberto Ribeiro. Gravado em 25/01/1952 por Elizeth Cardoso na Todamérica (TA-5.145-b) acompanhada por orquestra. Disponível também no Cd Elizeth Cardoso, lançado pela RGE em 1997.
13- Velhos Tempos-choro sapeca. Apresentado no programa Um Milhão de Melodias.
14- Verinha-choro. Gravado por Djalma Guimarães no piston com acompanhamento de piano e banjo (Furinha) na Odeon( 10.347-a), lançado em maio de 1929. Esta música também foi gravada por Jacob do Bandolim no LP Chorando, da Revivendo (A gravação original encontra-se no LP Roda de Choro gravado na RGE em março de 1960).
Partitura disponível no acervo MIS-RJ
15- Zé Carioca-choro. Apresentado no programa Um Milhão de Melodias
REFERÊNCIAS
1) Enciclopédia da Música Brasileira: Erudita, folclórica e popular, pg 293. São Paulo.Art.Ed,1977
2) Discografia Brasileira em 78 RPM. Azevedo. M. A de (Nirez) et al. Ed Funarte, 1982. Ver também www.memoriamusical.com.br
4) Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira, Vol II,pg 222, Jota Efegê,2ª edição. Ed. Funarte, 2007.
5) Samba-sua história, seus poetas, seus músicos e seus cantores, pg 87, Orestes Barbosa,2ª edição. Ed Funarte, 1978
6) Jacob do Bandolim, pg 34, Ermelinda A. Paz. Ed. Funarte, 1977
7) Radamés Gnattali, o eterno experimentador. Valdinha Barbosa e Anne Marie Devos. Ed. Funarte, 1985.
9) Encarte do Lp Tributo a Garoto- Papo informal com Tom Jobim e Radamés Gnattali- Funarte, 1984
10) Informações obtidas no diário de Garoto- Acervo Jorge Mello 11)Tema e Variações- artigo escrito por Jorge Mello na sérei Cancioneiro de Garoto, em http://www.sovacodecobra.uol.com.br/

3 comentários:
Fico impressionada com sua avidez pela pesquisa e o quanto sabe entrelaçar e desvendar a vida dos músicos e a nossa história musical. Mais uma vez você está de parabéns.Abs. Yonne.
Caro Jorge,
Fiquei bastante feliz em ver a alentada pesquisa sobre o Furinha, que era primo irmão do meu avô, Jayl Fonseca. Eu mesmo o conheci, quando menino, na casa de primos comuns. Caso eu possa lhe ajudar de alguma forma - tenho, pelo menos, uma foto dele, antiga - será, mais do que um prazer, uma honra.
Abraços,
Marcelo Fonseca Fernandes, Petrópolis. RJ
mjfernandes@ig.com.br
Prezado Marcelo.
Agradeço pela generosidade!
A foto do Furinha será de muita valia para ilustrar este artigo.
Muito obrigado!!!
Jorge Mello.
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