
Desaparece Ernani de Figueiredo.
por Jorge Mello.
Em 26 de Fevereiro de 1917 perdia o violão brasileiro um de seus maiores divulgadores, o Maestro Ernani de Figueiredo. Dias antes fora acometido por forte crise de uremia, logo após ministrar uma aula de violão. Ao ser atendido por uma ambulância o médico constatou a gravidade de seu estado, julgando melhor que não fosse removido para sua residência em Jacarepaguá(1). Foi então para a casa de um amigo que morava na Glória, mais precisamente na rua Barão de Guaratiba nº 18(2).
Na ocasião o Jornal do Commercio(3) assim se manifestou: Falleceu hontem, com grande sorpresa para seus amigos e apreciadores, o Maestro Hernani Figueiredo, músico dos mais distinctos e paladino incansável do violão, instrumento de que era exímio tocador". Tal notícia mereceu destaque na 1ª página do jornal Rio de Janeiro, da cidade de Campos(4):
" Falleceu no Rio, repentinamente, o nosso estimado conterrâneo Ernani Figueiredo, moço que dedicou ao violão todo o ardor de sua alma de mestiço e que, ao lado de Brant Horta, trabalhava com ardor para que o violão conquistasse o logar de honra a que tem direito e o destaque que hoje tem". O enterro realizou-se no dia 27 de fevereiro às 17 horas no cemitério de São João Batista, saindo o féretro da rua Barão de Guaratiba.
Foi de fato uma morte não anunciada, pois o maestro encontrava-se em plena atividade. Ocupava o cargo de amanuense no Correio Geral, onde entrou através de concurso.Pouco menos de uma semana antes do ocorrido ele se apresentara na Associação Brasileira de Imprensa, com grande êxito. Deixou também um tratado inédito de harmonia que pretendia ver publicado e o texto de uma conferencia que seria realizada em Campos, historiando seu trabalho em prol do violão. Felizmente, graças a colaboração do Dr. Brant Horta e de Ernani Figueiredo Filho, pode esse texto ser publicado na revista O Violão (5), 17 anos após a morte do maestro. O texto assim começa:
" Na edade em que começam a desabrochar os sonhos e as paixões, já dispunha eu de pequeno cabedal artístico-musical, ministrado pelo saudoso e competente mestre Leopoldo Muylaert e robustecido depois não só pelo pranteado professor Francisco Chagas como pela convivência dos companheiros da " Lyra de Apollo" e os práticos ensinamentos do seu fundador, maestro Lourenço Soares".
De acordo com o professor Vicente Marins Rangel Junior(6), em livro sobre os músicos campistas, Ernani Esmeraldo de Figueiredo foi admitido na Sociedade Musical Lyra de Apollo em 1889, constando no registro que, na época, era solteiro e exercia a profissão de alfaiate. Tinha ele como companheiros Horacio Souza, Alberto Rangel, José Ferraz, Lourenço Soares e Joaquim Passos Barroso. Seus instrumentos eram o piano, clarinete, violino e trombone, tendo o violão entrado em cena por insistência de um amigo de infância, Pedro Silva, que resolveu aprender a tocar violão e elegeu Ernani, que nada sabia do instrumento, como seu professor...O ponto de partida para esse novo desafio foi o método de violão de Matteo Carcasi, já um clássico na época. O aprendizado informal em serestas e rodas de choro foi de extrema importância para Ernani, que se beneficiou do convívio musical com Seraphim Coelho, Chico Barbosa, Chico Pires, Antonico Braulio, Lodugerio Tinôco e principalmente Bernardino José Pereira, o Bernardino Colchoeiro, que o ajudou a desvendar os mistérios da técnica violonística. Já mais seguro em relação ao violão, Ernani deu vários concertos em Campos entre 1889 e 1902, apresentando-se no Gremio Musical Carlos Gomes e no Teatro São Salvador.
Tendo esgotado suas possibilidades artísticas em sua cidade natal, mudou-se para a então capital do pais, em busca de aperfeiçoamento técnico e musical. Ao mesmo tempo em que estudava violão com um professor particular, desenvolvia seus conhecimentos de harmonia, contraponto, fuga, composição e instrumentação com o Maestro Darbelly, então diretor do Conservatório Livre. Por essa época conhece o já famoso violonista Quincas Laranjeiras, apelido de Joaquim Francisco dos Santos, que iniciou sua carreira musical como trombonista da banda da Fábrica de Tecidos Alliança, em Laranjeiras. Passaram então a se apresentar em duo e/ou individualmente(geralmente em eventos contando também com a participação de cantores, pianistas, violinistas, etc...): Audições em casa do Dr. Pedro Tavares-participavam dessas reuniões Fernando Senra, Arthidoro Costa, Zezé Fragoso,José e Mário Cavaquinho, dentre outros; concerto no Conservatório Livre (contando também com Levino Albano da Conceição); Orquestra de Mandolinos do Professor Santos Couceiro; Theatro Lyrico (em 31/10/1904); Concerto em benefício das vítimas da enchente do rio Paraiba, realizado noTheatro S. Pedro de Alcantara(Atual João Caetano); Club Gymnastico Portuguez(11/06/1907), contando também com a presença dos professores Paganini, Eurico Costa e a Maestrina Thereza Deslandes, dentre outros; Fenianos do Meyer(7), apesentação musical de vários artistas, dedicada à Imprensa Carioca-nesta ocasião Ernani apresentou duas composições suas: Souvenir e Enchanteresse.
Em 1909 Ernani foi convidado para se apresentar na Exposição de Belo Horizonte, tendo realizado depois uma série de concertos em várias localidades. Antes de retornar ao Rio de Janeiro, Ernani se apresentou em Juiz de Fora, onde conheceu Brant Horta, que veio a ser seu companheiro em memoráveis concertos.
Em 1910 participa da exibição do guitarrista portugues Santos Coelho, em 8 de maio, na Associação dos Empregados no Commercio e, ainda no mesmo ano, participa da apresentação de Magalhães Peixoto, no Club Gimnastico Portuguez. No ano seguinte fez várias apresentações: Festa no Club dos Democráticos, em 12 de janeiro(8); Concerto em beneficio da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, realizado em 24 de fevereiro na Associação Cristã de Moços; Audição na Associação dos Empregados no Commercio, em 8 de setembro.
Através de um amigo comum, Dr. Paranhos de Macedo, Ernani foi convidado pelo próprio Presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca, para uma audição musical no Palácio do Catete, onde acompanharia ao violão a Primeira Dama, Nair de Teffé da Fonseca, exibindo-se também em solos de violão (9). Este acontecimento gerou uma grande polêmica, por constar do progama da audição a música Corta Jaca, autoria da Maestrina Francisca( Chiquinha) Gonzaga. O cronista carioca João Ferreira Gomes ( JOTA EFEGÊ) em artigo originalmente publidado em O Globo(10) e depois relançado no seu excelente livro Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira(11), historia este acontecimento citando a indignação (por motivação politica) do senador Ruy Barbosa (adversário político de Hermes da Fonseca)quanto a apresentação da música de Chiquinha Gonzaga. Em discurso no senado ele assim se pronunciou:" Uma das folhas de ontem (referia-se ao vespertino A Noite) estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, a da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam ao País o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o Corta-Jaca à altura de uma instituição social. Mas o Corta-Jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? É a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmão gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas, nas recepções presidenciais o Corta-Jaca é executado com todas as honras de música de Wagner e não se quer que a consciência deste País de revolte, que as nossas se enrubesçam e que a mocidade se ria!". Tal discurso foi publicado em 8 de novembro de 1914 no Diário do Congresso Nacional e teve ampla divulgação na imprensa oposicionista. Cabe dizer que o Corta-Jaca foi executado pela Primeira Dama em solo de violão. Ainda neste instrumento ela executou Pensée Melodique, de Cotin, cantou Cart du Gondolier com Ernani de Figueiredo a acompanhá-la ao violão e depois, ao piano, executou a Rapsodie, de Liszt. Ainda segundo Efegê, participaram daquela audição em 26 de outubro de 1914, além da sra. Nair de Teffé, sra. Nícia Silva, Comendador Artur Napoleão, Dr. Leopoldo Duque Estrada, Maestro Ernani de Figueiredo e o sr. Monteiro Diniz.
O restante dessa história está registrada no meu artigo O Concerto Ernani de Figueiredo/Brant Horta em 1916, publicado neste blog em 18 de janeiro de 2009. Vale lembrar que Ernani aparece no famoso livro O Choro(12), como Hernandes Figueiredo: Infelizmente o que é bom dura pouco. A morte com seu alfange tudo corta, apaga da vida homens que se ainda vivesse, faria a maior gloria do nosso caro Brasil. Hernandes de Figueireso está nesse caso...O grande professor sustentou uma polemica pelos jornaes desta capital, quando aqui esteve o tambem immenso violão Bairrios, sobre o violão, sua tonalidade, o encordoamento...". Este livro, apesar de mal escrito, é de fundamental importância para a história do choro e de seus personagens.
Para finalizar vamos citar Domingo Prat, que assim se referiu à Ernani de Figueiredo em seu famoso Diccionario de Guitarristas: En su patria se le ha considerado, y en verdad que lo ha sido, la más alta e indiscitible autoridad guitarristica...Fué indudablemente, y antes que Quincas Laranjeiras quem ha impuesto por toda la grande extension brasilena la pasion por la guitarra".
Quero fazer aquí um agradecimento especial ao meu amigo Godo Quincas, que muito me auxiliou nas pesquisas sobre o violão brasileiro realizadas no setor de microfilmagens da Biblioteca Nacional.
REFERENCIAS:
REFERENCIAS:
(1) O Fallecimento do Maestro Ernani Figueiredo- A Noite. 27/02/1917.
(2) Actos Funebres: Ernani Figueiredo- Correio da Manhã. 27/02/1917.
(3) Fallecimentos- Jornal do Commercio-27/02/1917.
(4) O Violão perdeu seu maximo cultor no Brazil- O Rio de Janeiro. 28/02/1917
(5) A voz de uma autoridade sobre o violão- Revista O Violão- fevereiro de 1929.
(6) Recortes da Memória Musical de Campos(1839-1965)- Vicente Marins Rangel Junior- Ed. Damadá, 1992.
(7) Fenianos do Meyer- Jornal do Commercio, seção: Festas e Bailes. 19/07/1908.
(8) "Foram trocados vários brindes e a reunião terminou com um concerto, de que o magnífico violão do Ernani foi a nota palpitante"-A Tribuna. 13/01/1911.
(9) O Violão, op. citt.
(10) O Globo. 27/03/1973.
(11) Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira, vol II, pg 128/130-Jota Efegê-ed. Funarte 2007(2ª edição)
(12) O Choro- Alexandre Gonçalves Pinto- MPB reedições-Ed. Funarte-1978.
1 comentários:
Prezado professor Jorge,
foi com muita emoção que tive contato com seu blog: por curiosidade, joguei o nome de Ernani Esmeraldo de Figueiredo no Google.
Tenho uma relação bem pessoal com o Maestro Ernani: é meu bisavô.
Gostaria de entrar em contato com o senhor para falar a respeito dele. Meu e-mail é luisfelipe.figueiredo@gmail.com
Abraço,
Luís Felipe.
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