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terça-feira, 24 de março de 2009

Colaboração musical: Luiz Bonfá/Tom Jobim

LUIZ BONFÁ/TOM JOBIM: COLABORAÇÃO MUSICAL.

POR JORGE MELLO.




Introdução:

Dois grandes músicos e compositores que desenvolveram um trabalho de cooperação da maior importância na Música Popular Brasileira: Luiz Bonfá e Tom Jobim. Através do pioneirismo de suas canções e atuações como instrumentistas, pode a Bossa Nova encontrar um solo fértil para se desenvolver. Quando este movimento se consolidou, lá estavam eles, no topo! Cada um deles teve carreira vitoriosa no exterior. Bonfá como um dos maiores violonistas que o Brasil produziu, além de compositor de páginas inesquecíveis como Manhã de Carnaval, The Gentle Rain e Samba de Orfeu e Tom como o compositor inigualável, bastando citar Desafinado(com Newton Mendonça), Samba de uma nota só(com Newton Mendonça), Corcovado, Insensatez(com Vinicius de Moraes), Samba do Avião, Dindi( com Aluisio de Oliveira), Retrato em branco e preto(com Chico Buarque) e tantas outras mais. Focalizamos neste artigo os momentos mais marcantes de tal colaboração, com destaque para a parceria entre ambos em 7 músicas gravadas.


(1) O Encontro

Na emocionante e emocionada biografia de Tom Jobim escrita por sua irmã Helena(1) o primeiro e inusitado encontro, nada musical, entre Tom e Bonfá é descrito de forma tão bela e singela que optei por transcrevê-lo, para não perder uma palavra sequer de tão deliciosa narrativa:
Foi na Continental que Tom reencontrou Luiz Bon fá, que conhecera como pescador anônimo nas pedras do Arpoador. Ao vê-lo, lembrou que certa vez estava pescando há bastante tempo e só conseguira um pampinho-gualhudo. Tinha esperança de pescar outros peixes, mas já antecipava o prazer de fritar o papinho quando chegasse a casa. Outro pescador, a certa distância dele, aproximou-se e perguntou se Tom se importaria em ceder um pedaço do peixe para fazer iscas. Acreditava que as enchovas estavam chegando. Constrangido, Tom deu-lhe um pedaço do peixe. Naturalmente jamais esqueceria o rosto desse pescador. Os dois se divertiram com a lembrança do fato e vieram a se conhecer e a se respeitar como músicos.

Com 12 discos na Continental como solista e tendo várias composições suas gravadas por intérpretes do quilate de Dick Farney, Johnny Alf e Nora Ney, Bonfá já era um violonista consagrado, capaz de acordes impossíveis e um grande compositor quando por lá encontrou Tom Jobim. Este, após sair do “cubo das trevas”, o circuito de boates e inferninhos da zona sul, onde varava as noites tocando piano, conseguiu um lugar na Radio Clube, onde ficou por um breve período, até ser convidado por seu amigo Paulo Soledade para trabalhar na Continental, como assistente de direção artística, no início de 1954. Aprendeu com Radamés Gnattali, diretor artístico da gravadora neste período, muitos dos segredos da orquestração (2).

É bem provável que Tom e Bonfá já se conhecessem quando a Continental fez desfilar o seu elenco para promover o lançamento das canções para o segundo semestre de 1954. Todos os intérpretes foram acompanhados por um trio memorável, formado por Garoto (gentilmente cedido pela Odeon) na guitarra, Galhardo no contrabaixo e Antônio Carlos Jobim (Tom), pianista e acessor musical da Continental (3). Luiz Delfino, o apresentador do evento, anunciava os nomes dos artistas e as músicas que iriam interpretar. Desta forma apresentaram-se Dick Farney com Outra Vez (Tom Jobim), Lúcio Alves com Esperança Perdida (Tom Jobim) e Valsa de Uma Cidade (Antônio Maria e Ismael Neto), Lúcio e Dick (juntos) em Tereza da Praia (Tom e Billy Blanco) e Casinha pequenina (Lúcio Alves), Nora Ney com Solidão (Tom Jobim) e O Que Foi Que Eu Fiz? (Luiz Peixoto e Augusto Vasseur), Luiz Bonfá com duas músicas de sua autoria: Triste Dúvida e Velhos Tempos. Também participaram deste evento os seguintes artistas: Jorge Goulart, Bill Far, Marlene, Os Cariocas, Trio Nagô e Bené Nunes. No final da apresentação, que foi realizada no Clube do Cinema, Garoto compôs na hora uma música por ele chamada de Noite Maravilhosa. Deve ter sido mesmo... Este evento marca o nascimento da parceria musical de Luiz Bonfá e Tom Jobim, além da afirmação deste como compositor.

(2) As Primeiras Colaborações:

Surgem então os primeiros discos, em que Bonfá aparece como líder de conjunto e Tom como pianista e arranjador. Jayme Negreiros (4) fez a resenha do disco 78 RPM lançado pela Continental, o primeiro da colaboração entre eles:

“Velhos Tempos e Baião em Bagdad-Luiz Bonfá e seu Conjunto. Continental 16952.
Dois números do próprio Bonfá. As linhas melódicas de ambos não apresentam nada de novo, sendo que a do chorinho é melhor, captando, bastante, um sabor antigo. Os arranjos (excelentes em simplicidade, profundos, porém, em concepções) são do pianista e compositor Tom e a turma que gravou com Bonfá ficou assim composta: Donato (acordeom), Gagliardi( Contrabaixo), Juca (bateria com escovinha), Cópia (clarinete) e o próprio Tom ao piano celeste. Todos tirando sons modernos”.
O mesmo crítico musical (5) faz o seguinte comentário sobre um Lp que estava sendo gravado por Bonfá:
“ O LP Luiz Bonfá, com Claudio (violino), Donato (harmônica), Nestor (violão seco), Gagliardi (contrabaixo), Juca (bateria) e com o próprio Bonfá em seu instrumento, será realizado pela Continental. Músicas suaves, bonitas, como só o Bonfá sabe apresentar, variando os temas. Enfim, vai ser um LP ( que se sair como eu ouvi nos ensaios)inesquecível”.
Realmente saiu o LP Luiz Bonfá pela Continental, LPP-21, mas com algumas alterações em relação aos músicos participantes(6), (7). Na contracapa do mesmo encontramos as seguintes informações:

“ LUIZ BONFÁ, solista de violão e compositor dos mais aplaudidos da música popular brasileira, é a figura central deste disco, que reúne uma série de números selecionados, sendo alguns de sua própria autoria.

DONATO, acordeonista, é o arranjador do samba de sua autoria Minha Saudade, tomando parte, além desta, nas gravações do choro de Bonfá Chora Chorão! E no fox do mesmo autor Canção de Outono.

ANTÔNIO CARLOS JOBIM (TOM), pianista e maestro consagrado por sua grande personalidade, está neste disco tocando a valsa Dúvida (Luiz Bonfá) e o conhecido bolero Perfídia(Armando Rodriguez), do qual fez o arranjo. Foi o idealizador também da apresentação de O Barbinha Branca, choro do qual é autor juntamente com Bonfá.

ALTAMIRO CARRILHO, consagrado flautista e compositor de sucesso, é o artista que se escuta executando o bolero Perfídia.

CLAUDIO( VIOLINO) tem oportunidade magnífica em Uma Prece e Canção de Outono, ambas de Bonfá.

QUINIDIO TEIXEIRA é o sax-tenor que executa O Barbinha Branca.

Em Violão no Samba, de sua autoria e de grande efeito, Bonfá demonstra seu grande virtuosismo.
Completando o disco, o ritmo de João Stockler (Juca) na bateria, e Vidal e Galhardo revezando-se no contrabaixo”.
Este disco, todo ele instrumental, traz a primeira composição de Tom e Bonfá, o choro moderno O Barbinha Branca. Na opinião do autor deste artigo, a faixa Minha Saudade, onde se percebe o violão seco de Nestor Campos, antecipa a Bossa Nova em 4 anos.
Tom Jobim adorava o violão tocado por Luiz Bonfá, e gostava muito de suas composições. Numa entrevista(8) ele declarou que “Gravou muito, depois eu gravei com ele, como instrumentista. Gravei muita música do Luiz Bonfá. Eu ainda carregava aqueles instrumentos pesadíssimos, os auto-falantes do violão. Aquilo era um desastre, um peso que o Bonfá não podia levar, por causa da mão de tocar violão”.

(3) As Composições da Dupla:

O Barbinha Branca teve apenas aquela gravação no LP 10 pol Luiz Bonfá, que já comentamos. João Gilberto faz uma citação do início desta música em sua composição Um Abraço no Bonfá, onde presta uma homenagem ao violonista.

Samba não é Brinquedo foi gravado pela primeira vez por Dora Lopes, acompanhada de Luiz Bonfá e seu conjunto(Tom ao piano), pela Continental (C-3773) em 24 de fevereiro de 1956. A letra é um manifesto contra as versões que assolavam o mercado fonográfico brasileiro nos anos 50: “Se Noel (Rosa) ainda estivesse aqui, acabava logo com a versão”

Um ano após a morte de Tom Jobim, foi lançado na França, pela Kardum, um cd(KAR 270) com “músicas inéditas” de sua autoria. Trata-se de um engodo! Parte desse disco foi aproveitada no cd duplo “Do Brasil”, The Gold Colletions. No cd 1, são atribuídas ao Tom a autoria de 10 músicas: Three Notes Samba, Samba de Amor, Cupids, Live For Tomorrow, Janelas Abertas, Samba Não é Brinquedo, Girl Upstairs, Estrada Branca, Incerteza e O Morro. Entretanto, apenas as músicas sublinhadas são de autoria de Tom Jobim. Estas foram executadas por um quarteto instrumental (não identificado) com a seguinte formação: piano, baixo, guitarra e bateria. As demais músicas são de autoria de Luiz Bonfá, quase todas com títulos falsos! Apenas Samba de Amor (que integra o cd Jazz Samba Encore! Stan Getz/ Luiz Bonfá) está com o título correto. Three Notes Samba é, na verdade, Ebony Samba, do cd Getz/Bonfá. As demais são composições de Bonfá, encontradas no cd Luiz Bonfá Plays and Sings Bossa Nova: Cupids= Ilha de Coral, Live for Tomorrow=Domingo a noite, Girl Upstairs= Silêncio do Amor. Na mesma faixa de Samba Não é Brinquedo encontra-se Sambalamento, de Bonfá. Neste lamentável episódio foram lesados Tom (principalmente), Bonfá e o já mencionado quarteto instrumental, por sinal excelente, que não recebeu nenhum crédito. De qualquer forma esta foi a segunda gravação, e a única em versão instrumental, de Samba não é Brinquedo.

Engano(samba-canção) foi gravada por Dóris Monteiro em 10 de fevereiro de 1956, acompanhada pela Orquestra Continental (C-3756). Uma partitura encontrada no acervo do Instituto Antonio Carlos Jobim, com o ano de 1955 ao lado do título da música, sugere que tenha sido este o ano em que foi composta. Esta música foi recentemente interpretada por Fátima Guedes, no interessante cd Outros Tons, gravado em 2006 pela Rob Digital.

Domingo Sincopado (instrumental), a segunda parceria instrumental da dupla, foi gravado por Edú da Gaita pela Continental em 20 de abril de 1956 com arranjo orquestral (para 4 trombones, 4 violinos, piano(Tom), contrabaixo, guitarra(Bonfá) e gaita) de Tom Jobim. Esta música também consta do LP Noite e Dia, de Luiz Bonfá e Ed Lincon, gravado pela Continental e lançado em 1957. Motivado pelas homenagens prestadas aos 80 anos de Tom Jobim, o músico Mario Adnet lançou o maravilhoso Jobim Jazz, com Domingo Sincopado abrindo o cd. Encontra-se no maravilhoso acervo do Instituto Antonio Carlos Jobim(IACJ) um outro arranjo para esta música, feito por Tom: 5 saxofones, 3 trompetes, 2 trombones, 8 violinos, guitarra(Luiz Bonfá) e contrabaixo.

A Chuva Caiu (toada-baião) gravada em 1956 por Ângela Maria(9) na Continental, disco nº 5540, obteve grande sucesso. Certamente isso motivou o compositor paraguaio Amado Smendel a abrir um processo contra os autores desta música, por considerá-la plágio de uma composição de sua autoria intitulada Mboracjhu(10). Esta música, uma guarânia, foi gravada por Smendel , acompanhado peloTrio Guaraní (do qual Luiz Bonfá era integrante), na RCA Victor em 27 de abril de 1939...Smendel disse que Bonfá copiou a música! É bem verdade que eles tiveram uma longa convivência musical: foram parceiros na rumba Buenas Noches Senõrita, lançada pela Continental em julho de 1945 e Smendel também se apresentou no Cassino São Vicente, acompanhado do Trio Campesino, do qual Bonfá participava(11). Mas daí a dizer que Bonfá copiou a música... O processo não deu em nada, já que o autor do mesmo não anexou nenhum documento comprobatório.

Bonfá e seu conjunto gravaram a versão instrumental de A Chuva Caiu pela Continental em 20 de abril de 1956. Nesta gravação, em que ocorrem variações ritmicas(da toada-baião até o jazz) e improvisos, percebemos o grande entrosamento musical que existia entre Bonfá e Tom e como este estava à vontade no seu piano!
Outras gravações: Eugene D’Hellemmes e sua orquestra(1957), Orquestra Violinos de Ouro (1962) e Fátima Guedes(2006).

Amor sem Adeus. O Lp O Violão de Luiz Bonfá, gravado no Rio de Janeiro em 1959 e relançado recentemente em cd pela MCD(veja o comentário de Luis Nassif em 05/08/2006), traz a primeira gravação dessa música na voz e violão de Bonfá. Em 22 de dezembro do mesmo ano Dick Farney (voz e piano), acompanhado por Valdemiro Lemke e Sua Orquestra, gravou pela Odeon (disco nº 14 578) este belo samba-canção. Ainda naquele ano, esta música foi gravada na RCA Victor(BBL 1065) pelo cantor Luis Claudio.Em 1960, pela Odeon, outra gravação: Novamente Bonfá, mas dessa vez acompanhando ao violão a cantora Norma Sueli. No ano seguinte, no Lp Sylvia Telles USA(Odeon), a cantora interpreta esta música de forma magistral. A última gravação, até a presente data, desta música foi feita por Itamara Koorax, em 1996. A cantora dedicou um álbum inteiro à música de Bonfá, que também participa do disco: Almost in Love-Itamara Koorax sings the Luiz Bonfá Songbook.

Esta bela música foi provavelmente composta entre 1955/56. Uma anotação encontrada no acervo do IACJ, feita num caderno de partituras, revela que esta música foi concebida como um bolero e que permaneceu como “música inédita de Tom e Bonfá” durante algum tempo.O próprio Bonfá declarou(12): Uma das muitas canções feitas em parceria com Tom Jobim em meados dos anos 50.

Correnteza é, sem dúvida alguma, a música mais conhecida da dupla Tom/Bonfá, especialmente por estar na trilha sonora de uma das melhores novelas da Globo: O Rei do Gado.Não há quem não se emocione com a interpretação de Djavan para esta música, com destaque para o belíssimo arranjo feito por ele. Contabilizamos 29 gravações dessa música! A primeira delas foi feita pelo cantor mineiro Luis Cláudio no LP Cantigas, lançado pela Odeon em 1973. A segunda foi feita por Miucha, no LP de mesmo nome, lançado pela Philips em 1975, e a mais bela de todas por Tom Jobim no maravilhoso álbum Urubú, lançado pela WB Records/WEA em 1976. Dois anos depois Wilson Miranda, no disco Relêvo, da Continental. Com participação especialíssima de Tom Jobim, o grupo vocal Boca Livre, no LP independente Bicicleta,em 1980. Em 1988 no LP Grupo Chovendo na Roseira interpreta Tom Jobim, lançado pela Som Livre. Fechando a década de 80, Amazonas-Familia Jobim(1989), BMG-Ariola/Som Livre. The Other Side of Jobim-Ana Karam(1992). No ano de 1995:Dori Caymmi e a cantora holandesa Josee Koning, cd lançado pela Columbia; Joyce e Toninho Horta, cd Sem Você, lançado no Japão(Omagatoki), relançado pela Biscoito fino em 2007. Ithamara Koorax em Rio Vermelho. Claudio Nucci e Nós & Vozes pela Atração Fonográfica. Vânia Bastos & Cordas-Canções de Tom Jobim, pela Velas e 16 canções de tamanha ingenuidade- Eliete Negreiros e Quinteto, pela Eldorado. Em 1996: Almost in Love, Ithamara Koorax, pela Imagem; Malásia-Djavan, pela Sony Music eEdú Lobo, no Songbook Antonio Carlos Jobim, vol 1, pela Lumiar. Em 1998 Saulo Laranjeira em Fulô da Laranjeira, vol 1.Ainda no mesmo ano em Bambú, com o grupo formado por Cristina Braga(harpa), Ricardo Medeiros (contrabaixo), José Staneck(gaita de boca), Bárbara Lau (voz) e Russel May (percussão). Fechando a década de 90, Quarteto Jobim-Morelenbaum, pela Velas em 1999. Pena Branca no cd Semente Caipira, pela Kuarup em 2000. Tavinho Bonfá em Um Banquinho, um Violão, pela Seven Music em 2001.Ainda no mesmo ano Tibó Delor em No Tom da História-A Música de Antonio Carlos Jobim. Em 2002:Gilvan de Oliveira em Violão Caipira, pela Kuarup; Orquestra Popular de Câmara, em Danças, Jogos e Canções e o grupo vocal Tom da Terra em Brasil Branconegro,cd lançado pela CPC-Umes. Em 2004, Maria Bethânia, com participação especial de Miucha em Brasileirinho ao vivo, pela Biscoito Fino. No mesmo ano e pela mesma gravadora, Quarteto Maogani em Água de Beber. Filó Machado e Cibele Coutinho em Tom Brasileiro, pela Lua Discos em 2005. Finalmente, a dupla Mayck e Lyan no cd Defendendo a Tradição, lançado pela EMI em 2006.

Num dos cadernos de música de Tom Jobim (Acervo IACJ) há uma anotação feita de próprio punho com o seguinte conteúdo:
Músicas Inéditas com Luiz Bonfá.
1) Adeus
2) Toada-(ter Saudade)
3) Tudo foi sem querer
4)Brigamos outra vez

As respectivas partituras não foram ainda localizadas, o mesmo acontecendo com as letras.
Suspeitamos que Amor se trate, na verdade, da composição Amor sem adeus e que a toada seja Correnteza.
Na parceriaTom/Bonfá, a exemplo do que também acontecia na de Tom/Newton Mendonça, ambos faziam letra e música.

(4) Orfeu da Conceição, Orfeu do Carnaval, Copacabana Palace, Carnegie Hall e Jazz Samba Encore!

Maio de 1956. Numa das mesas da Casa Vilarino, que ainda funciona na esquina da Av.Presidente Wilson com Calógeras, estavam Vinicius de Moraes, Lucio Rangel e Haroldo Barbosa. A conversa entre eles naquele final de tarde girava em torno da peça Orfeu da Conceição, de Vinicius. O poeta convidara o maestro e compositor Oswaldo Gogliano (Vadico), mais conhecido por suas parcerias com Noel Rosa em sambas como Feitiço da Vila, Conversa de Botequim e Feitio de Oração, dentre outras. Vadico não pode aceitar o convite devido à problemas de saúde, já que sofrera um enfarte há pouco tempo.

Quem poderia então musicar a peça de Vinicius, na qual o mito grego de Orfeu era transposto para uma favela carioca? Justamente naquela hora, numa mesa perto deles, estava o então jovem compositor e arranjador Antonio Carlos Jobim, bebendo uma cervejinha. Lucio Rangel percebeu a presença de Tom e sugeriu seu nome para Vinicius. Surgiu daí aquela célebre história em que Tom ao ser convidado por Lucio, teria perguntado a este: Tem um dinheirinho nisso aí? O fato é que desse encontro surgiu uma, quem sabe a mais, importante parceria da música popular brasileira. A lira do Orfeu grego deu lugar ao violão do Orfeu negro, vivido por Haroldo Costa. O violão deveria ser tocado por mãos hábeis, daí então a escolha de Luiz Bonfá. Este era o responsável pelos solos de violão, como na Valsa de Eurídice em que ele toca com uma Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal sob a regência do Maestro Léo Peracchi, quanto nos acompanhamentos dos sambas Um Nome de Mulher, Se Todos Fossem Iguais a Você,Mulher sempre mulher,Eu e o Meu Amor e Lamentos no Morro, compostos por Tom e Vinicius. Bonfá fazia a “dublagem” do violão que Haroldo Costa fingia tocar. A peça cuja estréia se deu em 25 de setembro no Theatro Municipal, foi por lá apresentada até o dia 30 de setembro. O desempenho de Luiz Bonfá mereceu o seguinte comentário(13): Maravilhosamente executadas pelo grande artista que é Luiz Bonfá, as composições de Antonio Carlos Jobim se enriqueceram e ganharam ainda maior estatuto, como que para demonstrar a injustiça do conceito de que o violão é instrumento de poucos recursos. A valsa Eurídice, aproveitada sinfonicamente, é digna de figurar nos programas dos concertos eruditos.

Ainda em 1956 a gravadora Odeon lançou o LP 10 pol (MODB. 3.056) Orfeu da Conceição, com Tom Jobim regendo a Orquestra Odeon e Roberto Paiva interpretando os sambas da dupla Tom/Vinicius e no violão, novamente Bonfá. No texto da contracapa do disco Vinicius de Moraes assim se referiu ao violonista: Notável, sob todos os pontos de vista, o violão de Luiz Bonfá. O nosso caro e grande Bonfá, como é sabido de todos, é responsável pela execução, na orquestra, do violão de Orfeu da Conceição- o que lhe assegura de saída a excelência de qualidade que o mito requer.

Marcel Camus dirigiu o filme Orfeu do Carnaval (Orphée Noir na França e Orfeo Negro na Itália) adaptando para o cinema o texto de Vinicius em roteiro assinado por ele e por Jacques Viot e com produção de Sacha Gordine. Camus não desejava aproveitar nenhuma das músicas compostas para a peça Orfeu da Conceição, pedindo então a Tom Jobim e Vinicius de Moraes que escrevessem novas canções. Nesta época Vinicius encontrava-se em Montevidéu a serviço do Itamarati, e com grande dificuldade produziram A Felicidade, O Nosso Amor e Frevo. Sergio Cabral(14) mostra em detalhes a participação da dupla Tom/Vinicius no filme Orfeu do Carnaval. Luiz Bonfá (15) acrescenta: Já estava morando dos EUA quando, no intervalo de uma turnê com Mary Martin em 1958, viajei ao Brasil e fui convidado pelo Sacha Gordine para compor a trilha do Orfeu Negro, do diretor Marcel Camus. Era um filme baseado na peça de Vinicius, com músicas do Tom. Mas o Camus não queria usar as mesmas canções e pediu ao Tom para fazer novos temas. Mesmo assim, ficou insatisfeito e praticamente me implorou para escrever uma nova trilha. Eu disse que não tinha tempo, ele insistiu e acabei concordando em escrever duas canções. Uma delas era o samba de Orfeu, uma canção muito simples que só usaram nos últimos minutos do filme. Pra minha surpresa tornou-se muito famosa, principalmente da gravação que fiz com Tony Bennett. Hoje em dia é considerada um clássico do jazz, gravada por Joe Pass, Chris Connor, Paul Desmond, Charlie Rouse e muitos outros.

A outra canção é a esplêndida Manhã de Carnaval, uma das músicas mais executadas em todo o mundo. Ambas possuem letra de Antonio Maria. Bonfá procurou inicialmente Rubem Braga para fazer as letras, mas esse alegou ser muito lento para tal e indicou o gordo, como era conhecido Antonio Maria, nascendo dessa forma a parceria entre eles.

Este filme recebeu, em 1959, a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de melhor filme em língua estrangeira. Tal fato aumentou o prestígio de Tom e Bonfá no exterior, como também chamou a atenção para a nossa música! A trilha sonora original foi relançada em cd pela Universal, em 2008.

Lançado em 1962 o filme Copacabana Palace, uma produção ítalo-franco-brasileira traz uma rara imagem onde aparecem sentados na areia da praia Luiz Bonfá, João Gilberto e Tom Jobim interpretando Canção do Mar, música de Bonfá e letra de Maria Helena Toledo, para deleite das atrizes Sylva Koscina, Mylène Demongeot e Gloria Paul. Ainda na trilha do filme a música Tristeza de Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo, interpretada por Norma Benguell e duas músicas de Tom Jobim: Samba do Avião e Só Danço Samba, esta interpretada por João Gilberto e Os Cariocas.

Luiz Bonfá, Tom Jobim e João Gilberto já eram relativamente conhecidos nos EUA quando participaram do famoso concerto no Carnegie Hall em 21 de novembro de 1962, onde ocorreu a apresentação da Bossa Nova através de um grande número de artistas nossos, alguns deles completamente despreparados para um evento desse porte. Muito amadorismo e uma produção caótica transformaram aquilo que seria um cartão de visitas da Bossa Nova num verdadeiro fiasco, produzindo manchetes em alguns jornais norte-americanos do tipo: Bossa Nova, go home! Alguns jornais nossos, como o Correio da Manhã(16) anunciavam o fracasso, dizendo que: O único brasileiro que causou uma impressão positiva foi Luiz Bonfá, um violonista de estilo sutil e lírico. Há um certo exagero nisso pois além de Bonfá também se apresentaram com algum sucesso o cantor Agostinho dos Santos, João Gilberto e Tom Jobim.

Com a Bossa Nova em ascensão nos Estados Unidos, Stan Getz e Luiz Bonfá gravam em fevereiro de 1963 o LP Jazz Samba Encore! , contando com a participação de Tom Jobim em 5 das 11 faixas do disco. Em Insensatez(Tom/Vinicuis)ele tocou piano, enquanto que em Sambalero(Luiz Bonfá), Um abraço no Getz(Luiz Bonfá), Só Danço Samba(Tom/Vinicius) e O Morro Não Tem Vez(Tom/Vinicius) ele tocou o 2º violão. É interessante notar a performance de Tom ao violão, em particular a sua maneira de acompanhar o samba, bem distante da famosa “batida” de João Gilberto. Esta foi a última colaboração musical expressiva entre dois músicos maravilhosos, que não dependeram da Bossa Nova para mostrar sua arte, muito embora tenham participado de forma intensa neste movimento.

Referências:
1) Antonio Carlos Jobim -Um homem iluminado.Helena Jobim, Ed. Nova Fronteira,1996.Pg. 86.
2) Antônio Carlos Jobim-Uma Biografia. Sérgio Cabral, Ed. Lumiar, 1997. Pg 78.
Como aponta Sergio Cabral em sua excelente biografia, o crítico musical Jayme Negreiros, cujo nome verdadeiro é Chaim Israel Triflin, foi o jornalista que mais escreveu sobre Tom Jobim. Isto é fato. O autor entretanto comete um pequeno equívoco ao atribuir à Jayme Negreiros uma nota sobre Tom Jobim, em abril de 1954, com o seguinte teor(pg.80): “A dupla compositora de Podes voltar, Tom e Newton Mendonça (apesar do samba não ter sido gravado) continua compondo lindas canções no Posto Cinco. Lúcio Alves está interessado em gravar algumas músicas de ambos”. O texto da nota está correto, mas o mesmo foi publicado em 30 de agosto de 1952 por J. Fomm, na coluna Ronda na Meia-Noite, do jornal Última Hora( veja O Primeiro Sucesso da Dupla Tom Jobim e Newton Mendonça, escrito por Jorge Mello e publicado na série Outras Bossas, desse portal)
3) A Arte (no Brasil) Ainda Não Morreu. Jayme Negreiros, seção Discos- O Jornal, 04/06/1954.
4) Luiz Bonfá e seu conjunto. Jayme Negreiros, seção Discos- O Jornal, 20/07/1954.
5) LP Luiz Bonfá. Jayme Negreiros, seção Discos- O Jornal, 19/09/1954.
6) Minha Saudade- Artigo de Jorge Mello publicado em 12/03/2008 na série Outras Bossas , no portal Sovaco de Cobra.
7) O Extraordinário Guitarrista Nestor Campos (segunda parte). Artigo publicado por Jorge Mello em 09/10/2008 no portal Sovaco de Cobra.
8) Tons sobre Tom-Márcia Cezimbra, Tessy Callado, Tárik de Souza-Rio de Janeiro:Revan,1995.
9) Bonfá e Tom: Reunidos pela primeira vez(sic) como compositores, Luiz Bonfá e Tom Jobim entregaram à Ângela Maria a toada A Chuva Caiu. Correio da Manhã,04/03/1956.
10) Recorte de jornal encontrado no acervo IACJ.
11) Garoto: A Brilhante Temporada de 1944, por Jorge Mello. Publicado no Sovaco de Cobra-Ensaios-em 25 de fevereiro de 2009.
12) Comentários de Luiz Bonfá sobre as músicas gravadas por Ithamara Koorax em Almost in Love,no encarte do cd.
13) A música em Orfeu da Conceição- Enio Silveira-Diário Carioca, sd. Recorte encontrado no acervo do IACJ.
14) Sergio Cabral, op. cit. pg.109 à 114.
15)Comentários de Luiz Bonfá sobre Samba de Orfeu. Encarte do cd Almost in Love.
16) Bossa Nova Fracassou no EUA: cantilena monótona-Correio da Manhã, 2º caderno- 23/11/1962.

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