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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A primeita visita de Agustin Barrios ao Rio de Janeiro em 1916.




A primeira visita de Agustin Barrios ao Rio de Janeiro, em 1916.
No centro desta foto, ao lado da Casa Colombo, está o predio do Jornal do Commercio (Foto extraida de "Rio de Janeiro, 1900-1930. Uma Crônica Fotográfica", por George Ermakoff)


Barrios no Rio de Janeiro pela 1ª vez.
(autoria de Jorge Mello).

1) Audição especial para a imprensa

Com a fama de ser o "primeiro violonista do mundo" chegou ao Rio de Janeiro, em 19 de julho de 1916, o violonista paraguaio Agustin Barrios. Os críticos musicais aguardavam com ansiedade a sua audição especial para a imprensa, marcada para o dia 22 de julhoa, às 14 horas, no Salão Nobre do Jornal do Commercio. As seguintes músicas constavam do programa:

1) Meditação- Garcia Tolsa
2) Rondó Brilhante- Dionisio Aguado
3)À Minha Mãe-A. Barrios
4) Noturno, Op 9-F. Chopin
5) Concerto em Lá Menor-Arcas
6)Rapsodia Americana-A. Barrios
7) Souvenir Napolitano-Albano
8)Jota Aragonesa(variações)-F. Tarrega/A.Barrios

No dia seguinte os principais jornais da capital deram grande destaque ao pequeno concerto, tecendo os mais variados comentários. Em particular, dois jornais travaram entre sí uma verdadeira batalha através das suas colunas especializadas: o Jornal do Commercio defendendo integralmente o estilo do violonista paraguaio, enquanto que o jornal A Noite, através do sr Eustáquio Alves, fazia críticas contundentes, a começar pelo uso de cordas de aço feito por Barrios. Não se pense tratar de contenda gratuita, desprovida de fundamentos! Os dois articulistas tinham pleno domínio da matéria e defendiam seus pontos de vista, embora antagônicos, através de argumentação muito consistente. Eustáquio Alves, jornalista e dedicado violonista amador, afirmava não ser violão o instrumento tocado pelo sr. Barrios. Em sua crônica de 25 de julho no jornal A Noite, ele assim se expressou: "Em primeiro lugar notei uma coisa singularissima: o instrumento com forma de violão que o artista paraguayo tangia tinha 6 cordas de aço...Lá no meu mestre Matteo Carcassi, pg 10, vi há tempos assim escripto: "O violão tem seis cordas, de que as primeiras tres são de tripa e as outras tres cobertas de fio de prata". Era mesmo violão aquilo? Parecia muito, não só pela forma como pela techinica, que era toda a de violão. Os effeitos tirados do sr. Barrios faziam-me lembrar muito a viola da roça, aquella que Pero Vaz fez seu nome de artista de grande merito. Tem uma grande semelhança com a citara." Após elogiar a tecnica usada por Barrios na mão direita, caracterizando-o como um grande discípulo de Dionisio Aguado, Eustáquio Alves assim finaliza sua crônica: " Techinicamente falando o sr. Barrios toca outra coisa que não é violão, e muito menos do que muitos dos nossos patrícios como Brant Horta e Ernani de Figueiredo".No Jornal do Commercio, em sua edição de 25 de junho, o crítico( a matéria não vem assinada)assim se manifesta sobre a questão do encordoamento: "

O Violão do sr. Barrios nada tem de extraordinario: No acordoamento apenas difere dos outros por quê em lugar das cordas de tripa no sol3, si 2 e mi 1 elle tem cordas de metal especiais que emitem um som mais brilhante que as outras e, em compensação, menos brilhantes". Tecendo considerações sobre a tecnica da mão direita de Barrios, o jornalista assim se expressa: "É possivel que a mão direita do sr. Barrios não tenha a posição escolastica recomendada, nem a correção imprescindivel para pontear as cordas, o seu dedo mínimo não pousa firme e imóvel sobre o tampo do violão para apoio e segurança do movimento dos outros dedos, como recomendam os tratados...Entretanto a techinica do sr. Barrios é tão segura e precisa que nos abstemos de considerar incorreta a posição de sua mão direita. Preferimos a perfeição dos resultados".


2) O Primeiro Concerto de Agustin Barrios no Rio de Janeiro.(Em 09 de agosto de 1916, terça-feira, às 20:30 h, no Salão Nobre do Jornal do Commercio).

Programa
1ª Parte:

1) Sonata Heroica- Mauro Giuliani
2) Chanson du Printemps- F. Mendelssohn
3) Recuerdos del Pacifico- A. Barrios
4) Rondó Brilhante- Dionisio Aguado
5) a) Sarabanda- J. S. Bach
b) Meditação- Carlos Garcia Tolsa
6) Concerto em Lá Menor- Julian Arcas

2ª Parte:

1) Nocturno, Opus 9, nº 2-F. Chopin
2) Fantasia sobre motivos da Traviata- Verdi/Arcas
3) Andante e Estudo- N. Coste
4) a) Chant du Paysan-E. Grieg
b) Bicho Feio (tango Humorístico)- A. Barrios
5) Rapsódia Americana-A. Barrios
6) Jota Aragonesa, variações-Tarrega/Barrios

Na apreciação deste primeiro concerto o crítico do Jornal do Commercio, em matéria publicada do dia 10 de agosto, tenta justificar sua posição: " Conhecida a nossa exigencia em matéria de arte, a muita gente tem causado certo espanto o modo como nos temos pronunciado em relação ao concertista paraguayo sr. Barrios, o virtuose do violão. Não há razão, entretanto, para que se estranhem os nossos elogios muito sinceros ao distincto artista, porquê o fato se explica. O violão é um instrumento de grande dificuldade techinica que poucos ousam afrontar: é por isso mesmo que elle foi, por assim dizer, condenado ao mister de mero acompanhador de modinhas, sendo raros os que conseguem fazer delle um instrumento de arte, tal o sagrara o nosso velho compatriota Clementino Lisboa, artista ignorado que vive ainda glorioso na memória de poucos sobreviventes. Actualmente ainda temos solistas de violão de merecimento incontestável, como os srs. Brant Horta e Ernani de Figueiredo e outros raros mais, que ainda não tivemos o ensejo de ouvir. O sr. Barrios porém emerge de entre seus colegas um relevo frisante, porquê consegue do violão o maximum de effeitos das mais variadas espécies: Elle levantou o violão á uma hierarchia superior". Ao restaurar aos srs. Brant Horta e Ernani de Figueiredo a condição de competentes solistas e realçar a importância do violão no cenário musical, o crítico (suspeitamos que seja o sr. Oscar Guanabarino) revê sua posição manifesta em seus dois últimos artigos.Já o sr. Eustáquio Alves, em matéria publicada em 10 de agosto no jornal A Noite, a respeito do primeiro concerto de Barrios, assinala alguns erros de execução por parte do artista especialmente nas músicas Rondó Brilhante (Aguado) e Meditação(Garcia Tolsa), considerando o restande do programa como sendo muito bem executado. O jornalista enfatiza novamente a questão das cordas de aço: " Não posso dizer que o sr. Barrios deu um concerto de violão, por quê continuo a pensar que o seu instrumento não é o mesmo que nos ensinam os mestres. Muito se tem comentado sobre as cordas de aço e há quem justifique o procedimento do artista paraguayo...Todos os instrumentos obedecem ás leis da Physica e, desde que se modifiquem as condições essenciais em que é baseado, ele perde seu carater. Si pusermos chaves numa corneta, continua ella com o mesmo carater, isto é, com o mesmo timbre? Ficará parecida com o pistão. é o que se dá com o sr. Barrios encordoando seu violão com cordas de aço...Estou crente que o sr. Barrios, num violão, não conseguirá tirar das cordas de tripa a vigésima parte dos effeitos que tira das cordas de aço".

3) O Segundo Concerto de Agustin Barrios no Rio de Janeiro.(Em 18 de agosto de 1916, sexta-feira, às 21 h, no Salão Nobre da Associação dos Empregados no Commercio).
Programa:

1ª Parte:

1) Andante- F. J. Haydn
2) Tanda de Valses- Carlos Garcia Tolsa
3) Danza Macabra- (atribuida à) Regondi
4) Fantasia Mourisca- Espinosa
5) À Minha Mãe- A. Barrios
6) Capricho Espanhol- A. Barrios

2ª Parte:

1) Mazurka- F. Chopin
2) Capricho Árabe- F. Tárrega
3) Lucia di Lammermoor, ária final- G. Donizetti
4)  a) Estudo para a Mão Esquerda- N. Coste
     b) Tango nº 2- A.Barrios
5) Gavota Romantica-A. Czibulka
6) Souvenir Napolitano- Albano

Pouco mais de uma semana após o primeiro concerto, Barrios mostra agora um repertório totalmente novo neste concerto realizado no Salão Nobre do Edifício dos Empregados no Commercio. Em que pese a novidade apresentada, poucos comentários se fizeram notar na crítica especializada. Até mesmo o sr. Eustáquio Alves se mostrava contido, muito embora ironico, em seu artigo publicado em 20 de agosto no jornal A Noite: " Tudo alí mereceu as mais vivas demonstrações de agrado pela assistência, que era seleta e da qual faziam parte os senadores Ruy Barbosa, Epitacio Pessoa e Bernardo Monteiro, os deputados j.J. Palma e Mangabeira e outras pessoas do mundo social".

 
4) O Terceiro Concerto de Barrios no Rio de Janeiro.(em 09 de novembro de 1916, às 21 h, no Salão Nobre da Associação dos Empregados no Commercio).

Programa:
1ª Parte:

1) Polonaise Phantastique- Julian Arcas
2) O Arroio(Romance-capricho)-A. Barrios
3) Valsa de Concerto- A. Barrios
4) Rondó em Lá Menor- Dionisio Aguado
5) Minueto- A. Barrios
6) Alegro Épico- N. Coste

2ª Parte:

1) Nocturno, opus 9, nº 2-F. Chopin
2) Capricho Árabe- F. Tárrega
3) Marcha heroica- M. Giuliani
4)a) Gavota Romantica- A. Czibulka
b) Tango nº 2- A. Barrios
5) Meditação- Carlos Garcia Tolsa
6) Jota Aragonesa, variações- Tárrega/ Barrios

Este concerto não mereceu nenhum comentário por parte da imprensa, já que a polêmica a respeito do uso das cordas de aço parecia encerrada e também por já não causar mais impacto a presença de Barrios na antiga capital do pais. Entretanto o maestro e violonista Ernani de Figueiredo publicou no jornal Correio da Manhã, em 11 de outubro, um artigo extenso e detalhado acerca da origem do violão, artigo este que refuta de maneira inquestionável um anterior escrito por Coelho Neto...Mas isto é assunto para um próximo artigo!

Já em 1917, o Jornal do Commercio de 14 de março nos informa que Barrios dará nesta data um concerto de despedida no Theatro Phenix, contando com a colaboração de Catullo da Paixão Cearense, que cantará canções brasileiras e recitará poesias de sua lavra.
5) Barrios em S. Paulo.
No final de abril, Barrios já se encontrava em S. Paulo. Após uma audição para a imprensa ele deu dois concertos no Theatro Municipal daquela cidade nos dias 5 e 9 de maio. O artista paraguayo foi muito bem recebido pela crítica local, que se desmanchou em elogios. A lamentar apenas o reduzido número de pessoas que compareceu aos dois concertos. A questão das cordas de aço sequer foi cogitada...Os programas foram(Informações extraidas do jornal O Estado de S. Paulo):

1] Concerto do dia 5.
1ª parte:

1) Marcha Heroica- M. Giuliani
2) Chanson du Printemps- Mendelssohn
3) Recuerdos del Pacífico- A. Barrios
4) Rondó Brilhante- Dionisio Aguado
5) Meditação- Carlos Garcia Tolsa
6) Fantasia de Concerto em Lá Menor- Arcas

2ª Parte:

1) Nocturno, opus 9, nº 2- F. Chopin
2) La Traviata, fantasia- Verdi/Arcas
3) Moraima, Capricho Mourisco- Espinosa
4) a) estudo para a mão esquerda- N. Coste
b) Bicho Feio, tango humorístico- A. Barrios
5) Rapsódia Americana, poema popular- A. Barrios
6) Jota Aragonesa, variações- Tárrega/ Barrios

2] Concerto do dia 9.
Primeira Parte:

1) Dansa Macabra- Regondi
2) Andante- Haydn
3) Tanda de Valses- Garcia Tolsa
4)À Minha Mãe, sonata- A. Barrios
5) Lucia di Lammermoor, ária final- Donizetti
6) Capricho Espanhol- A. Barrios

Segunda Parte:
1) Mazurka- F. Chopin
2) Romance- Capricho- A. Barrios
3) Serenata Árabe- F. Tárrega
4)  a) Tango nº 2- A. Barrios
     b) Il Trovatore, miserere- Verdi
5) Gavota Romantica- A. Czibulka
6) Souvenir Napolitano- Albano

Como se percebe, este repertório é praticamente o mesmo apresentado no ano anterior, quando da estadia de Barrios no Rio de Janeiro. Notamos então o compositor Barrios presente em boa parte desses concertos, impressionando a crítica pela quantidade e qualidade de suas obras. A importância da obra de Barrios no repertório violonístico é inquestionável nos dias de hoje, mas foi um lento processo de reconhecimento. Nesse sentido destacamos a atuação de John Williams e, dentre nós, Turíbio Santos, que gravou recentemente um cd dedicado à obra do grande compositor paraguaio. Focalizaremos este trabalho num próximo ensaio.

Uma boa sugestão para o leitor é a consulta ao artigo de Gilson Antunes, intitulado Americo Jacomino "Canhoto" e o Início do Violão Solo em São Paulo, publicado nos Anais do II Simpósio de Violão da Embap, em 2008. Em particular, a seção As Apresentações do Paraguaio Barrios em S. Paulo em 1917/1929 complementa este ensaio (este artigo está disponíven na internet). Por fim recomendamos uma consulta ao artigo publicado neste blog em 10/12/2008, A Música de Agustin Barrios, onde o leitor poderá se deliciar com verdadeiras obras primas do mestre paraguaio!

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