
Johnny Alf, Rapaz de Bem.
por Jorge Mello.
Uma notícia encheu meu coração de alegria: Johnny Alf estava de volta! Após uma luta de dois anos contra um câncer de próstata, ele retoma sua carreira artística, em duas apresentações dias 31 de janeiro e 1 de fevereiro no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. A tal doença impediu que participasse das comemorações do cinquentenário da Bossa Nova no ano passado. Prestes a completar 80 anos Alf, ele é considerado como um dos alicerces desse movimento, ao lado de João Gilberto, Tom Jobim e Newton Mendonça. Vamos agora rememorar alguns acontecimentos da sua história pré bossa nova.
Lá por volta de 1952 surgiam os sons fundamentais de dois pianos amigos, mas com destinos opostos. Ao primeiro estava reservada a glória. Ao segundo, o esquecimento....Falo dos pianos de Tom Jobim e de Newton Mendonça, que dariam forma à canções como, por exemplo, Incerteza e Brigas. É bem verdade que de um violão revolucionário (Garoto) também saiam Duas Contas e Relógio da Vovó. Mas de um outro piano alguns sons ainda mais ousados se faziam notar, dando luz à canções como O Que É Amar, Ceu e Mar e Rapaz de Bem...Estamos falando de Johnny Alf, nome artístico do carioca(nascido em Vila Isabel) Alfredo José da Silva.
Seu primeiro disco (78 RPM) foi lançado pela Sinter em setembro de 1953. Percebe-se neste disco a seguinte formação: Piano, contrabaixo e violão. Em muitos textos, e vou citar apenas dois (1), (2), encontramos Alf no piano (claro!), Vidal no contrabaixo e Garoto no violão. Eu ouví essas gravações inúmeras vezes, sem reconhecer naquele violão a sonoridade característica de Garoto, e confesso que fiquei incomodado com isso. Sentí um grande alívio quando, numa das minhas costumeiras incursões ao setor de microfilmagens da Biblioteca Nacional, encontrei na revista Carioca, edição de julho de 1953(3), o seguinte informe assinado por Daniel Taylor: A Sinter acaba de contratar Alf, uma grande revelação como pianista e compositor. Johnny Alf formou seu trio e já colocou na cera De Cigarro em Cigarro, o grande sucesso do momento (de Luis Bonfá) e Falseta, um choro de sua autoria. Seu trio está formado de piano (Alf), Kid (violão) e Vidal (contrabaixo).
No seu segundo disco Johnny Alf estreia como cantor, sem contudo abandonar o piano. Os arranjos foram feitos por Lirio Panicali para violinos, viola, cello e harpa. Com o piano de Alf estavam Nestor Campos(guitarra), Vidal (contrabaixo), Manoel Dias(bateria) e Gaucho no acordeon. O crítico Jayme Negreiros assim se manifesta(4): " A mais moderna interpretação posta em disco brasileiro até hoje, de um cantor nosso. O rapaz é artista mesmo, sente modernamente a música, conhece o piano, sua arte logo se espalha, o que ele faz com as frases é de uma naturalidade e de um jogo espontaneo tremendos". Nesse disco lançado pela Sinter, Alf interpreta dois sambas canções: Dizem por aí (Haroldo Eiras/Victor Berbara) e Beija-me mais(Amaury Rodrigues).
Dois anos se passaram(1956) até o lançamento seguinte de Alf, pela gravadora Copacabana. A bolacha traz Rapaz de Bem e O Tempo e o Vento, ambas de sua autoria. A primeira delas é, de acordo com Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello (5): A mais bossa nova das músicas que antecederam a bossa nova, "Rapaz de Bem" é de autoria de um pianista muito ouvido e admirado pelos criadores do movimento". Na gravação original esta música é apresentada por Alf a frente de um trio e revela algo inteiramente novo naquela época: Um samba com acompanhamento no estilo jazzístico! Não quero dizer com isso que ele tenha transformado o samba em jazz, nada disso! A mudança se dá no modo de acompanhar, sem fazer uma ostensiva marcação rítmica, e sim fazendo os acordes como que cercando o solista. Nas palavras de Alf(6): Não há uma marcação certa, regular, mas uma espontaneidade ritmica do pianista em função da harmonia. O mais importante é notar que o samba não deixou de ser samba por isso...Ao invés de subtrair, só acrescentou uma nova possibilidade de expressão! Maravilhoso!
Muito embora não seja um disco do Johnny Alf, o Lp 10 pol da Sinter, Convite ao Prazer (1952), pode ser considerado como tal. Do total de 8 faixas cantadas por Mary Gonçalves, quatro são de autoria dele: Podem Falar, O Que é Amar, Estamos Sós e Escuta. Acompanham Mary nesse disco o piano de Alf, a guitarra de Zé Menezes, o sax de Quincas, o violino de Irany Pinto e a flauta de Ary Ferreira. A direção musical e os arranjos orquestrais são de Lirio Panicali.
Mary Gonçalves, cujo nome verdadeiro é Nice Figueiredo Rocha, nasceu em Santos, Sp, em 25 de outubro de 1927. Gravou pela Sinter e pela Odeon, sendo suas últimas gravações realizadas em 1956. Abandonou sua carreira artística e foi morar na Colombia (7).
Esta é a discografia básica de Alf no periodo pré Bossa Nova. Algumas de suas composições dessa época apareceram em discos posteriores, como é o caso de Céu e Mar e Seu Chopin, Desculpe (Esta música é também conhecida como Choro do Minuto).
Johnny Alf estreou profissionalmente na Cantina do Cesar(Do famoso radialista Cesar de Alencar), indo depois para o Monte Carlo, convidado por Fafá Lemos. Em seguida foi para o Mandarim, onde por cerca de oito meses revezou no piano com Newton Mendonça. Na já citada entrevista , Alf assim falou sobre seu amigo (8): Houve uma grande aproximação com Newton Mendonça, pois ele também tinha estudo de música clássica e tinhamos idéias comuns. Ele foi o primeiro músico com quem tive afinidade musical e composições no mesmo estilo, músicas nos moldes mais avançados da época, inclusive uma inédita que ele me deu. Eu tinha a partitura, mas nesse negócio de muda pra cá, muda pra lá, perdí a música". Uma passagem pelo Clube da Chave e daí para o Plaza, então alugado por Djalma Ferreira. Na mesma entrevista, Alf arremata: Eu me revezava ao piano no conjunto dele. Os crooners eram o Miltinho e a Elena de Lima. Ele alugou o Plazza para fazer alí um ambiente musical, mas não deu certo porquê não tinha muito movimento. Fui então para o Club de Paris, mais tarde Bacará, no Beco das Garrafas. Depois para o Stud do Théo, onde toquei com Ribamar e seu irmão Esdras. Dalí fui de novo chamado pelo Djalma Ferreira, já no Drink; nesse conjunto tinha o Bola Sete. De lá fui pela segunda vez para o Plaza, na categoria de atração. Fiquei lá de outubro de 1954 a abril de 1955. Sai porque o Heraldo foi me procurar no Rio para inaugurar a Baiúca de São Paulo. A esse respeito Jayme Negreiros assim comentou(9): Luiz Eça irá para o Plaza Bar em substituição ao pianista cantor Johnny Alf, que se transferiu para São Paulo. O conjunto de Luizinho Eça será composto por Paulo Ney (guitarra) e Lincon(contrabaixo).
Johnny Alf retorna ao Rio de Janeiro para participar, como convidado, da Noite do Amor, do Sorriso e da Flor, realizada em 21 de maio de 1960 no Anfiteatro da Faculdade de Arquitetura da UFRJ, na Praia Vermelha. Ele foi anunciado por Ronaldo Bôscoli com as seguintes palavras: Os verdadeiros entendidos na história da Bossa Nova não poderão estar esquecidos desse nome. Faz 10 anos que ele toca música bossa nova e por isso foi muitas vezes chamado de vigarista e maluco. Atualmente ele está em S. Paulo, aliás estava. Numa gentileza do jornal Última Hora, conseguimos a passagem para trazer para vocês Johnny Alf.
A continuação dessa história, que será abordada em outro artigo, traz Johnny Alf de volta ao Rio de Janeiro, integrado ao ambiente efervescente do Beco das Garrafas em 1962, já com o seu primeiro lp gravado( RCA): Rapaz de Bem.
REFERÊNCIAS:
1) Ruy Castro-Chega de Saudade, pg 95- Companhia das Letras, 1ª Ed. 1991.
2) Irati Antônio e Regina Pereira- Garoto, Sinal dos Tempos, pg 71-Ed Funarte. 1979.
3) Revista Carioca, nº928, seção Variedades- 18/07/1953.
4) O Jornal, seção Discos-21/07/1954.
5) Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello-A Canção no Tempo, vol 1, pg 324- Ed. 34-1997.
6) Zuza Homem de Mello-Música Popular Brasileira, pg 38-Ed. Melhoramentos, Sp-1976.
7) Sylvio Tullio Cardoso- Dicionário Biográfico de Música Popular, pg 76- 1965.
8) Op. Cit, pg 84.
9) O Jornal, seção Discos-11/05/1955.

3 comentários:
Ótimo trabalho, Jorge!
Abraços,
José Matos
Olá Jorge, tudo bem? Fiz uma visita ao mestre Johnny Alf, no sábado de Carnaval. O registro está em uma crônica no meu blog: http://ericosanjuan.blogspot.com/2009/02/ele-e-johnny-alf-aos-oitenta-anos.html . Confira e comente! Um grnade abraço.
A ansiedade é grande demais: nos 80 anos do Alf, seria possível terminar a história?
Abraços, obrigado.
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