Por Jorge Mello.
Dois grandes acontecimentos ocorridos na cidade do Rio de Janeiro transformaram 1916 no ano do ressurgimento do violão no Brasil. O primeiro é o que dá título à este artigo, e o segundo deles vem a ser a primeira visita de Agustin Barrios ao Rio de Janeiro. Vamos então tratar, nesse artigo, do Concerto Ernani de Figueiredo/Brant Horta, realizado em 06 de maio de 1916 no Salão Nobre do Jornal do Commercio. A foto ao lado, extraida do excelente livro Rio de Janeiro:Uma cronica fotográfica.1900/1930-George Ermakoff, mostra o prédio do referido jornal, que ficava na então Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco. Com o sugestivo título A Rehabilitação do violão (grafia da época) o jornal A Noite, em 13 de março de 1916, anunciava que brevemente "os professores Dr. Brant Horta e o Maestro Ernani de Figueiredo, que fizeram uma escola complementar nova, vão deliciar o nosso público com um recital de violão. O programma constará de músicas clássicas escritas especialmente para violão". Grande parte, talvez a maioria, dos que cultivavam o violão faziam-no "de ouvido". Nessas condições o violão prestava-se quase que exclusivamente ao acompanhamento de modinhas. Era este o pensamento vigente a respeito desse instrumento tão popular e, na época, tão pouco conhecido...Pouco ou quase nada se falava de violonistas como Clementino Lisboa( o pioneiro), Quincas Laranjeiras, Souza-Imenez, Melchior Cortez e Levino Albano da Conceição, todos com grande conhecimento musical. Um concerto de violão representava então um grande passo para a reabilitação desse instrumento. O programa do concerto era aguardado também com muita curiosidade, já que fora divulgado que nele constariam peças de Chopin, Beethoven e Wagner transcritas para o violão por Ernani de Figueiredo. As peças para violão existentes na época e por poucos executadas eram aquelas constantes nos compêndios de violão de autores como Carcassi, Sor, Carulli e Aguado.
Ao longo do mês de abril algumas notas em jornais tais como A Noite, o Paiz e do Commercio justificavam o adiamento do concerto de violão em função das reformas que estavam sendo feitas no já referido Salão Nobre. Finalmente, em 02 de maio, o Jornal do Commercio na seção Theatros e Música informa que tal concerto realizar-se-á impreterivelmente no dia 06 de maio às 20:30 horas. Uma audição especial para a imprensa foi realizada no salão da Associação Brasileira de Imprensa em 03 de maio, causando excelente impressão nos críticos como se constata através do destaque dado em artigos publicados nos principais jornais da cidade: " O sucesso excedeu toda a expectativa...Assistência numerosa, applausos sem fim. O violão ressurge...", no jornal A Noite, em 03 de maio. " O concerto a realizar-se depois de amanhã merece ser ouvido. Esta festa importa, absolutamente, na rehabilitação do violão", no Jornal do Commercio, em 04 de maio.
Chega então o tão esperado dia 06 de maio! O concerto não é exclusivamente de violão, muito embora este predomine na programação. Encontramos muitos bandolins, outros violões, bandola e alaúde. Aparecem as notícias: Jornal do Commercio:"Realizar-se-á hoje às 8 1/2 horas da noite o annunciado concerto dos violonistas professores Brant Horta e Ernani de Figueiredo...", O Paiz: "Esse concerto, primeiro no genero que se realiza nesta capital, é em benefício da Associação Brasileira de Imprensa...".
O programa do Concerto apresenta algumas curiosidades, músicas completamente estranhas ao repertório de violão erudito da atualidade. Brant Horta executou, em solo de violão, as seguintes músicas: Marcha Fúnebre(Chopin) , Liège(marcha descritiva),Ao luar (barcarola) e Bumba Meu Boi, estas de autoria de Brant Horta. Os solos de violão apresentados por Ernani de Figueiredo foram os seguintes: Impromptu (Fantasia de concerto), Zizinha(habanera), ambas de Ernani de Figueiredo, Charme de La Nuit(noturno de J. Ferrer) e Chant d Oisceiu ( Zulfihu). Em duo eles executaram Tannhauser(Richard Wagner), Fantasia Espanhola e Rêve Après la Danse, estas duas últimas de Louis Emma. No restante do programa, com dois números cada, se apresentaram o septimino de bandolins , a orquestra de bandolins, bandola, alaude e violões(com a presença ilustre de Quincas Laranjeiras) e Céo da Camara Paradeda Kemp, discípula da Brant Horta, em duo com ele.
No dia seguinte ao concerto, a surpresa! O Jornal do Commercio em sua coluna Theatros e Música publicou o seguinte artigo (o qual transcrevo na íntegra):
"AUDIÇÃO DE VIOLÃO"
Os reclamos, na pompa de sua fértil adjetivação, elevaram ás culminâncias de concerto artístico uma audição de violão.
Debalde os cultivadores desse instrumento procuram fazel-o ascender aos círculos onde a arte paira. Tem sido um esforço vão o que se desenvolve nesse sentido. O violão não tem ido além de simples acompanhador de modinhas. E quando algum virtuosi quer delle tirar effeitos mais elevados na arte dos sons, jamais consegue o objectivo desejado ou mesmo resultado seriamente apreciável. A arte do violão, não passou por isso, até agora, do seu aspecto puramente pittoresco.
Não quer isso dizer que o popular instrumento não tenha os seus apreciadores e mesmo apaixonados. E que os tem em elevado número provou-o a concurrencia de ontem no Salão Nobre do Jornal do Commercio.
O programma divulgado foi cumprido e os applausos foram muitos para os srs Brant Horta e Ernani de Figueiredo, além dos demais elementos que tomaram parte no mesmo."
Parece incrível que o mesmo jornal, na mesma seção, tenha publicado quatro dias antes (artigo do dia 04/05/1916, já citado) um artigo que assim começa:
"Audição de música para a imprensa"
"Perante numerosa assistencia, principalmente jornalistas, foi exhibido hontem, na Associação de Imprensa, todo o programma do Concerto que os srs Brant Horta e Ernani de Figueiredo vão realizar no proximo sabbado no Salão de Festas do Jornal do Commercio. Nesse concerto em que só figuram instrumentos de corda, destacam-se os violões dos dous concertistas, músicos exímios, insignes tocadores que, na sua execução, tiraram effeitos extraordinarios e novos, conforme se verificou no ensaio de ontem."
Causa um certo espanto que órgão de imprensa com o prestígio do Jornal do Commercio publique, um prazo tão curto e na mesma seção, dois artigos sobre o mesmo tema com pontos de vista antagônicos, sem que nenhum fato novo tenha ocorrido para justificar tal mudança!!!
Este fato, cuja explicação devia se encontrar pelos bastidores, teve seus desdobramentos quando da vinda do violonista Agustin Barrios em sua primeira visita ao Rio de Janeiro, em julho de 1916. Anunciado como o 1º violonista do mundo, Barrios era enaltecido pela crítica musical do Jornal do Commercio e massacrado pelos críticos dos jornais A Noite e Correio da Manhã.


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