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domingo, 11 de janeiro de 2009

MAURICIO CARRILHO




ENTREVISTA COM MAURICIO CARRILHO.

POR JORGE MELLO.


Última apresentação do Bandão da EPM(Escola Portátil de Música). Todos nós, integrantes daquela pequena grande orquestra, estávamos imbuídos do espírito de luta e de solidariedade pela sobrevivência da EPM. Lá estávamos, instrumentos em punho para defender um sonho de todos nós. Uma semana antes Mauricio Carrilho conclamava a todos para prestigiar aquela última apresentação que marcaria uma nova etapa na vida da escola: Sua auto-sustentabilidade.

Pois dentro de um clima de emoção e euforia se deu esta conversa minha com Mauricio Carrilho. Foi uma conversa informal, descontraída, onde basicamente dois assuntos foram abordados: Suas pesquisas sobre a música popular brasileira no fim do século XIX e início de século XX e as histórias contadas por Meira (Jayme Florence), que foi seu professor de violão ( e também do Baden Powell e Raphael Rabello dentre outros...).

Vem então a inevitável pergunta:

(JM) O que motivou você a fazer esta pesquisa, da maior importância, sobre os músicos e a música do século XIX?

(MC) Por volta de 1997/98 comecei a me encontrar muito com o Leonardo da flauta (Leonardo Miranda), e em toda roda de choro ele chegava com umas músicas diferentes, do século XIX, muita coisa do Callado e de outros compositores sensacionais. Eu fiquei encucado com aquilo e perguntei onde ele arrumava aquelas músicas...Porque, na verdade, nas rodas de choro (desde que me entendo por gente) o repertório variava um pouco mas tinham aquelas repetições que eram fatais, que eram sagradas! O Leonardo me disse que encontrou alguma coisa na Biblioteca Nacional e com outras pessoas que possuiam partituras antigas. Foi isso então que me despertou o desejo de fazer um levantamento mais completo daquele periodo. Na época tinha um programa de bolsas na FUNDAÇÃO RIO-ARTE em que vc escrevia a sua idéia de pesquisa e eles selecionavam alguns projetos e davam bolsas durante um ano para que se trabalhasse naquilo. Eu fiz um projeto com a Anna Paes de levantamento do repertório do choro de século XIX (Vejam o ensaio dela:O Choro e Sua Árvore Genealógica em http://www.musicosdobrasil.com.br/). Tivemos como ponto de partida o livro do Animal( O Choro- Alexandre Gonçalves Pinto-1936) para fazer esse levantamento, usamos este livro como roteiro. O projeto foi aprovado e então começamos. Vasculhamos de cabo a rabo o acervo da Biblioteca Nacional, fizemos o levantamento das músicas e tiramos xerox de todas. Depois fomos o acervo do Mozart Araújo, no Centro Cultural Banco do Brasil, e levantamos tudo o que tinha lá. Já no Museu da Imagem e do Som (MIS) eu não conseguí entrar por causa daquela confusão de sempre. Eles cobravam na época 1 real por cada cópia que se fizesse e nós estávamos lidando com milhares de músicas, não tinha como pagar isso, era inviável. Mas conseguí muita coisa do MIS através de pessoas que tiveram acesso. Por exemplo o Jairo Severiano que, quando soube da pesquisa, me telefonou oferecendo os cadernos do Jupiaçara (João Jupiaçara Xavier, flautista). Eram 9 cadernos de choro imensos, espetaculares, com coisas raras. Depois tive contato com o Gerson Ferreira Pinto, que era flautista do conjunto Amigos do Choro, onde o Rossini Ferreira tocava( no site http://www.rodadechoro.com.br/ encontra-se, no programa 186, uma entrevista do Gerson em que ele fala deste grupo). Gerson possui um grande acervo, tendo inclusive herdado o do Seu Berredo, que era um flautista da velha guarda que tocava lá no Sovaco de Cobra. Seu Berredo era mais velho que o Pixinguinha e foi um cara com quem a gente tocou, Luciana, Raphael e eu. Ele em 1975/76 tinha oitenta e poucos anos...ele possuia muitos cadernos originais do Candinho e todo esse acervo ele passou para o Gerson, um pouco antes de morrer. Ele falou com a filha que queria deixar tido para o Gerson, que era um cara que se interessava muito por isso e tal. E o Gerson permitiu que eu copiasse todo esse acervo também. Então nessa primeira leva...

(JM) Quantas músicas vocês levantaram?
(MC) Levantamos perto de 5 mil músicas nessa primeira leva. E a partir desse trabalho e da sua divulgação nós começamos a receber doações de algumas pessoas. O pessoal que tinha partituras daquela época nos cedia. Pedro Amorim ganhou uns cadernos de um senhor que era lá da turma da velha guarda de Jacarepaguá, onde o Jacob tocava, o Candinho do trombone...Retiro da Velha Guarda, era como se chamava. Então o Pedro me emprestou e eu copiei. Depois tivemos acesso a uns arquivos do MIS, como por exemplo o acervo do Jacob. Nós digitalizamos todo o acervo de partituras, fizemos esse trabalho para o MIS. Então hoje devemos ter, principalmente de compositores do século XIX e início do século XX, umas 8 mil músicas, talvez um pouco mais.

Pausa para respirar...8 mil partituras, é um número impressionante! Ainda mais se pensarmos que os chorões em geral não editavam suas partituras...elas eram difundidas através dos célebres cadernos. Muitos choros eram também passados "de ouvido" e vez por outra a melodia era escrita na pauta (felizmente!). Este modo característico da tradição do choro torna ainda mais incrível este trabalho de Mauricio Carrilho e Anna Paes. Entretanto a grande diferença entre este e outros trabalhos de pesquisa desenvolvidos por músicos como Jacob e Almirante é o da sua difusão! O resultado é disponibilizado para quem quiser ver, ouvir, tocar...Mais recentemente muitas pesquisas tem sido feitas, no âmbito acadêmico, sobre a história do choro. Mauricio arremata:

(MC) Normalmente esses projetos de pesquisa ficam restritos a área científica ou de musicologia. Ocorre então que o público não usurfrui do resultado deles. No nosso caso, a partir desse material que obtivemos, gravamos 15 cds do Princípios do Choro, 9 cds do Choro Carioca-Música do Brasil e 5 cds da obra remanescente do Callado. Só aí são 29 cds. Esse material também serviu de estudo para que a gente fizesse o planejamento de repertório da Escola Portátil de Música (EPM) e das aulas de história do choro (Veja o ensaio de Luciana Rabello," Escola Portátil de Música" em http://www.musicosdobrasil.com.br/) . Através dessa pesquisa pudemos finalmente descobrir o que é o tango brasileiro! Sim, porque em todo livro de história do choro se diz que o tango brasileiro é maxixe, que é a mesma coisa...e não é! Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Agora, você só pode ter certeza disso quando tem a sua disposição uma quantidade de tangos brasileiros e de maxixes para poder comparar a figuração rítmica, a forma, a maneira adequada de acompanhar e você vê então que um gênero é muito diferente do outro, embora guardem semelhanças também.

Mais uma pausa...ao fundo ouvimos os primeiros sons da roda de choro da EPM. Percebo que é hora de abreviar a entrevista e pergunto então ao Mauricio sobre as histórias que o Meira gostava de contar, se ele disse alguma coisa sobre o Satyro Bilhar.

(MC) O Meira era muito amigo do João Pernambuco e contava muitas histórias sobre ele. Tem inclusive um choro que o Meira aprendeu com o João Pernambuco e que a gente gravou na série do Choro Carioca- Música do Brasil. Era um choro que permanecia inédito e que foi passado para um aluno do Meira, o Dr. Sergio Régis. Este me passou o choro- tudo de ouvido-eu escreví e gravei a música com o Paulo Aragão naquela série.

(JM) E sobre "Sabará" do Quincas laranjeiras e "Tira Poeira" do Satyro Bilhar, como você chegou à estas músicas? Foi através do Jacob?
(MC) Olha, o "Tira Poeira" sim. Tivemos também acesso a uma partitura do Jacob e depois, nesse levantamento, a partituras mais antigas ainda e que conferiam, mais ou menos, com a gravação do Jacob. O "Sabará" do Quincas, foi uma partitura de violão solo que conseguí. Eu não sei agora, de memória, onde foi. Temos em nosso arquivo um banco de dados com a origem de cada partitura. Lembro que era uma partitura de violão solo que eu adaptei para melodia e cifra, para a gente gravar com o Proveta. Ele gravou de sax-alto.

Mauricio é solicitado na roda de choro e nossa entrevista chega ao fim! Permaneço em silêncio por alguns instantes e meu olhar percorre os olhares dos chorões que estão na roda: alunos e professores tocando com alegria e entusiasmo. Mauricio chega e já começa a tocar...Isto não pode acabar! Quem quiser saber o que é a EPM basta olhar para a foto lá de cima em que aparece o Bandão tocando. Ao meu lado está José Euclides, um músico muito bom mesmo, 7 cordas tradicinal, tocando com dedeira as cordas de aço do seu violão. Sua expressão de felicidade-virou criança-responde a qualquer pergunta sobre a EPM!

2 comentários:

Na Roda de Choro disse...

olá,

estou criando esse blog para divulgar rodas de choro pelo país, estou recolhendo informações para começar a postar brevemente, conto com a ajuda de vocês, um abraço, vou adicioná-lo

Iuri disse...

Olá Jorge!! Sou aluno da EPM também, muito legal essa matéria. Estou fazendo um mestrado sobre o Meira, e gostaria de saber se você pode me ajudar de alguma forma. Onde você encontrou aquela informação que ele morou com João Pernambuco na Lapa? Ficaria muito agradecido se você pudesse me ajudar. Se puder me mandar um email o meu é iuribittar@gmail.com
Gde abraço e parabéns!