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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O Violão Brasileiro de Othon Salleiro


O VIOLÃO BRASILEIRO DE
OTHON SALLEIRO.


UMA RESENHA, POR JORGE MELLO













Recentemente tomei conhecimento do excelente trabalho de tese de mestrado de Flavia Rejane Prando intitulado Othon Salleiro:Um Barrios Brasileiro? orientado pelo Prof. Dr. Edelton Gloeden e por ela defendido em 2008 na ECA-USP. É possível acessá-lo através de www.qprocura.com.br/Othon-Salleiro:-um-barrios-brasileiro e perceber a interessante trajetória deste extraordinário personagem que era Psiquiatra, violonista, compositor e professor de violão. Sobre Flavia:

"Estudou com Werner Aguiar, A.Manzione, Everton Gloeden, Giacomo Bartoloni, Peter Dauelsberg e Edelton Gloeden. Tem o Bacharelado em Violão pela Unesp. Em 1999, participou do VII Festival Internacional de Violão de Mottola, no sul da Itália, onde estudou com Manuel Barrueco. As obras de Othon Salleiro, tema de sua dissertação de mestrado em música (ECA/USP), têm sido apresentadas em: Projeto Segundarte, na programação do I e II Violão no Centro Cultural São Paulo; V Seminário de Violões Vital Medeiros (palestra); Festival de Violão do Conservatório Souza Lima (São Paulo); Registro e Jacupiranga, no Vale do Ribeira (SP).Participou como instrumentista em vários eventos, tais como: Encontro de Violonistas da UNESP, atuando com duo de violão e violino e como solista da Orquestra de Câmara da UNESP; Projeto Sesc Instrumental; IV, VII e VIII Semana do Violão Isaías Sávio, nestas duas últimas participando também na organização; XXXI Festival Música Nova, idealizado pelo compositor Gilberto Mendes; I Festival de Violão Heitor Villa-Lobos, organizado pelo professor Henrique Pinto; Participou do Trio Unesp de Violão, juntamente com Breno Chaves e Giacomo Bartoloni, e da Orquestra de Câmara da UNESP, realizando séries de concertos pela capital e interior de São Paulo; Projeto Arte nas Ruas, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.Lecionou nos cursos de bacharelado e licenciatura em música da Faculdade Paulista de Artes, FPA, em São Paulo. Desde 2003, trabalha no Projeto Guri, projeto social da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, onde atuou como professora e atualmente como membro da equipe técnica do projeto.
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Nas minhas pesquisas sobre o Violão Brasileiro tive a oportunidade de conversar,entre 1997 e 1998, com músicos que conviveram com Salleiro e sobre ele manifestaram suas opiniões. Passo agora a transcrever trechos dessas conversas com o intuito de realçar e aprofundar alguns pontos da personalidade e da técnica violonística de Salleiro, que se encontram na tese da Flavia.

1º) Bate papo de Jorge Mello (JM) com Sebastião Tapajós(ST):

"- (JM) Com quem vc aprendeu e desenvolveu sua técnica no violão erudito?
- (ST)Isto é importante. Meu lado técnico de violão começou com Othon Salleiro, que é daquí de Jacarepaguá. Foi quem me orientou de forma correta. Antes disso eu era autodidata e não tinha um mestre que me falasse:"Faz isto e não aquilo.." Desse modo eu tocava Sonho de Amor de Lizt, uma valsa de Chopin e um estudo de Sor, mas tudo empiricamente...E ele(Salleiro)quando me pegou, disse assim:"Não quero ouvir nada do que você toca!", e não ouviu...Comecei do zero mesmo e foram 33 dias de trabalhos intensivos. A gente começava às sete da manhã e só largava às sete da noite! Nos andavamos de ônibus e as vezes ele conversava comigo assim: "Tá vendo esta frase aquí no jornal? Isso aquí a gente pode aplicar na técnica violonística". Ele era muito louco, mas foi genial...isso foi por volta de 1963 e no ano seguinte eu viajei para a Europa, indo para as mãos de Pujol no conservatório de Madrid. Ele não corrigiu em nada minha técnica violonística. O "intensivão" do Salleiro valeu por tudo na vida, foi um negócio muito forte, muito especial. Ele é uma pessoa muito criativa.
- (JM) Ele tem músicas editadas?
- (ST) Alguma coisa, mas eu acho que a maioria das músicas dele infelizmente vai se perder com a memória dele.
- (JM) Ele não escrevia estas músicas?
- (ST) Ele sabia escrever música, mas não estava nem aí...Ele tocava e descrevia suas músicas e as tocava esplendidamente! Salleiro é muito importante dentro do mundo violonístico brasileiro, as pessoas que o conheceram sabem disso.
Eu cheguei tecnicamente pronto para o Pujol, e pelo Pujol passou Julian Brean e muita gente, ele era um crivo."

2º) Bate papo de Jorge Mello com Nicanor Teixeira(NT)
 
"- (JM) Você conviveu com o Othon Salleiro?
- (NT) O Salleiro para mim era um cara fantástico, que dividia o tempo dele entre a Psiquiatria e a Música. Trabalhou durante 40 anos no Hospital do Engenho de Dentro. Era um tipo engraçado, interessante e muito inteligente também...falava muito sobre o violão, o negócio dele era o violão. Eu já o conhecia desde 1952 na extinta Associação Brasileira de Violões, eu me lembro que desde essa época eu convivia com o Salleiro. Depois fui amiudando esse contato com ele a ponto de nos reunir sempre(todos os dias) na Casa Carlos Wehrs, que ficava na rua da Carioca, numa roda de choro que era uma verdadeira academia! O gerente, Mario Montenegro, que era um entusiasta do violão, montou um espaço na sobreloja onde ficavam os violonistas e chorões em geral. Salleiro era o centro das atenções e todos o ouviam atentamente.
- (JM) E sobre as obras de Salleiro?
- (NT) Era um compositor fantástico, com muitas obras, mas um pouco desleixado...teve quatro obras editadas pela casa Carlos Wehrs: os choros Harmonia e Picardia e Coração de Boêmio e as valsas Súplicas de Amor e Perfume da Saudade. Fizeram então um contrato e deram dinheiro para ele, que disse assim:" Publiquem essa obra, que eu não quero saber de mais nada". Era um sujeiro muito engraçado...E só teve essa publicação, que nunca mais ví editada.
Eu tive o privilégio de frequentar por quase um ano a casa do Salleiro na década de setenta. Eu ia até lá todo o sábado e ficavamos, eu com um violão e ele com outro, das oito da manhã até as dez da noite. Ele me passava suas composições e também arranjos que fazia das músicas de outros compositores. Eu me lembro de um arranjo que ele fez para Tenebroso do Ernesto Nazareth, que era uma obra prima! Eu pegava com ele mano a mano e no domingo, na minha casa, eu escrevia. Nas semanas seguintes, a mesma coisa. Escreví muitas coisas dele, só que infelizmente algumas eu ou não consigo localizar, ou emprestei para alguem que não me devolveu.
- (JM) E você pensa em publicá-las?
- (NT) Depois que conseguir recuperar essas peças pego umas oito ou dez das mais importantes, falo com a esposa dele, com quem me dou muito bem, e vejo se consigo publicar. Minha intenção é esta. Depois pretendo distribuir a obra dele para os violonistas tocarem, que é também uma maneira de registrar isso na memória do violão.
- (JM) Quais músicas do Salleiro que você escreveu?
- (NT) Escreví Prece, Excelsa, Conversando com o Infinito(I e II), esta é uma peça fantástica que lembra Debussy. Escreví a música mas não coloquei a digitação, pois ela tem uns efeitos muito bonitos e eu tenho que me lembrar como ele fazia. Escreví também um choro chamado Saudosa Boemia, dele e do Julinho Ferramenta, um grande chorão que morava na Ilha do Governador e contemporâneo do Quincas Laranjeiras. O Jacob falava muito dele e os antigos também. Escreví as valsas Luar dos Trópicos e Um Olhar ao Longe, o Prelúdio Carioca que é uma beleza e um choro dele com João dos Santos, que não me lembro o nome."

3º) Bate papo com Sergio De Pinna (SP):

" -(JM)Gostaria que você nos contasse algumas histórias sobre Othon Salleiro.
- (SP) Coração Boêmio, Perfume da Saudade, Conversando com o Infinito..Psiquiatra o cara, olha os nomes que ele dava às músicas. Salleiro é uma figura. Agora, são peças violonísticas. O cara pra tocar Salleiro... Porque sabe o que acontece?Vem um cara e diz:"Eu toco choro", mas o choro, se não tiver balanço... Eu sempre digo isto para esses caras que começam no 7 cordas e ficam naquele negócio de baixarias doidas. Então acontece que eles saem do tempo, ficam abusando demais e atrapalham o solista. Eu frequentei muito a casa do Jacob. Eu e o Nicanor Teixeira passavamos noites e noites sem dormir, deitados lá no jardim da casa do Jacob, que ficava na rua Comandante Rubens Silva em Jacarepaguá. Esta rua é paralela a rua onde morava o Salleiro. Eles tinham muita proximidade, inclusive o Salleiro foi padrinho de casamento do Jacob. Depois brigaram por causa de uma música que o Salleiro dizia que era dele, Santa Morena, aquela valsa do Jacob. Num dos saraus na casa do Jacob tinha um 7 cordas tocando lá com ele e o Jacob parou e disse com aquele vozeirão dele:" Ô meu filho, quem é o solista aquí, eu ou você? Para com esse negócio de muito baixo no meu ouvido". É isso mesmo, tem que fazer a base pro solista, esse negócio de fazer muito baixo atrapalha. Então o 7 cordas tem que fazer aquele baixo dentro do vazio, o contraponto né? Tem que contrapontear.
- (JM) Qual a característica mais marcante da obra do Salleiro?
- (SP) Olha, o Salleiro era um cara muito versátil, mas tinha dias em que não sei porquê, talvez pela profissão dele de psiquiatra, sempre atendendo pessoas doentes...lidar com maluco não é mole não e você acaba ficando meio assim. Pois ele podia tocar tanto o choro Magoado quanto a Catedral até melhor que o Barrios num dia e no dia seguinte tocar como um cara primário, onde não sai nada.
Mas a obra de Salleiro é para violonistas avançados, assim como a obra de Barrios. Eles por sinal foram grandes amigos e tocaram juntos muitas vezes pelas noites na Lapa. Ele conviveu muito com Quincas Laranjeiras, João dos Santos, João Pernambuco, aquela turma...
Eu considero o Salleiro como um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos, aquele choro Harmonia e Picardia então...O Nicanor Teixeira passou a escrever as músicas do Salleiro, ele conseguiu resgatar aquela Cavaquinho Serenata que tem uma parte em que realmente parece que tem um cavaquinho tocando. "

4º) Bate papo com Teresa Conceição Martins(TCM):

"- (JCM) A senhora teve professores muito importantes como João Pereira, Pereira Filho, Garoto e Othon Salleiro. Poderia falar um pouco sobre este último?
- (TCM) Quando eu fiz Análise Sintética com o Salleiro, ele anexou parte do que estudou em medicina. Por exemplo: Anatomia das mãos, as mãos violonísticas. Eu tenho isso escrito, posso lhe mostrar. Ele fez uma coisa profunda falando sobre o comportamento do músico, a formação do músico, as características, a inteligência da pessoa. Inclusive eu serví de cobaia para ele escrever, porque quando fui para ele já tinha estudado com o João Pereira e com o Garoto.
- (JCM) Como a sra conheceu o Othon Salleiro?
- (TCM) Na Associação Brasileira de Violões, todo final de mes tinha um sarau lá. Conhecí neste lugar o Oromar Terra, o Seu Edgar Oliveira, irmão do Luis Allan e conhecí o Othon Salleiro, com quem me apresentei. Ele gostou muito de minha apresentação e me convidou para ser sua aluna. Naquela época ele dava aulas no Conservatório Brasileiro de Música, alí na Av Graça Aranha e foi lá que estudei com ele.
- (JCM) Por quanto tempo?
- (TCM) Três anos. Fiz o curso de análise sintética e ia fazer um curso especial de violão na casa dele lá em Jacarepaguá. Foram essas aulas de análise que ele me deu, para conhecer melhor o instrumento, porque naquela época não havia o que há hoje. Inclusive a Graça Allan está fazendo um método de violão e pediu que eu colaborasse com essa parte. Até hoje não registrei isso.
- (JCM) O Prof. Salleiro tinha um repertório vastíssimo, não?
- (TCM) Tinha. Ele transpôs peças de piano para violão, como Clair de Lune e Catedral Submersa, de Debussy, além de várias peças de outros compositores. Tem também as próprias composições dele, muitas das quais o Nicanor Teixeira escreveu. Depois que o Salleiro foi atropelado ele nunca mais foi o mesmo, tanto é que eu estou com uma fita virgem para levar à casa do Sergio De Pinna para gravar o último programa que ele fez na ABI- o Sergio fez uma homenagem à ele-e ele já estava com uma certa dificuldade em andar, mas tocou e contou algumas histórias. O Sergio tem esse encontro gravado."
Por fim, apresento um artigo que publiquei no site do samba choro em 2003. Espero ter apresentado satisfatoriamente este grande violonista e compositor que foi Othon Salleiro!

O violão brasileiro de OTHON SALLEIRO, por Jorge Mello (publicado no site www.samba-choro.com.br/artistas em 26 de setembro de 2003)
No livro “Música Popular Brasileira Estilizada” de autoria de Henrique Pedrosa(Editora Universidade Santa Úrsula,1988) encontramos na página 143 a seguinte constatação: “Em termos de violão a maior barbaridade é o esquecimento e quase total descaso quanto a Othon Salleiro. Perguntem subitamente a um violonista erudito como João Pedro Borges quem é o Ernesto Nazareth do violão atual. Othon Salleiro será a resposta”. Fui ao lançamento deste livro, que contou com um maravilhoso recital de Rafael Rabello...Esta questão do Othon desde então ficou me incomodando. Realmente muito pouco se sabe a seu respeito. Para alguém obstinado que procure no Google, nos sites sobre violão ou mesmo no Dicionário Cravo Albin, nada encontrará. Por outro lado, uma incursão na discografia brasileira de 78 rpm também nada revelará. Então ele não compôs ou gravou? Transcrevo a seguir algumas informações obtidas nas minhas fontes e que podem ajudar a delinear o perfil de um dos mais interessantes e origina is violonistas brasileiros. Isto sem mencionar o grande compositor que ele foi.

Othon Sivaldo Vaz Salleiro nasceu na cidade do RIO DE JANEIRO no início do século passado. Aos dezesseis anos torna-se aluno de Quincas Laranjeiras e sua vocação musical começa a incomodar seus pais, que desejavam vê-lo formado em Medicina. Passa então um período de reclusão no Rio Grande do Sul, fixando-se em Porto Alegre. Neste período produz algumas de suas composições favoritas. Retorna ao Rio de Janeiro e, em 1929, podemos ver sua fotografia na revista “O Violão” de Março, com a seguinte legenda: Othon Sivaldo Vaz Salleiro, risonha esperança da virtuosidade do Violão e alumno do professor Gustavo Ribeiro( nesta foto ele aparece tocando violão na casa Cavaquinho de Ouro). Aos vinte e oito anos ingressa na Faculdade Nacional de Medicina, onde se forma e faz mais tarde especialização em Psiquiatria. Trabalhou como Psiquiatra no Hospital do Engenho de Dentro durante quarenta anos, mas nunca perdeu a proximidade com a música! Conviveu com os grandes chorões como o já citado Quincas Laranjeiras, João Pernambuco, João da Baiana, Pixinguinha e um ilustre visitante:Agustín Barrios. O point era o “Cavaquinho de Ouro”, mas as noitadas podiam se estender para a Lapa. Era a nata da boemia ! Todo mundo enchia a cara e depois bebia leite para rebater...Barrios provavelmente foi quem mais influenciou Salleiro, passando para este a importancia do apuro técnico e o gosto pelo folclore. Reza a lenda que, quando Segóvia por aqui esteve em 1937, ficou impressionado com o virtuosismo de nosso patrício e não se furtou em dar-lhe conselhos . Também Narciso Yepes, outra celebridade, ao vê-lo tocar “Batucada-choro” ficou tão impressionado que passou a incluir esta música de Salleiro em seu repertório. Compositor muito inspirado, teve como parceiros João dos Santos, João Pernambuco e Julinho Ferramenta (célebre chorão da Ilha do Governador). Com estes e Pixinguinha, freqüentava os saraus da casa de Jacob do Bandolim, de quem foi padrinho de casamento. Era m quase vizinhos...Um belo dia, acabaram por se estranhar e a amizade terminou. Conheço duas versões para este acontecimento: Uma (a que consta na biografia de Jacob) diz que eles brigaram porque Salleiro teria humilhado um violonista iniciante num sarau. A outra atribui isto ao fato dele afirmar que a valsa “Santa Morena”( de autoria de Jacob) era sua. A idéia que temos de Salleiro, ao ler esta biografia de Jacob, é a pior possível! Ele é reduzido a uma figura bizarra que, por um impulso exibicionista, terminou por ser excluído do sarau por Jacob! Admirado por muitos violonistas ele foi, nas palavras de Sérgio de Pinna. : “Um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos...”. Nicanor Teixeira não poupa elogios quando diz que ; “O Salleiro para mim era um cara fantástico, que dividia seu tempo entre a música e a psiquiatria”. Tão grande quanto o violonista e o compositor, foi o professor que em trinta e três dias de curso intensivo proporcionou ao então novato Sebastião Tapajós uma desenvoltura técnica que seria admirada em sua vitoriosa carreira e até por Emílio Pujol, que se tornaria mais tarde o seu mestre na Europa. “ Foram dias de trabalho intensivo. Começávamos às sete da manhã e só largávamos às sete da noite”, disse-me Tapajós. O único registro que temos do Salleiro como violonista é o incrível LP “ Violão Brasileiro-Othon Salleiro”, Musidisc-HI-FI 2115. Neste disco ele passeia por vários ritmos através de composições suas e que nos remetem a várias partes do nosso Pais. Estas são músicas muito bem elaboradas e com soluções harmônicas bastante interessantes. Trata-se sem dúvida de um compositor muito sofisticado e suas músicas possuem um alto nível de dificuldades em termos de execução. São dez músicas com os seguintes títulos: “Batucada-choro”; “Excelsa”; “Viola da saudade”; “Ternura”; “Reminiscências cariocas”; “Confidências”; “Côco-baião”; “Chimarrita”; “Luar dos trópicos” e “Festa do Bonfim”. Felizmente tenho este LP e posso afirmar que se trata de uma obra de muita qualidade! Em 1999, ano em que Salleiro faleceu, aparece o CD “Homage”(edições musicais Aguiar) do Violonista Nélio Rodrigues apresentando dezesseis composições de Salleiro, a maioria inéditas! Este lançamento passou desapercebido, mas fornece uma clara visão da genialidade do compositor. Este é o violão brasileiro de Othon Salleiro.
Abraços, Jorge Mello.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Brazilliance vol 1- Uma experiência inovadora.





































Brazilliance Volume 1 Uma Experiência Inovadora Por Jorge Mello
Ensaio elaborado especialmente para o projeto Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia,
patrocinado pela Petrobras através da Lei Rouanet

APRESENTAÇÂO


Neste ensaio apresento a trajetória musical de Laurindo Almeida um pouco antes e até um pouco depois de sua ida aos Estados Unidos em 1947. Ele teve, em função de sua competência, a felicidade de trabalhar com músicos extraordinários como Stan Kenton e Peter Rugolo, sempre abertos a experiências inovadoras. Isto permitiu a Laurindo fazer sua própria experiência através da fusão do Jazz com ritmos latino americanos. Neste sentido o disco Brazilliance vol 1 representa um marco na música instrumental. Suas afinidades musicais com Radamés Gnattali e Garoto são também abordadas.

1) De malas prontas para os Estados Unidos
Em março de 1947 o violonista e compositor Laurindo Almeida “arrumou suas malas” e partiu para os Estados Unidos. O fechamento dos cassinos por decreto assinado pelo então Presidente Eurico Gaspar Dutra foi uma das grandes razões para que tomasse esta decisão tão drástica. Outra razão não menos importante para isso foi a vultosa quantia em dinheiro que poderia receber por sua música Aldeia de Roupa Branca (em parceria com Ubirajara Nesdan), batizada pelos americanos com o nome de Johnny Peddfer e que foi um grande êxito internacional, sendo gravada por mais de quarenta orquestras norte-americanas, inglesas e sul-americanas... Vale dizer que tudo isto aconteceu sem que Laurindo visse a cor do dinheiro! A chance de receber os direitos autorais usurpados era bem grande, o que de fato aconteceu.

Laurindo era aguardado em Los Angeles por Zezinho (Zé Carioca), Nestor Amaral, Russo do Pandeiro e Russinho para formar o conjunto Carioca Boys (Jornal A Noite em 15/03/1949), que já possuía um ótimo contrato para apresentações e até filmagens com Carmen Miranda. Esta viagem, em suas próprias palavras, “está planejada há muito tempo. Mas tudo acontece quando tem que acontecer...Aliás esta é a segunda vez em que eu e Zezinho (Zé Carioca) nos unimos para atuar fora do Brasil. Foi com ele que, em 1936, percorri vários países da Europa: Portugal, Espanha, França, Alemanha, Bélgica e Holanda. Agora vamos concentrar todas as nossas forças no Carioca Boys”. Para qualquer artista que viajasse para os Estados Unidos naquela época não poderia faltar a seguinte pergunta: Você vai se encontrar com Carmen Miranda? Bem, Laurindo não escapou a tal pergunta e prontamente respondeu: “Quanto a nossa Carmen, você sabe que é uma velha amiga minha...Por isso mesmo estou bastante animado com o empreendimento. Há muita coisa boa em nossa música para ser levada a outras terras e vou dedicar-me de corpo e alma a essa propaganda.”

2) A vida musical de Laurindo Almeida no Brasil, até 1947
Para entender o porquê desse encontro, devemos retroceder no tempo até o ano de 1935 e acompanhar a trajetória de Laurindo Almeida, Nestor Amaral e Zezinho. Grande parte destas informações não tinham sido, até então, divulgadas, mas são fundamentais para o entendimento da vida musical de Laurindo:
Após uma breve temporada na Rádio Cosmos por onde também estava Garoto (Anibal Augusto Sardinha) no início de 1935, Laurindo excursiona pelo sul do país com Nestor Amaral. Já em 11 de junho eles se apresentavam na recém inaugurada Rádio Ipanema, na cidade do Rio de Janeiro. Por outro lado Zezinho (José do Patrocínio Oliveira)-então ídolo de todos os instrumentistas de cordas de S. Paulo- passou a integrar o cast da poderosa Rádio Mayrink Veiga a partir de 25 de junho daquele ano. Suas histórias se entrelaçam a partir do ano seguinte, 1936, onde eles participam de caravanas artísticas internacionais incentivadas pelo Governo Vargas. Com tais caravanas buscava-se a aproximação com países simpatizantes do Nazi-Fascismo. Desta forma viajou Nestor Amaral com o conjunto regional do qual era líder para uma temporada em Buenos Aires, iniciada em 16 de abril e que se estendeu até agosto (Diário da Noite,15/04/1936-Revista Fon-Fon,08/08/1936). Para a capital portenha também foram Carmen e Aurora Miranda, tendo a acompanhá-las Laurindo, Zezinho e Eugênio Martins. Participaram também desta temporada o Regional de Benedito Lacerda, Custódio Mesquita, Francisco Alves e Alzirinha Camargo (Revista Fon-Fon, 24/10/1936). Entretanto a viagem mais interessante foi a do Conjunto Típico Brasileiro liderado por Zezinho e com Laurindo Almeida(violão), Lauro Paiva (piano), Orací Camargo (saxofone) e Benedito Augusto Lapa (bateria). Eles partiram do Rio de Janeiro em 16 de abril, com escala em Recife (Diário de Pernambuco, 18/04/1936) e depois rumaram à Europa a bordo do navio Cuiabá. Alemanha, Holanda, Bélgica, Itália, França, Espanha e Portugal foram os países visitados. No excelente documentário “Laurindo Almeida-Muito Prazer” (GNT-Telenews)diz-se que eles ficaram fascinados quando presenciaram, em Paris, uma apresentação do duo Stephan Grappelli/Django Reinhardt, em especial Laurindo e Garoto(!!!). No documentário afirma-se que os integrantes do conjunto eram Zezinho, Laurindo Almeida, Garoto e Nestor Amaral... Entretanto este último estava na Argentina enquanto que Garoto ainda estava em São Paulo apresentando-se em duo com o violonista Aimoré.

Já em setembro encontramos Zezinho, Laurindo, Garoto e Aimoré na Rádio Mayrink Veiga, com os três últimos integrando o Conjuncto Hawaiano da PRA-9, sob a direção de Gastão Bueno Lobo (Ele foi o introdutor da guitarra havaiana e do banjo no Brasil). Eles também participavam do regional daquela emissora, que contava com músicos do porte de Pixinguinha, Tute, Luperce Miranda dentre outros. Em 1937, com o retorno de Garoto e Aimoré para S. Paulo, Laurindo intensificou sua colaboração musical com Gastão Bueno Lobo, apresentando-se com ele em programas da Mayrink Veiga. Quando Gastão suicidou em 03 de junho de 1939, foi encontrado num dos bolsos do seu paletó a partitura de uma música sua em parceria com Laurindo, com o sugestivo título Se Recordar é Viver( Gastão Bueno Lobo- Artigo escrito por Jorge Mello em Musica Brasiliensis-daniellathompson.com))...Com Garoto já de volta à Rádio Mayrink Veiga em novembro de 1938, Laurindo (violão),ele (violão tenor), Mesquita(violino) e Faria(contrabaixo) formaram o Conjunto Cordas Quentes, que se apresentou com grande êxito em programas naquela emissora até setembro de 1939. Apesar do grande sucesso alcançado, eles não deixaram nenhum registro fonográfico. No início do mês de fevereiro de 1939(Revista Fon-Fon, 04/02/1939-Laurindo e Garoto) foi dado grande destaque à estréia da dupla do Rythmo Syncopado, formada por Garoto, no violão tenor e Laurindo Almeida, no violão de seis cordas. Esta dupla apresentou-se, com grande sucesso, no microfone da Mayrink até o final de setembro daquele ano. O violão tenor usado por Garoto, na ocasião, já era o modelo dinâmico fabricado pela Del Vecchio.

Em 13 de março, com a volta de Zezinho à Mayrink, formou-se o trio Garoto, Laurindo e Zezinho (Jornal do Commércio-19/04/1939-Rádio Mayrink Veiga), que se apresentou até o final do mês de abril, quando não mais se viu o nome deste último na programação da emissora. Ele embarcou para os Estados Unidos, para integrar-se à Orquestra de Romeu Silva, que se apresentava no Estande Brasileiro da Feira de Nova York (Última Hora (SP)-27/12/1954-Zé Carioca inventou a “lata de tomate”). A última participação de Garoto na Mayrink, naquele ano, deu-se em 30 de setembro, no Duo do Ritmo Sincopado, com Laurindo (Jornal do Commércio, 30/09/1939-Rádio Mayrink Veiga.19.35 as 19.45, Garoto e Laurindo) . De abril a setembro o duo participou de nove discos, como acompanhantes, pela Odeon, tendo gravado apenas um disco solo, pela RCA Victor. Nestes seis meses de intensa atividade radiofônica, gravaram com Carmen Miranda, Jararaca e Zé Formiga, Alvarenga e Ranchinho, Henricão e Carmem Costa, Dorival Caymmi e, por fim, Ary Barroso.

Desde a época das excursões de artistas brasileiros à Argentina, a cantora Carmen Miranda era considerada a embaixatriz do samba. Ao abraçar agora a chamada “política da boa vizinhança” proposta por Roosevelt, o governo Vargas iria mantê-la na função de principal divulgadora de nossa música no exterior (Ana Rita Mendonça – Carmen Miranda foi à Washington, p.57, ed.Record, 1999). Carmen acabara de regressar de uma excursão ao interior do Estado de São Paulo com o Bando da Lua (A Noite – Sabbado, 04/02/1939 – Pelo avião da Vasp regressaram ontem. Carmen Miranda e o Bando da Lua, de uma vitoriosa excursão artística ao interior de São Paulo) e, com eles e as Irmãs Pagãs, preparava-se para estrear no Cassino da Urca naquela sexta feira, 03 de fevereiro de 1939 (Ruy Castro – Carmen, uma biografia- p.182 – Companhia das Letras, 2005. – Aloysio de Oliveira – De Banda pra Lua, p.64, ed.Record, 1983 – A Noite – Sabbado, 04/02/1939. Constitui um verdadeiro sucesso a estréia, ontem, no Cassino da Urca, de Carmen Miranda; Irmãs Pagãs e o Bando da Lua). Seria mais um show, não fosse pelo fato do empresário norte americano Lee Schubert tê-la assistido e gostado muito. Tanto que a convidou para um jantar a bordo do transatlântico Normandie, onde lhe apresentou uma proposta para atuar nos Estados Unidos, mas sem levar o Bando da Lua. Carmen rejeitou a proposta, pois não concebia ir sem levar o grupo que a acompanhava desde 1934. Falavam muito num romance entre Carmen e Aloísio de Oliveira, o líder do Bando, para justificar sua insistência em levá-los (Carioca nº 207 – 30/09/1939, p.42 – O Romance de Carmen Miranda). Ficou acertado, finalmente, que o governo brasileiro bancaria as passagens do grupo, em troca de apresentações no Pavilhão Brasileiro da Feira Mundial de Nova York, inaugurada em 30 de abril. Como parte dos agradecimentos Carmen foi a Caxambu no final de abril (Ana Rita Mendonça, op.cit., p.56), acompanhada do Bando da Lua, Laurindo e Garoto para dar uma audição para o Presidente da República.

Considerado como o melhor conjunto vocal pela crítica especializada e contabilizando dez anos de uma vitoriosa carreira, incluindo aí algumas temporadas em Buenos Aires com a própria Carmen, isto sem contar os três discos pela Odeon e os trinta e nove pela RCA Victor, o Bando da Lua tinha vida própria. Ivo Astolfi e Hélio Jordão Pereira temiam que o Bando se transformasse num mero coadjuvante de uma cantora, mesmo que esta fosse Carmen Miranda! Razões suficientes para que pensassem em desistir da viagem, às vésperas do embarque!
Ruy Castro, em sua biografia de Carmen Miranda (Ruy Castro, op.cit., p.217), conta-nos que já existia um “plano B” para o caso de se confirmar a desistência dos dois: em seus lugares seguiriam Garoto e Laurindo Almeida. Entretanto o argumento usado, realçando a grandiosa missão que teriam ao representar a música brasileira nos Estados Unidos, talvez tenha sido suficientemente forte para vencer as resistências. Deste modo, embarcaram todos do Bando, a saber: Aloísio de Oliveira (vocal e violão), Ivo Astolfi (violão), Stênio Osório (cavaquinho), Hélio Jordão Pereira (violão), Osvaldo de Morais Éboli (Vadeco) e Afonso Osório (ambos na parte rítmica).

Não durou mais que cinco meses a permanência de Ivo Astolfi na terra do Tio Sam. A versão oficial é que ele, apaixonado e comprometido com uma moça de Porto Alegre, voltou ao Brasil para se casar, o que aconteceu alguns meses depois (Ruy Castro, op.cit., p.217). Qualquer que seja o motivo, esta ruptura e seu conseqüente regresso motivou o envio do bilhete que tinha o seguinte teor (Irati Antonio e Regina Pereira, op.cit., p.43): “Queridíssimo Garoto, espero que você tenha gostado da idéia de vir para cá e aceite-a, pois esta terra é a melhor do mundo, só estando aqui é que acreditará. Estamos ansiosos que você venha, eu e os rapazes. Abraços da Carmen”.

Causa estranheza um convite apenas para Garoto quando muitos sabiam, e Carmen ainda mais, que o Duo do Ritmo Sincopado fazia um enorme sucesso. Se a idéia era aumentar a qualidade da parte instrumental, onde o Bando não se destacava, o natural seria levar aquela dupla... O porquê da exclusão de Laurindo persiste como um mistério até os dias de hoje. De acordo com o já citado documentário, ele declarou que não queria se tornar mais um dos Miranda Boys para ter a sua carreira ofuscada. Este episódio fez com que a amizade entre Laurindo e Garoto ficasse abalada por um longo tempo e mesmo após o retorno de Garoto ao Brasil em 1940, eles raramente se encontravam. Razões contratuais e também de natureza racial pesaram muito na decisão de Garoto em não voltar com Carmen e o Bando da Lua para os Estados Unidos. Em seu lugar foi Nestor Amaral, não como uma atração à parte, mas sim como integrante do Bando. Laurindo permaneceu na Rádio Mayrink Veiga participando do regional daquela emissora e executando solos de violão. Atuava também em cassino assim como vários músicos que buscavam naquele trabalho uma complementação dos salários nem sempre satisfatórios pagos pelas emissoras de rádio.


3) O início da vitoriosa carreira de Laurindo Almeida nos Estados Unidos

Já nos Estados Unidos, numa vez em que estava participando de uma reunião na casa de Carmen Miranda, Laurindo recebeu um telefonema que mudou sua vida: “O diretor musical de um grande estúdio, durante toda uma tarde, procurava desesperadamente fazer com que violonistas e sua orquestra se adaptassem a uma harmonização menos comum. Recebo então este telefonema pedindo que comparecesse lá no estúdio... havia surgido algo, era pegar ou largar! Em menos de quatro horas a gravação estava pronta. A Song Is Born era o filme” (Laurindo Almeida, um violão que emigrou - Caderno B, Jornal do Brasil-03/12/1967).
Interessante observar (Laurindo Almeida: Dos trilhos de Miracatu às trilhas de Hollywood- Dissertação de Mestrado apresentada por Alexandre Francischini-Unesp-2008) que a participação de Laurindo naquele filme se deu como integrante do grupo Samba Kings, que tinha basicamente a mesma formação do Carioca Boys.
A gravação para aquele filme acabou por introduzir Laurindo de forma definitiva no show-business norte-americano, passando ele a conviver com grandes nomes do circuito musical como Tommy Dorsey, Benny Goodman, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e Stan Kenton. Os três primeiros participaram de forma destacada naquele filme, enquanto este último estava à frente de um movimento inovador, o Progressive Jazz, promovendo experiências harmônicas e rítmicas. Kenton então convidou Laurindo para integrar sua orquestra e este lá ficou de 1947 até 1950, executando sua guitarra de forma peculiar, usando os dedos ao invés de palheta.
A composição Lament, autoria de Peter Rugolo( Alexandre Francischini- Unesp-2008), foi executada por Laurindo Almeida acompanhado pela orquestra de Stan Kenton em sua estréia, naquele país, como solista de violão. A profundidade de sua interpretação naquela composição nos dá uma medida de sua afinidade com tais inovações. Podemos perceber com mais nitidez esta afinidade no primeiro álbum de Laurindo lançado nos Estados Unidos: Concert Creations for Guitar (Capitol-1949). Destacamos o choro Brazilliance, que nos faz lembrar os choros de Garoto. Outro álbum muito interessante lançado dois anos depois pela Capitol foi Suenos, onde ele acrescenta ao repertório do disco anterior as seguintes músicas: Saudade (Radamés Gnattali), Laura (Raskin), Vals de Concerto (Agustin Barrios) e Staniana, composição de Laurindo dedicada à Stan Kenton.
Laurindo começa com suas tentativas de introduzir a influência polirrítmica da música latino americana no Jazz. Um integrante da orquestra de Kenton entusiasma-se com a idéia e se associa a Laurindo neste projeto. Seu nome: Bud Shank.

4) A ousadia em Brazilliance, vol 1
O resultado desta pesquisa culminou com um Lp muito a frente de seu tempo e realizado com extrema competência. Isto é o mínimo que se pode dizer sobre Brazilliance vol 1, gravado em Los Angeles entre 15 e 22 de abril de 1953. Este trabalho reflete uma das primeiras experiências de fusão de ritmos latinos, predominando o brasileiro, com o jazz. Tendo como solistas o violonista brasileiro Laurindo Almeida e o sax alto Bud Shank, com Harry Babasin no baixo acústico e Roy Harte na bateria a acompanhá-los, este disco passou inteiramente desapercebido por nossa crítica musical, até mesmo um longo tempo após o advento da Bossa Nova (BN). O fato é que este trabalho, assim como o seguinte desta série e gravado cinco anos depois, possui brilho próprio e independe da existência da BN para afirmar seu valor. Uma questão instigante é se a recíproca é verdadeira ou não... Muitos apontaram este trabalho como uma antecipação da Bossa Nova, já que mistura elementos do Jazz com a Música Brasileira. O próprio Laurindo deu declarações contraditórias a esse respeito. Em entrevista concedida a Silvio Boccanera, então correspondente do Jornal do Brasil, publicada no Caderno B em 02/06/1977 Laurindo, ao ser perguntado se via muita identificação entre jazz e samba, declarou: ”Ah, sim. Quando cheguei aqui em 1947 fui percebendo esta identificação e acabei fazendo uma experiência de samba e jazz juntos, numa gravação de 1952, chamada Laurindo de Almeida com Bud Shank no Saxofone. Foi isso que mais tarde acabou se chamando Bossa Nova, que é samba com harmonização de jazz”. Dez anos depois, em entrevista ao Jornal do Brasil, publicada em 24/08/1987 no Caderno B, o repórter Luciano Trigo perguntou: “Em 1952 o senhor gravou um disco com o saxofonista Bud Shank que, para muitos, antecipou em 10 anos a Bossa Nova. O senhor se considera um precursor da Bossa Nova?” Laurindo então respondeu: “Musicalmente o disco era um amálgama do samba e do jazz, muito parecido com a Bossa Nova, mas não me considero precursor de coisa nenhuma”. Laurindo guardava uma grande mágoa de músicos e críticos ligados a Bossa Nova por não reconhecerem sua contribuição àquele movimento. Como se deu esta contribuição? Certamente pelo uso de harmonias modernas, da mesma forma utilizada, por exemplo, por Garoto e Radamés Gnattali. É provável que a não inclusão de Laurindo nesta vanguarda se deva, talvez em grande parte, ao desconhecimento quase que total por parte dos músicos e críticos musicais acerca do trabalho que ele desenvolvia nos Estados Unidos. Este esquecimento pode ser medido através de livros sobre a Bossa Nova e no mais representativo deles (Chega de Saudade: a história e as histórias da Bossa Nova/ Ruy Castro.-São Paulo: Companhia das Letras, 1990) encontramos um pequeno comentário acerca de sua participação na Orquestra de Stan Kenton. Curioso é ter existido no Rio de Janeiro, em 1949, o Stan Kenton Progressive Club e seus membros venerarem alguns músicos daquela orquestra, mas não o seu talentoso guitarrista, um brasileiro chamado Laurindo Almeida.
Ao analisarmos este trabalho percebemos que o mesmo não representou apenas um amálgama do samba e do jazz!!! Aliás, samba é o que menos se encontra neste disco... na verdade em apenas duas faixas ele aparece: Inquietação e Terra Seca, ambas de Ary Barroso. A apresentação destes belíssimos temas com harmonização moderna, dentro da concepção jazzística e depois usando a fusão rítmica com o jazz produz um resultado esplêndido. Talvez somente nestas duas músicas se apliquem as declarações de Laurindo!
O chorinho Nonô de Romualdo Peixoto é apresentado na forma original, entrando depois um ótimo improviso de Shank. Blue Baião, tradicional música de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, é aqui apresentada numa concepção ainda atual! Para encerrar a parte de composições brasileiras, duas de Laurindo Almeida: Baa-too-kee, um baião estilizado e bem elaborado e Amor Flamenco, definida pelo próprio título. Dentre as músicas estrangeiras a que mais se aproxima da concepção da bossa nova é Speak Low, de Kurt Weill e Ogden Nash. Starway To The Stars de Matt Malneck/Mitchell Parish/ Frank Signorelli e Noctambulism do baixista Harry Babasin são dois temas lindos, verdadeiramente emocionantes, onde mais uma vez se destacam os solos de Shank e os fraseados de Laurindo.
Atabaque e Tocata em Ritmo de Samba, dois brilhantes temas de Radamés Gnattali e Carinhoso, de Pixinguinha, são as melhores do disco, tanto em arranjo quanto em execução! As duas primeiras são aqui apresentadas pela primeira vez e consolidam a intensa colaboração de Laurindo Almeida com Radamés Gnattali. Hazardous de Richard Hazard e Acertate Mas de Oswaldo Farres, completam este disco que, inacreditavelmente, foi gravado em 1953!
5) A primeira visita de Laurindo Almeida ao Rio de Janeiro.
Saudade, música de Radamés gravada por Laurindo em 1951 no Lp Suenos marca o início da colaboração musical entre eles. Em seguida Radamés gravou (20/08/1952-Continental 16719 a/b), com sua orquestra, as peças Fantasia Brasileira e Rapsódia Brasileira, ambas em parceria musical com Laurindo.
A título de curiosidade informamos que a Tocata em Ritmo de Samba foi composta originalmente para violão solo (escrita em 1950) e como tal foi apresentada por Garoto como parte do recital dedicado a Radamés Gnattali, na Rádio Gazeta de São Paulo em 22 de agosto de 1954. Bem mais tarde o violonista Raphael Rabello deu a esta música uma interpretação que é considerada por muitos como definitiva. Entretanto o resultado alcançado por Laurindo e Kenton nesta Tocata é simplesmente extraordinário!
Logo após esta gravação Laurindo voltou pela primeira vez ao Brasil, vindo ao Rio de Janeiro para rever a família em Braz de Pina. Além disso, era uma ótima oportunidade para intensificar a produção musical com Radamés, visto que o 78 Rpm com as músicas Fantasia Brasileira e Rapsódia Brasileira fora lançado em abril. Pretendia também rever velhos amigos como Garoto. “Ceci, o Laurindo chegou! Vou me encontrar com ele”, disse Garoto a sua esposa. Esse encontro ocorreu na forma de uma reunião musical na noite de quarta feira, 29 de abril, no apartamento de Radamés Gnattali, em Copacabana. Além de Garoto, Radamés e Laurindo estavam presentes Pedro Vidal, no contrabaixo, Sivuca e Chiquinho, nos acordeons. Recordaram os chorinhos de Nazareth e o repertório do Duo do Ritmo Sincopado. O repertório de Brazilliance foi mostrado por Laurindo, tendo Garoto apresentado suas novas composições para violão. A versão reduzida do Concertino nº 2 para piano e orquestra, de Radamés Gnattali e dedicado a Garoto, também foi ali apresentada. Nas palavras do crítico Claribalde Passos, presente à reunião: “Esta noite inscrever-se-á para sempre no livro de ouro dos momentos inesquecíveis” (Revista Carioca nº 919-Discoteca, 16/05/1953). No dia 1º de maio, estes músicos reuniram-se na casa de Pixinguinha numa tarde de memoráveis improvisos!!! Dois dias depois eles se reuniram na casa do cunhado de Laurindo para uma churrascada musical. Esta foi a última vez que Laurindo viu seu velho amigo Garoto.
Existe um paralelismo entre as trajetórias musicais de Garoto e Laurindo. Além da grande afinidade musical que eles possuíam, eram autodidatas e faziam incursões pela Música Erudita. Tais incursões foram sendo acentuadas a partir da segunda metade da década dos anos quarenta do século passado, Garoto dedicando-se cada vez mais ao violão (muito embora continuasse a tocar com maestria diversos instrumentos de cordas em programas radiofônicos e em gravações) através, principalmente, dos seus programas exclusivos de solos na Rádio Nacional. Um pouco antes de rescindir seu contrato com aquela emissora em 18 de junho de 1954, Garoto tinha um programa com o sugestivo nome de Recitais de Violão. Sua apresentação como solista de violão no Teatro Municipal executando o Concertino nº2 para piano e orquestra composto por Radamés Gnattali (e dedicado a ele, Garoto) com a Orquestra Sinfônica do Municipal, regida por Eleazar de Carvalho em 1953 dá uma medida de seu prestígio, principalmente se considerarmos esta como a primeira vez em que um solista de violão, acompanhado por orquestra, se apresentou naquele teatro! No ano seguinte em São Paulo Garoto apresentou-se num memorável concerto no Auditório da Rádio Gazeta. Na primeira parte o Concertino nº 2 com a Orquestra Sinfônica da Rádio Gazeta sob a regência do Maestro Armando Belardi. Encerrando a primeira parte Garoto apresentou a composição Saudade de Radamés Gnattali. Com o pianista Fritz Jank, Garoto executou, em 1ª audição, a Suite Popular Brasileira, para piano e violão elétrico na segunda parte do Concerto. Garoto compôs peças eruditas como Concerto em Ritmo de choro e Concerto para Flauta e Violão. O primeiro, composto em 1946 e dedicado a Radamés, foi apresentado apenas em programas da Rádio Nacional enquanto que do segundo, composto em 1953, sabemos apenas o nome (em anotações no diário de Garoto). Laurindo gravou o Concertino nº2 e Saudade, de Radamés e Nosso Choro, Choro Triste nº1 e Gracioso, estas de Garoto no Lp Impressões do Brasil (Capitol—1957). Um ano antes Radamés (gravação de piano no Rio de Janeiro) Ele sempre acalentou o sonho de ir para os Estados Unidos para ter seu talento reconhecido, já que no Brasil ele tinha que repartir seu tempo entre os inúmeros instrumentos que tocava em gravações, programas radiofônicos e apresentações em boates, para sobreviver. O exemplo de Laurindo é uma prova disto! Ele jamais alcançaria a fama e prestígio que obteve se ficasse no Brasil...Gravar aqui um disco como Concert Creations for Guitar seria algo impensável!!! Laurindo pouco gravou aqui como solista de violão, sendo muito mais numerosa a sua participação em gravações como compositor de músicas populares. Podemos supor que no tempo em que atuava na Rádio Mayrink Veiga e em cassinos, ele paralelamente dedicava-se com afinco ao estudo do repertório erudito, incluindo Bach, Villa-Lobos, Albeniz, Tárrega e Barrios dentre outros. Só desta forma podemos entender tão espantosa evolução técnica e interpretativa ao violão, apresentada desde sua estréia nos palcos e discos norteamericanos.
A falta de reconhecimento em seu próprio país foi uma mágoa que Laurindo sempre carregou. Mesmo nesta primeira visita, sete anos após deixar o Brasil, ele esperava ser convidado para dar um concerto “No Rio ou em São Paulo. Trouxe até meu violão especial. Desta feita (em 1960) achei que seria inútil trazer o instrumento, se bem que gostaria de tocar aqui”, como disse ao jornal O Globo. Era mais que justa esta expectativa, já que ele era considerado pela crítica norte-americana como um dos melhores guitarristas de jazz, muito bem conceituado também como músico erudito. Laurindo morreu sem obter o reconhecimento que esperava e merecia em seu próprio país!

sábado, 13 de dezembro de 2008

Ainda sobre Satyro Bilhar...


Ainda sobre Satyro...

Aquí vai a dedicatória de Ernesto Nazareth na música Tenebroso, e também um vídeo com o Trio Carioca, formado por Maurício Carrilho, Paulo Aragão e Pedro Paes interpretanto o Tira Poeira, de Satyro Bilhar.
http://www.youtube.com/watch?v=9H0-Fap0Ml4

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Músicas de Agustin Barrios










A MÚSICA DE AGUSTIN BARRIOS, POR JORGE MELLO.










A música de Barrios nos transporta para um outra dimensão...um lugar de paz e comunhão que existe em cada um de nós. Existe algo de sublime na torrente de sons criados por este extraordinário compositor e violonista paraguaio chamado Agustin Barrios( 1885/1944).
Sobre o reconhecimento de sua obra a nivel internacional disse o violonista Fábio Zanon em seu programa radiofônico A Arte do Violão: Barrios não fez escola. Segovia certamente aprendeu algo ao encontrar-se com Barrios, mas cuidadosamente evitou falar do colega e rival, ativamente impediu sua carreira na Europa e dizia que Barrios era "um compositor fraco". Sua música nunca deixou de ser tocada na América Latina. Na Europa e EUA, entretanto, Barrios era somente um nome obscuro para especialistas, até que o violonista australiano John Williams gravou, em 1978, um LP totalmente dedicado a Barrios, um estrondoso sucesso.
Este mesmo John Willians declarou: "... as a guitarist/composer, Barrios is the best of the lot, regardless of ear. His music is better formed, it's more poetic, it's more everything! And it's more of all those things in a timeless way. So I think he's a more significant composer than Sor or Guiliani, and more significant composer --- for the guitar --- than Villa-Lobos."
-- John Williams, 1993 . (Extraido de Richard Stover, "Agustín Barrios Mangoré, His Life and Music Par IV: Discussion and Analysis," Guitar Review, No. 101 (Spring 1995): 24).



Agustin Barrios esteve no Brasil por três vezes, em 1916,1919 e em 1928, tendo pelo choro uma profunda admiração,revelada na sua composição"Choro da Saudade",composta após ouvir João Pernambuco tocar suas próprias músicas. Certamente seu "Maxixe" foi inspirado e composto também no Rio de Janeiro.Por volta dos anos vinte o point dos bambas do choro era na casa "O Cavaquinho de Ouro",onde foi tirada a célebre foto com Quincas Laranjeiras e João Pernambuco ladeando Barrios, este sentado empunhando seu violão.Fantástico instrumentista e melhor ainda como compositor, ele influenciou toda uma geração de então jovens violonistas como José Augusto de Freitas; Gustavo Ribeiro e Othon Salleiro. O ano de 1929 foi de ouro para o violão brasileiro:Espaço na imprensa,concertos concorridos e até uma revista especializada,"O Violão".A vinda de concertistas estrangeiros como Barrios e Josefina Robledo(1917),discípula de Tárrega,certamente contribuiu para isto.Antes,em 1916,não era assim... Mas é assunto para depois.
Assistam agora a apresentação de seis músicas deste genial compositor e violonista que foi Agustin Barrios!!!





Las Abejas, interpretada por Enno Voorhorst






La Catedral, interpretada por DaoDucLam.






O Grande Trêmolo(Una lismona pelo amor de Dios), interpretado por Loana Gandrabur






Maxixe, interpretado por Cem Gunenc






Choro da saudade, interpretado por John Williams