




Trio Surdina: Desvendando o Mistério.
Por Jorge Mello.
1) Programa Música em Surdina.
No início dos anos 50 a Rádio Nacional investia na criação de novos programas, com o intuito de se manter acima das concorrentes. Grande era a expectativa em torno da divulgação dos novos horários da emissora, com a estréia de vários programas tais como (1): Edifício Balança mas não cai, Dedos Mágicos, Solistas da Rádio Nacional, Dedos Mágicos e Música em Surdina.
Após atuar com grande êxito na Rádio Record, S. Paulo, entre 1949 e 1950, Garoto retornou ao Rio de Janeiro, apresentando-se nas boates Excelsior e Flair, nesta com Fafá Lemos. De 15 de janeiro até 30 de março de 1951 fez temporada na boate do Hotel Glória, em Caxambu, Minas Gerais. Ao retornar ao Rio, Garoto iniciou negociações com a Rádio Nacional, ocorrendo sua reestréia naquela emissora em 03 de abril de 1951 no programa Musical Super Flit, com orquestra e direção musical a cargo de Radamés Gnattali, onde solou a composição Meu Cavaquinho, de sua autoria. Alguns jornais noticiaram sua volta à Nacional, informando que ele já estava atuando com sucesso em várias audições na PRE-8 (2), (3).
Ao escolher Música em Surdina como título do programa que iria dirigir e apresentar, Paulo Tapajós imaginou os instrumentos tocados como se estivessem em surdina. Em termos técnicos (4), a surdina é um dispositivo mecânico usado para abafar o som dos instrumentos. Deste modo a expressão em surdina sugere algo tocado com volume reduzido, criando assim um ambiente mais intimista. Os músicos convidados deveriam então se adequar a este conceito. Ao ser convidado para se apresentar neste programa Garoto chamou o violinista Fafá Lemos (Rafael Lemos Jr), com quem vinha atuando, e o acordeonista Chiquinho (Romeu Seibel) para formar um trio. A estréia desse trio em Música em Surdina ocorreu em 20 de abril de 1951 e eles por lá se apresentaram até o final daquele mês. No dia 4 de junho Garoto reapareceu sozinho naquele programa solando ao violão as músicas Gracioso e Inspiração, ambas de sua autoria, e na semana seguinte apresentou em solo de violão outras duas composições suas: Duas Contas e Gente Humilde. Continuou se apresentando naquele programa até o final de julho sem fazer menção alguma a Fafá Lemos e Chiquinho do Acordeom. O trio reapareceu somente nos dias 6 e 20 de agosto, última apresentação do programa! Apesar de sua efêmera existência, o programa Música em Surdina projetou o talento artístico daquele trio com formação inusitada (Violino, acordeom e violão) para o cenário musical brasileiro. Ainda na Nacional eles se apresentaram três vezes no programa Carrossel Musical: em 31 de julho, 21 de agosto e 25 de setembro. No Show Lentheric eles fizeram duas apresentações na 1ª quinzena de outubro. Entretanto, naquele ano de 1951, ainda não se falava no Trio Surdina.
Companheiro de Garoto desde a década de quarenta na Rádio Nacional, onde foi crooner da Orquestra All Stars e também da RádioTupy, Nilo Sérgio, de quem falaremos mais adiante, se tornou parceiro e intérprete do belo samba-canção Você é Tormento (5), gravado na Todamérica em 19 de junho de 1951. Acompanhando a voz de Nilo está o Conjunto Melódico sem informação alguma sobre seus integrantes. Entretanto ao ouvir esta gravação, pude identificar o piano de Radamés Gnattali, o violão elétrico de Garoto, o acordeom do Chiquinho, o violino do Fafá e o contrabaixo do Vidal. É o futuro Trio Surdina reforçado... E que reforço!
É muito interessante a ligação de Garoto com o violino, instrumento que aprendeu a tocar antes mesmo do banjo. Embora tocasse bem o violino, raras foram as ocasiões em que se apresentou com ele em público. Compôs para este instrumento a música (inédita) Meu Violino, dedicada a Romeu Ghipsman e Cigano no Baião, esta gravada por Fafá Lemos (com o autor a acompanhá-lo ao violão), em 30 de maio de 1951, pela RCA Victor. O título dessa música, assim como a própria melodia, faz uma alusão a dupla Stephane Grappeli (violino) e Django Reinhardt (violão), de quem Garoto era grande admirador. O músico e pesquisador Henrique Cazes (6) aponta a influência do cigano Django nos fraseados usados por Garoto na guitarra e no violão. Como muito bem observou o pesquisador Thiago Mello (7), o conjunto Cordas Quentes (8) liderado por Garoto e que atuava na Rádio Mayrink Veiga em 1938/39 pode ser considerado um embrião do Trio Surdina, pois aquele era formado por ele(violão-tenor), Laurindo Almeida (violão), Faria (contrabaixo) e Mesquita (violino).
2) O Nascimento do Trio Surdina.
O Baião Caçula de Mário Gennari Filho foi o primeiro grande sucesso radiofônico do trio formado por Garoto, Chiquinho e Fafá. Foram quinze apresentações de março até o início de julho de 1952 e em cada uma delas o público escolhia através do voto, as três melhores músicas na Parada dos Maiorais, que acontecia durante o famoso Programa César de Alencar. O Baião Caçula defendido pelo trio ficou em segundo lugar com uma diferença de apenas um voto para o primeiro lugar, que ficou com a música Dominó (Louis Ferrari/Jacques Plant, versão de Haroldo Barbosa), interpretada por Jorge Goulart. O terceiro lugar ficou com o fado-canção Coimbra (Raul Ferrão e José Galhardo), defendido por Ester de Abreu. A foto ao lado é um registro deste acontecimento e também a única em que aparecem Garoto, Chiquinho e Fafá, juntos.
Noite de Estrelas, programa idealizado por Max Nunes e Paulo Gracindo e por este apresentado, estreou na Rádio Nacional em 12 de julho (9). O programa ia ao ar aos sábados, mas era gravado sexta-feira à noite, logo após o famoso Balança mas não cai, e aproveitando o público deste, para dar a impressão de ser transmitido ao vivo (10). Nessa noite de estréia a voz inconfundível de Paulo Gracindo anunciou logo após a apresentação do humorista Pagano Sobrinho, Os Três Mosqueteiros da Bossa, a saber: Garoto, Chiquinho e Fafá Lemos, que tocaram Morena Boca de Ouro, de Ary Barroso e o sucesso Baião Caçula. Logo em seguida devido às férias de Garoto na emissora, de 15 de julho até cinco de agosto, as apresentações dos mosqueteiros foram interrompidas. Mas o show não pode parar e no segundo programa, em 19 de julho, Paulo Graxento anunciou o Trio em Surdina, formado por Chiquinho, Fafá Lemos e... Bola Sete! Com esta formação eles se apresentaram por mais duas vezes nesse programa. Em 22 de agosto Garoto, Chiquinho e Fafá Lemos voltaram a ser anunciados como Os Três Mosqueteiros da Bossa, interpretando Tem Breeze and I(Ernesto Lecuona/Stilman), sendo essa a última participação deles no programa Noite de Estrelas em 1952.
Czardas de Vittorio Monti é uma música ligeira, muitas vezes usada por seus intérpretes para demonstrações de virtuosismo. Garoto, Chiquinho e Fafá Lemos apresentaram essa música no dia 6 de novembro de 1952 no programa mais importante da Rádio Nacional, Um Milhão de Melodias. A atuação deles foi tão empolgante que Garoto assim a registrou em seu diário: Foi uma apresentação espetacular. Dois dias depois eles ganharam um programa exclusivo naquela emissora onde se apresentaram como Trio em Surdina. Voltaram a se apresentar em programa exclusivo a partir de 3 de dezembro de 1952, já como Trio Surdina. Eles fizeram oito programas seguidos naquele mês e gravaram o último em 2 de janeiro de 1953. Dois dias depois Garoto e Chiquinho foram ao Aeroporto do Galeão para se despedirem de Fafá Lemos, que embarcou para os Estados Unidos.
Posso afirmar com base nas anotações feitas por Garoto em seu diário, que todas as gravações feitas pelo Trio Surdina formado por ele, Chiquinho e Fafá Lemos, aconteceram nos dias 5, 12, 16 e 30 de dezembro de 1952 e no dia 3 de janeiro de 1953, e foram destinadas à “Musidisc”. As aspas realçam o fato de que a Musidisc foi inaugurada formalmente em março de 1953, dois meses, portanto após o embarque de Fafá Lemos para o exterior, este com o firme propósito de construir carreira artística por lá(11). Além disso, os discos gerados por aquelas gravações foram lançados a partir de maio de 1953! Podemos concluir que a Musidisc não estava estruturada quando as gravações do Trio Surdina foram realizadas. Para reforçar esta afirmação, o contrato firmado por Garoto, Chiquinho e Fafá Lemos com o Sr. Nilo Pinto, então diretor da Sociedade Comercial de Vendas e Crédito Ltda. não deixa margens a dúvidas. A Musidisc ainda não existia formalmente quando foi feito o contrato entre o Trio Surdina e Nilo Sérgio, nome artístico de Nilo Santos Pinto.Tal contrato assim começa:
CONTRATO DE LOCAÇÃO DE SERVIÇOS ARTÍSTICOS
Que fazem, de um lado, como locadores, ROMEU SEIBEL, ANIBAL SARDINHA E RAPHAEL LEMOS JUNIOR, artisticamente conhecidos, respectivamente, por CHIQUINHO, GAROTO e FAFÁ, que tomam pelo presente a denominação de TRIO SURDINA, brasileiros, residentes nesta Capital, e de outro, como locatária, a SOCIEDADE COMERCIAL DE VENDAS E CRÉDITO LTDA, com sede nesta cidade à Av. Rio Branco, 151,11º andar, sala 1113, neste ato representada por seu diretor NILO PINTO... Vários aspectos devem ser considerados aqui para que não se passe a idéia errônea de que Nilo Sérgio agiu como um vilão nesse episódio. Com uma visão empresarial admirável ele percebeu que estava diante de algo totalmente diferente em termos de sonoridade aliada a uma indiscutível qualidade técnica de seus integrantes que estava a serviço da música. Percebendo que Fafá Lemos se ausentaria por um longo período, tratou de antecipar a contratação do trio para um lançamento futuro, já com a Musidisc consolidada. Nilo Sérgio apostou suas fichas no Trio Surdina, na certeza de que o sucesso obtido pelo trio traria muito prestígio à sua marca. Porém a tacada mais genial dele foi promover a mudança do nome Trio em Surdina para Trio Surdina! Parece uma bobagem, mas contém uma mudança significativa de conceito. Como já foi dito, Trio em Surdina sugere um clima intimista, com músicas executadas suavemente. Já Trio Surdina sugere que, além do aspecto intimista, algo não muito lícito pudesse ser feito como, por exemplo, a omissão dos nomes dos integrantes do trio na ficha técnica do disco, já que eles pertenciam a gravadoras diferentes, não podendo se apresentar juntos num mesmo disco. De fato, nesta época Chiquinho tinha contrato com a Todamérica, Fafá Lemos com a RCA Victor e Garoto com a Odeon. Além disso, a marca Trio Surdina tinha existência própria, independente dos seus integrantes.
Garoto organizou um novo trio, com Zé Menezes no lugar de Fafá Lemos (12). Este trio se apresentou com grande êxito no programa Noite de Estrelas de julho até novembro de 1953, num total de 27 apresentações, algumas memoráveis (13).
3) Os Discos do Trio Surdina(14).
Nilo Sérgio (15) era proprietário de uma lojinha de discos na Rua Senador Dantas 24-A, exercendo também a função de diretor artístico da Musidisc, marca especializada em LPs. Como ele previra, os lançamentos dos discos do Trio Surdina a partir de maio de 1953 causaram na crítica especializada um misto de surpresa e espanto com as novidades introduzidas por estes três fantásticos instrumentistas.
Trio Surdina-M007 foi o primeiro disco (LP 10 pol.) do trio a ser lançado. No lado A, as seguintes músicas: Tenderly (Gross e Lawrence), O Relógio da Vovó (Garoto, Chiquinho e Fafá), Duas Contas (Garoto) e Felicidade (Garoto e Haroldo Barbosa). No lado B: Ninguém me Ama (Antonio Maria e Fernando Lobo), Na Madrugada (Nilo Sérgio), Nós Três (Garoto, Chiquinho e Fafá) e Malaguenã (E. Ramirez e P. Galindo).
Um desses críticos não conteve o entusiasmo ao afirmar que (16): Os solistas de acordeom, violão e violino oferecem maravilhosos instantes de deleite espiritual. Suas criações atingem nível técnico excepcional. Trata-se, pois de lançamento que orgulha a indústria do disco brasileiro na atualidade.
Outro crítico (17) assim escreveu: É realmente difícil de encontrar dentre os nossos instrumentistas, três artistas que se entrosem tão bem, que sintam com tal igualdade emocional as músicas que executam. “É uma sincronização perfeita de sons e de ritmos”
Ainda hoje este é um disco impactante em função de vários aspectos, como a formação inusitada, produzindo uma sonoridade ímpar, a concepção dos arranjos em que ocorre o revezamento desses três solistas maravilhosos, a escolha do repertório com destaque para Duas Contas, uma das poucas canções de Garoto com música e letra de sua autoria. Com harmonia sofisticada e letra sem rimas (versos brancos), esta música, a única cantada do disco, ficou com um sabor de modernidade ainda mais acentuado pela voz de Fafá Lemos. Felicidade e Relógio da Vovó, ambas também de Garoto, merecem destaque. Repare na 2ª parte desta última... Não há dúvidas de que essa parte da melodia serviu de embrião para Desafinado, a genial composição de Tom Jobim e Newton Mendonça.
Ary Barroso-M008, LP dedicado ao mestre de Ubá, MG, traz no lado A o Trio Surdina interpretando Rio de Janeiro, Inquietação, Na Baixa do Sapateiro e Risque. No lado B Léo Peracchi e Sua Orquestra interpretam Aquarela do Brasil, Por Causa dessa Cabocla, Brasil Moreno e No Tabuleiro da Baiana.
A voz e o assobio afinado de Fafá Lemos aparecem em Risque e Inquietação, com destaque para o violão de Garoto. As demais músicas são maravilhosamente apresentadas em versão instrumental. Provavelmente por ter lançamento quase simultâneo ao anterior, este disco passou sem ser percebido pela crítica (18).
Encontramos uma participação avulsa do Trio Surdina no LP Show-M 009, lançado pela Musidisc. O trio interpreta Joãozinho Boa Pinta, música de Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques, com vocal de Fafá Lemos.
Trio Surdina Interpreta Noel Rosa e Dorival Caymmi-M 014.
Este é, em minha opinião, o melhor disco do Trio Surdina. A ótima escolha do repertório realça ainda mais o trabalho aqui apresentado. Como já disse, esse trio é formado por três solistas que se revezam apoiados por um acompanhamento fora do convencional, recheado de fraseados que se harmonizam perfeitamente. O lado A, com músicas de Dorival Caymmi, traz a voz, o violino e o assobio de Fafá Lemos nas músicas Nem Eu e Não Tem Solução. Em versão instrumental são apresentadas as músicas O Mar e O que é que a Baiana Tem?
No lado B as seguintes músicas de Noel Rosa são cantadas por Fafá Lemos: Fita Amarela, Três Apitos, Conversa de Botequim e Com que Roupa?
O crítico musical Claribalde Passos (19) assim disse: Apreciamos o LP Musidisc M-014 intitulado Trio Surdina interpreta Noel Rosa e Dorival Caymmi, lançamento nacional de agosto findo. Esmerados arranjos, a par de primorosas execuções. Aliás, o Trio Surdina vem se firmando, vitoriosamente, no campo fonográfico a cada novo lançamento... Cotação: excelente.
O êxito desses três lançamentos pode ser medido pelas conquistas obtidas pelo Trio Surdina. Ele foi considerado o melhor trio instrumental em duas enquetes, pela revista Carioca (20) e pela Noite Ilustrada (21)!
Trio Surdina-M 017.
Este disco segue o padrão do primeiro em relação ao ecletismo do repertório sem produzir, contudo, o mesmo impacto. No lado A o trio apresenta as seguintes músicas: Ay, Ay, Ay (canção-O. Perez Freire), Vingança (samba-canção de Lupicínio Rodrigues), Amoroso (choro de Garoto e Luis Bittencourt) (22) e Verlaine (Fox de Charles Trenet). No lado B, as seguintes músicas: Canto Karabali (Ernesto Lecuona), Meu Coração (baião de Garoto), Cow Cow Boogie (Benny Carter, Gene de Paul e Don Raye) e Xodó (Jair Amorim e José Maria de Abreu).
O choro Amoroso é apresentado pelo autor em solo de violão-tenor, instrumento hoje em dia muito raro, e que possui a seguinte afinação (partindo da nota mais grave): dó, sol, ré e lá. Esta faixa, se por um lado foge inteiramente da concepção dos arranjos apresentados pelo Trio Surdina, por outro nos presenteia com uma interpretação magistral de Garoto, o maior expoente desse instrumento.
Os críticos mostraram-se divididos em relação a este lançamento. Jayme Negreiros (23) assim começa sua apreciação: TRIO SURDINA: Mais um LP elaborado, com Fafá Lemos (violinista que se encontra nos EEUU), Chiquinho (acordeom) e Garoto (violão). Um disco muito gostoso para se ouvir e dançar e que se pode programar sem sustos!
Sylvio Túlio Cardoso (24) por outro lado, diz que: Quarto volume do Trio Surdina. De todos, este é o mais fraco, artística e tecnicamente. O articulista faz ao final de sua apreciação um comentário bem interessante: Em Amoroso ouvimos o grande violonista em sua melhor expressão, projetando em seu solo, apurado gosto artístico e profunda sensibilidade. Seu estilo revela vários pontos de contato com Laurindo Almeida (25). A exemplo dos vários LP gravados por este nos Estados Unidos, sugeriríamos à Musidisc que fizesse também um microssulco com Garoto sozinho ao violão, no qual ele pudesse exibir, com a necessária liberdade, suas extensas possibilidades artísticas.
Quando se deu o lançamento desses discos Fafá Lemos estava iniciando sua carreira artística nos Estados Unidos enquanto que Garoto, Chiquinho e Zé Menezes organizaram um trio que apresentava exclusivamente na Rádio Nacional, no programa Noite de Estrelas, produzido e apresentado por Paulo Gracindo. Apesar de seu elevado nível técnico este trio não gravou nenhum disco, e continuou sem nome (26). Num desses programas está registrado um delicioso diálogo entre Gracindo e Garoto, tendo como foco a nova fase da carreira de Fafá Lemos.
4) O Breve Retorno do Trio Surdina.
Já em fevereiro de 1954 a imprensa noticiava as férias de Fafá Lemos ao Brasil (27): Ele virá a fim de passar algum tempo com sua família e gravar alguns discos na Victor e na Musidisc, onde juntamente com Chiquinho e Garoto forma o Trio Surdina que tão boas gravações nos têm dado. Seu regresso, entretanto, não foi imediato e no dia 13 de junho Garoto e sua esposa Cecy aguardavam Fafá Lemos no Aeroporto Internacional do Galeão. Os amigos Demerval da Fonseca Neto (Furinha), Garoto, Radamés Gnattali e Billy Blanco reuniram-se para homenageá-lo no Tijuca Tênis Clube (28). Um cardápio serviu de registro daquela reunião realizada em 16 de junho...
Fafá Lemos esteve presente com Pixinguinha, Radamés Gnattali, Furinha e outros amigos naquele que foi o último aniversário de Garoto, comemorado em 29 de junho na casa da atriz Lia Torá.
No mês seguinte Fafá convidou Garoto para assistir as gravações de dois discos 78 RPM que fez pela RCV Victor. Ao escutarmos as músicas Valsa do Vira Lata, Se Alguém Disser, Meu Panamá e Zigeuner somos levados a crer que Garoto fez muito mais que assistir. Em 08 de agosto Garoto gravou com Fafá a sua valsa Luar de Areal, inspirada numa bela noite de luar passada em seu sítio que ficava naquela localidade. É muito provável que ele tenha participado da outra faixa do disco, o choro Tempo Antigo, de Pedro Camargo. Em 20 de agosto mais duas gravações de Fafá, desta vez sem Garoto, que estava em São Paulo: Joãozinho boa pinta e Canarinho feliz.
Chiquinho estava excursionando pela Argentina e Uruguai com Carmélia Alves, que ostentava com mérito o título de Rainha do Baião. Após a temporada nos meses de junho e julho, Chiquinho retornou e iniciou com Fafá e Garoto, as apresentações do Trio Surdina neste breve retorno. A primeira delas ocorreu em 12 de agosto no programa “Noite de Estrelas” e a segunda em 30 de agosto, no programa “Gente que Brilha”. Estava prevista uma homenagem ao Trio Surdina no Clube da Ferradura, em 16 de agosto. Fafá e Garoto esperaram em vão por Chiquinho que não compareceu, ficando assim cancelada a homenagem...
Garoto era detalhista ao extremo, a ponto de registrar em seu diário tudo o que fazia, gravações, festas, bailes, programas radiofônicos, etc. Ao examinar tal diário não encontrei, durante esse período em que Fafá Lemos esteve de férias no Brasil, nenhuma menção às gravações do Trio Surdina na Musidisc ou em qualquer outra gravadora.
Um jantar na casa de José Brant marcou a despedida de Fafá Lemos. Estavam presentes Radamés Gnattali, Furinha, Garoto e Chiquinho. Dois dias depois, em 08 de setembro, ele embarcou para os Estados Unidos (29). Fafá pretendia levar Garoto e Bonfá para os Estados Unidos, mas apenas este último para lá viajou (30). A morte de Garoto em 3 de maio de 1955 representou o fim do Trio Surdina com aquela formação.
5) Outro Trio Surdina.
A marca Trio Surdina apossada por Nilo Sergio reapareceu no mercado fonográfico com os seguintes lançamentos da Série de Luxe da Musidisc:
DL-1003-Boleros Famosos vol. 1. 1955
Lado A:
1-Sinceridad. 2-Contigo.3-Angelitos Negros.4-Canción del Alma.
Lado B: 1-Um Minuto. 2-Solamente uma vez3-Pecadora.4-Usted.
DL-1004-Aquarela do Brasil 1955.
Lado A:
1-Aquarela do Brasil (Ary Barroso). 2-Curare(Bororó).3-Tico Tico no Fubá(Zequinha de Abreu).4- Guacyra(Joracy Camargo e Heckel Tavares).
Lado B:
1-Meu Limão, Meu Limoeiro (Motivo popular). 2-Rio(Ary Barroso)3-Favela (Joracy Camargo e Heckel Tavares).4-Terra Seca(Ary Barroso)
Dl-1005-Boleros Famosos vol. 2 1955.
Lado A:
1-Sin Tí (P. Guizar). 2-Oracion (A.Lara).3-Babalú (Lecuona).4-Para que Sufras(Felipe Valdez Leal)
Lado B: 1-Amor Secreto (Gustavo Prado). 2-Contigo en la Distancia( C. Portillo de La Luz).3-Verdad Amarga(C. Velasquez).4-Uma Aventura más(O. Kinleiney)
DL-1006- Ouvindo Trio Surdina vol. 1 1955.
O repertório é todo de motivos folclóricos. No lado A temos:
1-Prenda Minha. 2-Peixe Vivo.3-Casinha pequenina.4-Mulher Rendeira
Lado B:
1-Casinha da Colina. 2-Côco Dendê.3-Côco Peneruê.4- Cantigas de Roda.
DL-1007-Ary Barroso, Dorival Caymmi e Noel Rosa 1956.
Lado A:
1-João Valentão (Dorival Caymmi). 2-Quando eu Penso na Bahia(Ary Barroso).3-Feitio de Oração(Vadico e Noel Rosa).4-Dora(Dorival Caymmi)
Lado B:
1-Vai Haver barulho no Chateau (Walfrido Silva e Noel Rosa). 2-Três Lágrimas(Ary Barroso).3-Sábado em Copacabana(Dorival Caymmi e Carlos Guinle).4-Boneca de Pixe(Ary Barroso e Luiz Iglesias).
DL-1009-Ouvindo Trio Surdina vol. 2 1956.
Lado A:
1-Jalousie (J. Gade). 2-Comigo é Assim(Zé Menezes e Luis Bittencourt).3-Charmaine(Pollsck e E. Rappe).4-Linda Flor(Henrique Vogeler)
Lado B:
1-Maria Lá Ô (Lecuona). 2-Iracema na Escócia(Pernambuco).3-Moonlight Serenade(M. Parish e G. Miller).4-Você não Gosta(Al Quincas).
DL-1017-Ouvindo Trio Surdina vol. 3 1956.
Lado A:
1-Matinata(Leoncavallo). 2-Sal e Pimenta(Nazareno de Brito e Newton Rodrigues).3-Over the Raimbow(H. Arlen e E.Y.Harburg).4-Molambo(Jayme Florence e Augusto Mesquita)
Lado B:
1-Ojos Verdes (Utrera e Nilo Menendez). 2-J’Attendrai(Oliviero).3-Serenata(Toseli).4-Porquê Brilham os Teus Olhos(Fernando César).
Neste último disco aparece o nome dos integrantes: Al Quincas (violino), Nestor Campos (violão) e El Gaucho (acordeom). Estes gravaram individualmente os seguintes LP na Musidisc.
DL-1011-Ao Compasso do Baião-El Gaucho.
DL-1013-Cocktail para Dois-Al Quincas.
DL-1014-Música da Noite vol1- Nestor Campos.
Nilo Sergio Filho cedeu-me gentilmente uma cópia do contrato formado por estes três músicos com a Musidisc, que assim começa:
CONTRATODE LOCAÇÃO DE SERVIÇOS E CESSÃO DE DIREITOS AUTORAIS DE INTÉRPTRETE
Que entre si fazem, como locadores, AURO P. THOMAZ (GAUCHO) acordeonista, JOAQUIM GONÇALVES OLIVEIRA FILHO (AL QUINCAS) violinista e NESTOR CAMPOS, violonista, que formam um conjunto artisticamente conhecido por Tria Surdina, brasileiros, residentes e domiciliados nesta Capital, e de outro, como locatária, a firma GRAVAÇÔES MUSIDISC LTDA, com sede nesta Capital, à Rua Buenos Aires, 68-3º andar, neste ato representado por seu Diretor NILO SANTOS FILHO...
A qualidade técnica deste outro Trio Surdina é indiscutível (31), porém os arranjos perdem muito em originalidade, se comparados com aqueles elaborados por Garoto, Chiquinho e Fafá Lemos, assim como seu caráter inovador. Seus integrantes tiveram carreiras individuais bem sucedidas. Nestor Campos foi um grande guitarrista/violonista e a ele dediquei três artigos, dois já publicados e um por publicar (32). Al Quincas obteve grande projeção na década de cinqüenta, não como violinista, mas sim como saxofonista (tenor). No seu LP lançado pela Musidisc ele toca sax-tenor...Devo confessar que sua história me desperta muito interesse. El Gaucho teve uma atuação mais discreta como músico.
Canções de Natal com Trio Surdina e Nilo Sérgio, lançamento Musidisc M-042 em 1956 conta provavelmente com esta formação. Neste disco encontramos no lado A:
1-Jingle Bells (tradicional). 2-Adeste Fidelis(tradicional).3-White Christmas(Berlin).4-Natal na Minha Terra(Homero Guelmini).
Lado B:
1-Silent Night (F. Gruber). 2-O Tannenbaum(tradicional).3-Papai Noel(Alberto Ribeiro).4-Natal(Nilo Sérgio).
Estes lançamentos ocorreram entre 1955 e 1956, com a Musidisc promovendo em diversas ocasiões relançamentos de todos os discos da marca Trio Surdina. Somente em 1958 foi feito um novo lançamento:
BOLEROS EM HI-FI-TRIO SURDINA COM PIERRE KOLMANN AO PIANO (1958).
1-Frenesi (A.Dominguez). 2-Esperame em el Cielo(F.Lopez).3-Soñando Contigo(Anísio Silva e Fausto Guimarães).4-Besame Mucho(Consuelo Velasquez).5-Hasta Quando(João Leal Brito”Britinho”).6-Que Murmurem(R. Fuentes e R. Carde).7-Mi Oración(Boulanger e Kennedy).8-Amor Mio(Álvaro Carrillo).9-Angustia(Orlando Brito). 10-Dos Almas (Don Fabiano). 11-Canción Del Amor Cubano (H. Stothard, J. McHugh e D. Fields). 12-Desesperadamente(G. Ruiz e L. Mendez).
De acordo com o interessante ensaio de Mauro Caldas, O Jogo dos Pseudônimos (33), onde o autor destaca a importância de Nilo Sérgio nessa questão, Pierre Kaufmann é na verdade João Leal Brito, ou Britinho, como é mais conhecido este pianista que tantas páginas belas nos deixou! Esta relação será mais impressionante ainda se João Leal Brito e Rubens Leal Brito forem a mesma pessoa (34)! Se em relação ao pianista o mistério é grande, ele se torna ainda maior em relação aos integrantes desse Trio Surdina! Nada sabemos ainda a esse respeito...
Já com a Bossa Nova consagrada, a Musidisc lança o LP
TRIO SURDINA EM BOSSA NOVA-1963.
1- Corcovado (Tom Jobim). 2-História(Nilo Sérgio).3-Depois do Carnaval(Silvino Junior e Wilson Tirapelli).4-Chega de Sofrer(Luis Paulo e Orlann Divo).5-Preciso dar um Jeito (Silvio César). 6-Lindos Olhos Azuis (Waltel Branco e Ivo Branco). 7-Que Saudade(Ed Lincon).8-Deixa a Nega Gingar(Luis Claudio).9-Samba em Prelúdio(Baden Powell e Vinicius de Moraes).10-Menino, desce daí(Paulinho Nogueira).11-Dê mais Amor(Waltel Branco e Joluz).12- O Amor em Paz(Tom Jobim e Vinicius de Moraes).
Encontrei no site Loronix (35) referência aos integrantes desse derradeiro Trio Surdina:
Waltel Branco (violão), Chiquinho (Acordeom) e Patané (violino). A partir daí nenhum outro lançamento com a marca Trio Surdina foi feito, muito embora o termo em surdina tenha sobrevivido por um bom tempo.
Este artigo, embora extenso, está longe de ser completo. Busquei, dentro das minhas limitações, realçar a importância deste legendário trio, especialmente em sua primeira formação, para a moderna música brasileira dos anos 50, que teve na Bossa Nova a sua expressão máxima. Procurei desfazer o mistério que havia nas formações do Trio Surdina, em função da ambigüidade intrínseca a este título.
REFERÊNCIAS:
(1)Os Novos Horários da Rádio Nacional-A Noite-2/03/1951.
(2)Garoto voltou à Rádio Nacional-por Nestor de Holanda-A Noite-6/04/1951.
(3)Notícias da Rádio Nacional-A Noite-12/04/1951.
(4)Dicionário Groove de Música, pg 918.
Jorge Zahar Ed.1994.
(5)Você é Tormento- Jorge Mello em Cancioneiro de Garoto,sovacodecobra.uol.com.br
(6)Choro:Do Quintal ao Municipal-Henrique Cazes-Ed.34,1ª edição-1998.
(7)Ouvindo Trio Surdina vol.2-Thiago Mello-http://bossa-brasileira.blogspot.com
(8)Brazilliance vol.1:Uma experiência inovadora. Ensaio de Jorge Mello em http://musicosdobrasil.com.br
(9)Notícias da Rádio nacional- recorte encontrado no álbum do Garoto.
(10)Rádio e Televisão informando-Diário da Noite-11/07/1952.
(11)Viajará Fafá Lemos- A Noite-3/01/1953.
(12)Trio sem Nome-por Jorge Mello, em séries(partes1e2),sovacodecobra.uol.com.br.
(13)idem, parte 4.
(14)Discografia Trio Surdina em www.memoriamusical.com.br
(15) Nilo Sérgio- O Globo nos discos populares-Sylvio Túlio de Cardoso-O Globo,
12/03/1953.
(16)Disc Jockey Carioca-Claribalde Passos-Carioca, nº 917,2/05/1953.
(17)Ronda dos Discos-Paulo Medeiros-Última Hora,24/06/1953.
(18)Disc Jockey Carioca-Claribalde Passos-Carioca, nº918,9/05/1953.
(19)Julgamento da semana-Discoteca-Claribalde Passos-Carioca, nº 939, 3/10/1953.
(20)Os Melhores de 1953-Discoteca-Claribalde Passos-Carioca,951-26/12/1953.
(21)Os Melhores de 1953- A Noite Ilustrada-Janeiro de 1954.
(22)Cancioneiro do Garoto:Amoroso-por Jorge Mello em séries, sovacodecobra.uol.com.br.
(23)Trio Surdina-Discos-Jayme Negreiros-O Jornal-3/04/1954.
(24)O Globo nos discos populares-Sylvio Túlio Cardoso-recorte encontrado no álbum do Garoto.
(25)Brazilliance, op.citt.
(26)Trio sem nome-por Jorge Mello em séries,sovadodecobra.uol.com.br.
(27)Ronda dos Discos-Paulo Medeiros-Última Hora-17/02/1954.
(28)Homenagem à Fafá-Ronda da meia Noite-última Hora,16/06/1954.
(29)Fafá Regressa-Ronda dos Discos-Paulo Medeiros-Última Hora,2/09/1954.
(30)Bonfá vai-Discos-Jayme Negreiros-O Jornal-, 24/10/1954.
(31)Ouvindo Trio Surdina vol.2-Thiago Mello em bossa-brasileira.blogspot.com
(32)O Extraordinário Guitarrista Nestor Campos(partes 1 e 2, por Jorge Mello em sovacodecobra.uol.com.br
(33)O Jogo dos Pseudônimos-Mauro Caldas em musicosdobrasil.com.br
(34)www.brasileirinho.mus.br em 30/05/2005
(35)Trio Surdina em Bossa Nova-loronix.blogspot.com







