sexta-feira, 10 de abril de 2009

DESVENDANDO O MISTÉRIO: TRIO SURDINA







Trio Surdina: Desvendando o Mistério.
Por Jorge Mello.
1) Programa Música em Surdina.
No início dos anos 50 a Rádio Nacional investia na criação de novos programas, com o intuito de se manter acima das concorrentes. Grande era a expectativa em torno da divulgação dos novos horários da emissora, com a estréia de vários programas tais como (1): Edifício Balança mas não cai, Dedos Mágicos, Solistas da Rádio Nacional, Dedos Mágicos e Música em Surdina.
Após atuar com grande êxito na Rádio Record, S. Paulo, entre 1949 e 1950, Garoto retornou ao Rio de Janeiro, apresentando-se nas boates Excelsior e Flair, nesta com Fafá Lemos. De 15 de janeiro até 30 de março de 1951 fez temporada na boate do Hotel Glória, em Caxambu, Minas Gerais. Ao retornar ao Rio, Garoto iniciou negociações com a Rádio Nacional, ocorrendo sua reestréia naquela emissora em 03 de abril de 1951 no programa Musical Super Flit, com orquestra e direção musical a cargo de Radamés Gnattali, onde solou a composição Meu Cavaquinho, de sua autoria. Alguns jornais noticiaram sua volta à Nacional, informando que ele já estava atuando com sucesso em várias audições na PRE-8 (2), (3).
Ao escolher Música em Surdina como título do programa que iria dirigir e apresentar, Paulo Tapajós imaginou os instrumentos tocados como se estivessem em surdina. Em termos técnicos (4), a surdina é um dispositivo mecânico usado para abafar o som dos instrumentos. Deste modo a expressão em surdina sugere algo tocado com volume reduzido, criando assim um ambiente mais intimista. Os músicos convidados deveriam então se adequar a este conceito. Ao ser convidado para se apresentar neste programa Garoto chamou o violinista Fafá Lemos (Rafael Lemos Jr), com quem vinha atuando, e o acordeonista Chiquinho (Romeu Seibel) para formar um trio. A estréia desse trio em Música em Surdina ocorreu em 20 de abril de 1951 e eles por lá se apresentaram até o final daquele mês. No dia 4 de junho Garoto reapareceu sozinho naquele programa solando ao violão as músicas Gracioso e Inspiração, ambas de sua autoria, e na semana seguinte apresentou em solo de violão outras duas composições suas: Duas Contas e Gente Humilde. Continuou se apresentando naquele programa até o final de julho sem fazer menção alguma a Fafá Lemos e Chiquinho do Acordeom. O trio reapareceu somente nos dias 6 e 20 de agosto, última apresentação do programa! Apesar de sua efêmera existência, o programa Música em Surdina projetou o talento artístico daquele trio com formação inusitada (Violino, acordeom e violão) para o cenário musical brasileiro. Ainda na Nacional eles se apresentaram três vezes no programa Carrossel Musical: em 31 de julho, 21 de agosto e 25 de setembro. No Show Lentheric eles fizeram duas apresentações na 1ª quinzena de outubro. Entretanto, naquele ano de 1951, ainda não se falava no Trio Surdina.
Companheiro de Garoto desde a década de quarenta na Rádio Nacional, onde foi crooner da Orquestra All Stars e também da RádioTupy, Nilo Sérgio, de quem falaremos mais adiante, se tornou parceiro e intérprete do belo samba-canção Você é Tormento (5), gravado na Todamérica em 19 de junho de 1951. Acompanhando a voz de Nilo está o Conjunto Melódico sem informação alguma sobre seus integrantes. Entretanto ao ouvir esta gravação, pude identificar o piano de Radamés Gnattali, o violão elétrico de Garoto, o acordeom do Chiquinho, o violino do Fafá e o contrabaixo do Vidal. É o futuro Trio Surdina reforçado... E que reforço!
É muito interessante a ligação de Garoto com o violino, instrumento que aprendeu a tocar antes mesmo do banjo. Embora tocasse bem o violino, raras foram as ocasiões em que se apresentou com ele em público. Compôs para este instrumento a música (inédita) Meu Violino, dedicada a Romeu Ghipsman e Cigano no Baião, esta gravada por Fafá Lemos (com o autor a acompanhá-lo ao violão), em 30 de maio de 1951, pela RCA Victor. O título dessa música, assim como a própria melodia, faz uma alusão a dupla Stephane Grappeli (violino) e Django Reinhardt (violão), de quem Garoto era grande admirador. O músico e pesquisador Henrique Cazes (6) aponta a influência do cigano Django nos fraseados usados por Garoto na guitarra e no violão. Como muito bem observou o pesquisador Thiago Mello (7), o conjunto Cordas Quentes (8) liderado por Garoto e que atuava na Rádio Mayrink Veiga em 1938/39 pode ser considerado um embrião do Trio Surdina, pois aquele era formado por ele(violão-tenor), Laurindo Almeida (violão), Faria (contrabaixo) e Mesquita (violino).

2) O Nascimento do Trio Surdina.
O Baião Caçula de Mário Gennari Filho foi o primeiro grande sucesso radiofônico do trio formado por Garoto, Chiquinho e Fafá. Foram quinze apresentações de março até o início de julho de 1952 e em cada uma delas o público escolhia através do voto, as três melhores músicas na Parada dos Maiorais, que acontecia durante o famoso Programa César de Alencar. O Baião Caçula defendido pelo trio ficou em segundo lugar com uma diferença de apenas um voto para o primeiro lugar, que ficou com a música Dominó (Louis Ferrari/Jacques Plant, versão de Haroldo Barbosa), interpretada por Jorge Goulart. O terceiro lugar ficou com o fado-canção Coimbra (Raul Ferrão e José Galhardo), defendido por Ester de Abreu. A foto ao lado é um registro deste acontecimento e também a única em que aparecem Garoto, Chiquinho e Fafá, juntos.
Noite de Estrelas, programa idealizado por Max Nunes e Paulo Gracindo e por este apresentado, estreou na Rádio Nacional em 12 de julho (9). O programa ia ao ar aos sábados, mas era gravado sexta-feira à noite, logo após o famoso Balança mas não cai, e aproveitando o público deste, para dar a impressão de ser transmitido ao vivo (10). Nessa noite de estréia a voz inconfundível de Paulo Gracindo anunciou logo após a apresentação do humorista Pagano Sobrinho, Os Três Mosqueteiros da Bossa, a saber: Garoto, Chiquinho e Fafá Lemos, que tocaram Morena Boca de Ouro, de Ary Barroso e o sucesso Baião Caçula. Logo em seguida devido às férias de Garoto na emissora, de 15 de julho até cinco de agosto, as apresentações dos mosqueteiros foram interrompidas. Mas o show não pode parar e no segundo programa, em 19 de julho, Paulo Graxento anunciou o Trio em Surdina, formado por Chiquinho, Fafá Lemos e... Bola Sete! Com esta formação eles se apresentaram por mais duas vezes nesse programa. Em 22 de agosto Garoto, Chiquinho e Fafá Lemos voltaram a ser anunciados como Os Três Mosqueteiros da Bossa, interpretando Tem Breeze and I(Ernesto Lecuona/Stilman), sendo essa a última participação deles no programa Noite de Estrelas em 1952.
Czardas de Vittorio Monti é uma música ligeira, muitas vezes usada por seus intérpretes para demonstrações de virtuosismo. Garoto, Chiquinho e Fafá Lemos apresentaram essa música no dia 6 de novembro de 1952 no programa mais importante da Rádio Nacional, Um Milhão de Melodias. A atuação deles foi tão empolgante que Garoto assim a registrou em seu diário: Foi uma apresentação espetacular. Dois dias depois eles ganharam um programa exclusivo naquela emissora onde se apresentaram como Trio em Surdina. Voltaram a se apresentar em programa exclusivo a partir de 3 de dezembro de 1952, já como Trio Surdina. Eles fizeram oito programas seguidos naquele mês e gravaram o último em 2 de janeiro de 1953. Dois dias depois Garoto e Chiquinho foram ao Aeroporto do Galeão para se despedirem de Fafá Lemos, que embarcou para os Estados Unidos.
Posso afirmar com base nas anotações feitas por Garoto em seu diário, que todas as gravações feitas pelo Trio Surdina formado por ele, Chiquinho e Fafá Lemos, aconteceram nos dias 5, 12, 16 e 30 de dezembro de 1952 e no dia 3 de janeiro de 1953, e foram destinadas à “Musidisc”. As aspas realçam o fato de que a Musidisc foi inaugurada formalmente em março de 1953, dois meses, portanto após o embarque de Fafá Lemos para o exterior, este com o firme propósito de construir carreira artística por lá(11). Além disso, os discos gerados por aquelas gravações foram lançados a partir de maio de 1953! Podemos concluir que a Musidisc não estava estruturada quando as gravações do Trio Surdina foram realizadas. Para reforçar esta afirmação, o contrato firmado por Garoto, Chiquinho e Fafá Lemos com o Sr. Nilo Pinto, então diretor da Sociedade Comercial de Vendas e Crédito Ltda. não deixa margens a dúvidas. A Musidisc ainda não existia formalmente quando foi feito o contrato entre o Trio Surdina e Nilo Sérgio, nome artístico de Nilo Santos Pinto.Tal contrato assim começa:
CONTRATO DE LOCAÇÃO DE SERVIÇOS ARTÍSTICOS
Que fazem, de um lado, como locadores, ROMEU SEIBEL, ANIBAL SARDINHA E RAPHAEL LEMOS JUNIOR, artisticamente conhecidos, respectivamente, por CHIQUINHO, GAROTO e FAFÁ, que tomam pelo presente a denominação de TRIO SURDINA, brasileiros, residentes nesta Capital, e de outro, como locatária, a SOCIEDADE COMERCIAL DE VENDAS E CRÉDITO LTDA, com sede nesta cidade à Av. Rio Branco, 151,11º andar, sala 1113, neste ato representada por seu diretor NILO PINTO... Vários aspectos devem ser considerados aqui para que não se passe a idéia errônea de que Nilo Sérgio agiu como um vilão nesse episódio. Com uma visão empresarial admirável ele percebeu que estava diante de algo totalmente diferente em termos de sonoridade aliada a uma indiscutível qualidade técnica de seus integrantes que estava a serviço da música. Percebendo que Fafá Lemos se ausentaria por um longo período, tratou de antecipar a contratação do trio para um lançamento futuro, já com a Musidisc consolidada. Nilo Sérgio apostou suas fichas no Trio Surdina, na certeza de que o sucesso obtido pelo trio traria muito prestígio à sua marca. Porém a tacada mais genial dele foi promover a mudança do nome Trio em Surdina para Trio Surdina! Parece uma bobagem, mas contém uma mudança significativa de conceito. Como já foi dito, Trio em Surdina sugere um clima intimista, com músicas executadas suavemente. Já Trio Surdina sugere que, além do aspecto intimista, algo não muito lícito pudesse ser feito como, por exemplo, a omissão dos nomes dos integrantes do trio na ficha técnica do disco, já que eles pertenciam a gravadoras diferentes, não podendo se apresentar juntos num mesmo disco. De fato, nesta época Chiquinho tinha contrato com a Todamérica, Fafá Lemos com a RCA Victor e Garoto com a Odeon. Além disso, a marca Trio Surdina tinha existência própria, independente dos seus integrantes.
Garoto organizou um novo trio, com Zé Menezes no lugar de Fafá Lemos (12). Este trio se apresentou com grande êxito no programa Noite de Estrelas de julho até novembro de 1953, num total de 27 apresentações, algumas memoráveis (13).

3) Os Discos do Trio Surdina(14).
Nilo Sérgio (15) era proprietário de uma lojinha de discos na Rua Senador Dantas 24-A, exercendo também a função de diretor artístico da Musidisc, marca especializada em LPs. Como ele previra, os lançamentos dos discos do Trio Surdina a partir de maio de 1953 causaram na crítica especializada um misto de surpresa e espanto com as novidades introduzidas por estes três fantásticos instrumentistas.
Trio Surdina-M007 foi o primeiro disco (LP 10 pol.) do trio a ser lançado. No lado A, as seguintes músicas: Tenderly (Gross e Lawrence), O Relógio da Vovó (Garoto, Chiquinho e Fafá), Duas Contas (Garoto) e Felicidade (Garoto e Haroldo Barbosa). No lado B: Ninguém me Ama (Antonio Maria e Fernando Lobo), Na Madrugada (Nilo Sérgio), Nós Três (Garoto, Chiquinho e Fafá) e Malaguenã (E. Ramirez e P. Galindo).
Um desses críticos não conteve o entusiasmo ao afirmar que (16): Os solistas de acordeom, violão e violino oferecem maravilhosos instantes de deleite espiritual. Suas criações atingem nível técnico excepcional. Trata-se, pois de lançamento que orgulha a indústria do disco brasileiro na atualidade.
Outro crítico (17) assim escreveu: É realmente difícil de encontrar dentre os nossos instrumentistas, três artistas que se entrosem tão bem, que sintam com tal igualdade emocional as músicas que executam. “É uma sincronização perfeita de sons e de ritmos”
Ainda hoje este é um disco impactante em função de vários aspectos, como a formação inusitada, produzindo uma sonoridade ímpar, a concepção dos arranjos em que ocorre o revezamento desses três solistas maravilhosos, a escolha do repertório com destaque para Duas Contas, uma das poucas canções de Garoto com música e letra de sua autoria. Com harmonia sofisticada e letra sem rimas (versos brancos), esta música, a única cantada do disco, ficou com um sabor de modernidade ainda mais acentuado pela voz de Fafá Lemos. Felicidade e Relógio da Vovó, ambas também de Garoto, merecem destaque. Repare na 2ª parte desta última... Não há dúvidas de que essa parte da melodia serviu de embrião para Desafinado, a genial composição de Tom Jobim e Newton Mendonça.
Ary Barroso-M008, LP dedicado ao mestre de Ubá, MG, traz no lado A o Trio Surdina interpretando Rio de Janeiro, Inquietação, Na Baixa do Sapateiro e Risque. No lado B Léo Peracchi e Sua Orquestra interpretam Aquarela do Brasil, Por Causa dessa Cabocla, Brasil Moreno e No Tabuleiro da Baiana.
A voz e o assobio afinado de Fafá Lemos aparecem em Risque e Inquietação, com destaque para o violão de Garoto. As demais músicas são maravilhosamente apresentadas em versão instrumental. Provavelmente por ter lançamento quase simultâneo ao anterior, este disco passou sem ser percebido pela crítica (18).
Encontramos uma participação avulsa do Trio Surdina no LP Show-M 009, lançado pela Musidisc. O trio interpreta Joãozinho Boa Pinta, música de Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques, com vocal de Fafá Lemos.
Trio Surdina Interpreta Noel Rosa e Dorival Caymmi-M 014.
Este é, em minha opinião, o melhor disco do Trio Surdina. A ótima escolha do repertório realça ainda mais o trabalho aqui apresentado. Como já disse, esse trio é formado por três solistas que se revezam apoiados por um acompanhamento fora do convencional, recheado de fraseados que se harmonizam perfeitamente. O lado A, com músicas de Dorival Caymmi, traz a voz, o violino e o assobio de Fafá Lemos nas músicas Nem Eu e Não Tem Solução. Em versão instrumental são apresentadas as músicas O Mar e O que é que a Baiana Tem?
No lado B as seguintes músicas de Noel Rosa são cantadas por Fafá Lemos: Fita Amarela, Três Apitos, Conversa de Botequim e Com que Roupa?
O crítico musical Claribalde Passos (19) assim disse: Apreciamos o LP Musidisc M-014 intitulado Trio Surdina interpreta Noel Rosa e Dorival Caymmi, lançamento nacional de agosto findo. Esmerados arranjos, a par de primorosas execuções. Aliás, o Trio Surdina vem se firmando, vitoriosamente, no campo fonográfico a cada novo lançamento... Cotação: excelente.
O êxito desses três lançamentos pode ser medido pelas conquistas obtidas pelo Trio Surdina. Ele foi considerado o melhor trio instrumental em duas enquetes, pela revista Carioca (20) e pela Noite Ilustrada (21)!


Trio Surdina-M 017.
Este disco segue o padrão do primeiro em relação ao ecletismo do repertório sem produzir, contudo, o mesmo impacto. No lado A o trio apresenta as seguintes músicas: Ay, Ay, Ay (canção-O. Perez Freire), Vingança (samba-canção de Lupicínio Rodrigues), Amoroso (choro de Garoto e Luis Bittencourt) (22) e Verlaine (Fox de Charles Trenet). No lado B, as seguintes músicas: Canto Karabali (Ernesto Lecuona), Meu Coração (baião de Garoto), Cow Cow Boogie (Benny Carter, Gene de Paul e Don Raye) e Xodó (Jair Amorim e José Maria de Abreu).
O choro Amoroso é apresentado pelo autor em solo de violão-tenor, instrumento hoje em dia muito raro, e que possui a seguinte afinação (partindo da nota mais grave): dó, sol, ré e lá. Esta faixa, se por um lado foge inteiramente da concepção dos arranjos apresentados pelo Trio Surdina, por outro nos presenteia com uma interpretação magistral de Garoto, o maior expoente desse instrumento.
Os críticos mostraram-se divididos em relação a este lançamento. Jayme Negreiros (23) assim começa sua apreciação: TRIO SURDINA: Mais um LP elaborado, com Fafá Lemos (violinista que se encontra nos EEUU), Chiquinho (acordeom) e Garoto (violão). Um disco muito gostoso para se ouvir e dançar e que se pode programar sem sustos!
Sylvio Túlio Cardoso (24) por outro lado, diz que: Quarto volume do Trio Surdina. De todos, este é o mais fraco, artística e tecnicamente. O articulista faz ao final de sua apreciação um comentário bem interessante: Em Amoroso ouvimos o grande violonista em sua melhor expressão, projetando em seu solo, apurado gosto artístico e profunda sensibilidade. Seu estilo revela vários pontos de contato com Laurindo Almeida (25). A exemplo dos vários LP gravados por este nos Estados Unidos, sugeriríamos à Musidisc que fizesse também um microssulco com Garoto sozinho ao violão, no qual ele pudesse exibir, com a necessária liberdade, suas extensas possibilidades artísticas.
Quando se deu o lançamento desses discos Fafá Lemos estava iniciando sua carreira artística nos Estados Unidos enquanto que Garoto, Chiquinho e Zé Menezes organizaram um trio que apresentava exclusivamente na Rádio Nacional, no programa Noite de Estrelas, produzido e apresentado por Paulo Gracindo. Apesar de seu elevado nível técnico este trio não gravou nenhum disco, e continuou sem nome (26). Num desses programas está registrado um delicioso diálogo entre Gracindo e Garoto, tendo como foco a nova fase da carreira de Fafá Lemos.
4) O Breve Retorno do Trio Surdina.
Já em fevereiro de 1954 a imprensa noticiava as férias de Fafá Lemos ao Brasil (27): Ele virá a fim de passar algum tempo com sua família e gravar alguns discos na Victor e na Musidisc, onde juntamente com Chiquinho e Garoto forma o Trio Surdina que tão boas gravações nos têm dado. Seu regresso, entretanto, não foi imediato e no dia 13 de junho Garoto e sua esposa Cecy aguardavam Fafá Lemos no Aeroporto Internacional do Galeão. Os amigos Demerval da Fonseca Neto (Furinha), Garoto, Radamés Gnattali e Billy Blanco reuniram-se para homenageá-lo no Tijuca Tênis Clube (28). Um cardápio serviu de registro daquela reunião realizada em 16 de junho...
Fafá Lemos esteve presente com Pixinguinha, Radamés Gnattali, Furinha e outros amigos naquele que foi o último aniversário de Garoto, comemorado em 29 de junho na casa da atriz Lia Torá.
No mês seguinte Fafá convidou Garoto para assistir as gravações de dois discos 78 RPM que fez pela RCV Victor. Ao escutarmos as músicas Valsa do Vira Lata, Se Alguém Disser, Meu Panamá e Zigeuner somos levados a crer que Garoto fez muito mais que assistir. Em 08 de agosto Garoto gravou com Fafá a sua valsa Luar de Areal, inspirada numa bela noite de luar passada em seu sítio que ficava naquela localidade. É muito provável que ele tenha participado da outra faixa do disco, o choro Tempo Antigo, de Pedro Camargo. Em 20 de agosto mais duas gravações de Fafá, desta vez sem Garoto, que estava em São Paulo: Joãozinho boa pinta e Canarinho feliz.
Chiquinho estava excursionando pela Argentina e Uruguai com Carmélia Alves, que ostentava com mérito o título de Rainha do Baião. Após a temporada nos meses de junho e julho, Chiquinho retornou e iniciou com Fafá e Garoto, as apresentações do Trio Surdina neste breve retorno. A primeira delas ocorreu em 12 de agosto no programa “Noite de Estrelas” e a segunda em 30 de agosto, no programa “Gente que Brilha”. Estava prevista uma homenagem ao Trio Surdina no Clube da Ferradura, em 16 de agosto. Fafá e Garoto esperaram em vão por Chiquinho que não compareceu, ficando assim cancelada a homenagem...
Garoto era detalhista ao extremo, a ponto de registrar em seu diário tudo o que fazia, gravações, festas, bailes, programas radiofônicos, etc. Ao examinar tal diário não encontrei, durante esse período em que Fafá Lemos esteve de férias no Brasil, nenhuma menção às gravações do Trio Surdina na Musidisc ou em qualquer outra gravadora.
Um jantar na casa de José Brant marcou a despedida de Fafá Lemos. Estavam presentes Radamés Gnattali, Furinha, Garoto e Chiquinho. Dois dias depois, em 08 de setembro, ele embarcou para os Estados Unidos (29). Fafá pretendia levar Garoto e Bonfá para os Estados Unidos, mas apenas este último para lá viajou (30). A morte de Garoto em 3 de maio de 1955 representou o fim do Trio Surdina com aquela formação.

5) Outro Trio Surdina.

A marca Trio Surdina apossada por Nilo Sergio reapareceu no mercado fonográfico com os seguintes lançamentos da Série de Luxe da Musidisc:
DL-1003-Boleros Famosos vol. 1. 1955
Lado A:
1-Sinceridad. 2-Contigo.3-Angelitos Negros.4-Canción del Alma.
Lado B: 1-Um Minuto. 2-Solamente uma vez3-Pecadora.4-Usted.
DL-1004-Aquarela do Brasil 1955.
Lado A:
1-Aquarela do Brasil (Ary Barroso). 2-Curare(Bororó).3-Tico Tico no Fubá(Zequinha de Abreu).4- Guacyra(Joracy Camargo e Heckel Tavares).
Lado B:
1-Meu Limão, Meu Limoeiro (Motivo popular). 2-Rio(Ary Barroso)3-Favela (Joracy Camargo e Heckel Tavares).4-Terra Seca(Ary Barroso)
Dl-1005-Boleros Famosos vol. 2 1955.
Lado A:
1-Sin Tí (P. Guizar). 2-Oracion (A.Lara).3-Babalú (Lecuona).4-Para que Sufras(Felipe Valdez Leal)
Lado B: 1-Amor Secreto (Gustavo Prado). 2-Contigo en la Distancia( C. Portillo de La Luz).3-Verdad Amarga(C. Velasquez).4-Uma Aventura más(O. Kinleiney)

DL-1006- Ouvindo Trio Surdina vol. 1 1955.
O repertório é todo de motivos folclóricos. No lado A temos:
1-Prenda Minha. 2-Peixe Vivo.3-Casinha pequenina.4-Mulher Rendeira
Lado B:
1-Casinha da Colina. 2-Côco Dendê.3-Côco Peneruê.4- Cantigas de Roda.
DL-1007-Ary Barroso, Dorival Caymmi e Noel Rosa 1956.
Lado A:
1-João Valentão (Dorival Caymmi). 2-Quando eu Penso na Bahia(Ary Barroso).3-Feitio de Oração(Vadico e Noel Rosa).4-Dora(Dorival Caymmi)
Lado B:
1-Vai Haver barulho no Chateau (Walfrido Silva e Noel Rosa). 2-Três Lágrimas(Ary Barroso).3-Sábado em Copacabana(Dorival Caymmi e Carlos Guinle).4-Boneca de Pixe(Ary Barroso e Luiz Iglesias).

DL-1009-Ouvindo Trio Surdina vol. 2 1956.
Lado A:
1-Jalousie (J. Gade). 2-Comigo é Assim(Zé Menezes e Luis Bittencourt).3-Charmaine(Pollsck e E. Rappe).4-Linda Flor(Henrique Vogeler)
Lado B:
1-Maria Lá Ô (Lecuona). 2-Iracema na Escócia(Pernambuco).3-Moonlight Serenade(M. Parish e G. Miller).4-Você não Gosta(Al Quincas).
DL-1017-Ouvindo Trio Surdina vol. 3 1956.
Lado A:
1-Matinata(Leoncavallo). 2-Sal e Pimenta(Nazareno de Brito e Newton Rodrigues).3-Over the Raimbow(H. Arlen e E.Y.Harburg).4-Molambo(Jayme Florence e Augusto Mesquita)
Lado B:
1-Ojos Verdes (Utrera e Nilo Menendez). 2-J’Attendrai(Oliviero).3-Serenata(Toseli).4-Porquê Brilham os Teus Olhos(Fernando César).
Neste último disco aparece o nome dos integrantes: Al Quincas (violino), Nestor Campos (violão) e El Gaucho (acordeom). Estes gravaram individualmente os seguintes LP na Musidisc.
DL-1011-Ao Compasso do Baião-El Gaucho.
DL-1013-Cocktail para Dois-Al Quincas.
DL-1014-Música da Noite vol1- Nestor Campos.

Nilo Sergio Filho cedeu-me gentilmente uma cópia do contrato formado por estes três músicos com a Musidisc, que assim começa:
CONTRATODE LOCAÇÃO DE SERVIÇOS E CESSÃO DE DIREITOS AUTORAIS DE INTÉRPTRETE
Que entre si fazem, como locadores, AURO P. THOMAZ (GAUCHO) acordeonista, JOAQUIM GONÇALVES OLIVEIRA FILHO (AL QUINCAS) violinista e NESTOR CAMPOS, violonista, que formam um conjunto artisticamente conhecido por Tria Surdina, brasileiros, residentes e domiciliados nesta Capital, e de outro, como locatária, a firma GRAVAÇÔES MUSIDISC LTDA, com sede nesta Capital, à Rua Buenos Aires, 68-3º andar, neste ato representado por seu Diretor NILO SANTOS FILHO...
A qualidade técnica deste outro Trio Surdina é indiscutível (31), porém os arranjos perdem muito em originalidade, se comparados com aqueles elaborados por Garoto, Chiquinho e Fafá Lemos, assim como seu caráter inovador. Seus integrantes tiveram carreiras individuais bem sucedidas. Nestor Campos foi um grande guitarrista/violonista e a ele dediquei três artigos, dois já publicados e um por publicar (32). Al Quincas obteve grande projeção na década de cinqüenta, não como violinista, mas sim como saxofonista (tenor). No seu LP lançado pela Musidisc ele toca sax-tenor...Devo confessar que sua história me desperta muito interesse. El Gaucho teve uma atuação mais discreta como músico.
Canções de Natal com Trio Surdina e Nilo Sérgio, lançamento Musidisc M-042 em 1956 conta provavelmente com esta formação. Neste disco encontramos no lado A:
1-Jingle Bells (tradicional). 2-Adeste Fidelis(tradicional).3-White Christmas(Berlin).4-Natal na Minha Terra(Homero Guelmini).
Lado B:
1-Silent Night (F. Gruber). 2-O Tannenbaum(tradicional).3-Papai Noel(Alberto Ribeiro).4-Natal(Nilo Sérgio).

Estes lançamentos ocorreram entre 1955 e 1956, com a Musidisc promovendo em diversas ocasiões relançamentos de todos os discos da marca Trio Surdina. Somente em 1958 foi feito um novo lançamento:
BOLEROS EM HI-FI-TRIO SURDINA COM PIERRE KOLMANN AO PIANO (1958).
1-Frenesi (A.Dominguez). 2-Esperame em el Cielo(F.Lopez).3-Soñando Contigo(Anísio Silva e Fausto Guimarães).4-Besame Mucho(Consuelo Velasquez).5-Hasta Quando(João Leal Brito”Britinho”).6-Que Murmurem(R. Fuentes e R. Carde).7-Mi Oración(Boulanger e Kennedy).8-Amor Mio(Álvaro Carrillo).9-Angustia(Orlando Brito). 10-Dos Almas (Don Fabiano). 11-Canción Del Amor Cubano (H. Stothard, J. McHugh e D. Fields). 12-Desesperadamente(G. Ruiz e L. Mendez).
De acordo com o interessante ensaio de Mauro Caldas, O Jogo dos Pseudônimos (33), onde o autor destaca a importância de Nilo Sérgio nessa questão, Pierre Kaufmann é na verdade João Leal Brito, ou Britinho, como é mais conhecido este pianista que tantas páginas belas nos deixou! Esta relação será mais impressionante ainda se João Leal Brito e Rubens Leal Brito forem a mesma pessoa (34)! Se em relação ao pianista o mistério é grande, ele se torna ainda maior em relação aos integrantes desse Trio Surdina! Nada sabemos ainda a esse respeito...
Já com a Bossa Nova consagrada, a Musidisc lança o LP
TRIO SURDINA EM BOSSA NOVA-1963.
1- Corcovado (Tom Jobim). 2-História(Nilo Sérgio).3-Depois do Carnaval(Silvino Junior e Wilson Tirapelli).4-Chega de Sofrer(Luis Paulo e Orlann Divo).5-Preciso dar um Jeito (Silvio César). 6-Lindos Olhos Azuis (Waltel Branco e Ivo Branco). 7-Que Saudade(Ed Lincon).8-Deixa a Nega Gingar(Luis Claudio).9-Samba em Prelúdio(Baden Powell e Vinicius de Moraes).10-Menino, desce daí(Paulinho Nogueira).11-Dê mais Amor(Waltel Branco e Joluz).12- O Amor em Paz(Tom Jobim e Vinicius de Moraes).
Encontrei no site Loronix (35) referência aos integrantes desse derradeiro Trio Surdina:
Waltel Branco (violão), Chiquinho (Acordeom) e Patané (violino). A partir daí nenhum outro lançamento com a marca Trio Surdina foi feito, muito embora o termo em surdina tenha sobrevivido por um bom tempo.

Este artigo, embora extenso, está longe de ser completo. Busquei, dentro das minhas limitações, realçar a importância deste legendário trio, especialmente em sua primeira formação, para a moderna música brasileira dos anos 50, que teve na Bossa Nova a sua expressão máxima. Procurei desfazer o mistério que havia nas formações do Trio Surdina, em função da ambigüidade intrínseca a este título.

REFERÊNCIAS:
(1)Os Novos Horários da Rádio Nacional-A Noite-2/03/1951.
(2)Garoto voltou à Rádio Nacional-por Nestor de Holanda-A Noite-6/04/1951.
(3)Notícias da Rádio Nacional-A Noite-12/04/1951.
(4)Dicionário Groove de Música, pg 918.
Jorge Zahar Ed.1994.
(5)Você é Tormento- Jorge Mello em Cancioneiro de Garoto,sovacodecobra.uol.com.br
(6)Choro:Do Quintal ao Municipal-Henrique Cazes-Ed.34,1ª edição-1998.
(7)Ouvindo Trio Surdina vol.2-Thiago Mello-http://bossa-brasileira.blogspot.com
(8)Brazilliance vol.1:Uma experiência inovadora. Ensaio de Jorge Mello em http://musicosdobrasil.com.br
(9)Notícias da Rádio nacional- recorte encontrado no álbum do Garoto.
(10)Rádio e Televisão informando-Diário da Noite-11/07/1952.
(11)Viajará Fafá Lemos- A Noite-3/01/1953.
(12)Trio sem Nome-por Jorge Mello, em séries(partes1e2),sovacodecobra.uol.com.br.
(13)idem, parte 4.
(14)Discografia Trio Surdina em www.memoriamusical.com.br
(15) Nilo Sérgio- O Globo nos discos populares-Sylvio Túlio de Cardoso-O Globo,
12/03/1953.
(16)Disc Jockey Carioca-Claribalde Passos-Carioca, nº 917,2/05/1953.
(17)Ronda dos Discos-Paulo Medeiros-Última Hora,24/06/1953.
(18)Disc Jockey Carioca-Claribalde Passos-Carioca, nº918,9/05/1953.
(19)Julgamento da semana-Discoteca-Claribalde Passos-Carioca, nº 939, 3/10/1953.
(20)Os Melhores de 1953-Discoteca-Claribalde Passos-Carioca,951-26/12/1953.
(21)Os Melhores de 1953- A Noite Ilustrada-Janeiro de 1954.
(22)Cancioneiro do Garoto:Amoroso-por Jorge Mello em séries, sovacodecobra.uol.com.br.
(23)Trio Surdina-Discos-Jayme Negreiros-O Jornal-3/04/1954.
(24)O Globo nos discos populares-Sylvio Túlio Cardoso-recorte encontrado no álbum do Garoto.
(25)Brazilliance, op.citt.
(26)Trio sem nome-por Jorge Mello em séries,sovadodecobra.uol.com.br.
(27)Ronda dos Discos-Paulo Medeiros-Última Hora-17/02/1954.
(28)Homenagem à Fafá-Ronda da meia Noite-última Hora,16/06/1954.
(29)Fafá Regressa-Ronda dos Discos-Paulo Medeiros-Última Hora,2/09/1954.
(30)Bonfá vai-Discos-Jayme Negreiros-O Jornal-, 24/10/1954.
(31)Ouvindo Trio Surdina vol.2-Thiago Mello em bossa-brasileira.blogspot.com
(32)O Extraordinário Guitarrista Nestor Campos(partes 1 e 2, por Jorge Mello em sovacodecobra.uol.com.br
(33)O Jogo dos Pseudônimos-Mauro Caldas em musicosdobrasil.com.br
(34)www.brasileirinho.mus.br em 30/05/2005
(35)Trio Surdina em Bossa Nova-loronix.blogspot.com

terça-feira, 24 de março de 2009

Colaboração musical: Luiz Bonfá/Tom Jobim

LUIZ BONFÁ/TOM JOBIM: COLABORAÇÃO MUSICAL.

POR JORGE MELLO.




Introdução:


Dois grandes músicos e compositores que desenvolveram um trabalho de cooperação da maior importância na Música Popular Brasileira: Luiz Bonfá e Tom Jobim. Através do pioneirismo de suas canções e atuações como instrumentistas, pode a Bossa Nova encontrar um solo fértil para se desenvolver. Quando este movimento se consolidou, lá estavam eles, no topo! Cada um deles teve carreira vitoriosa no exterior. Bonfá como um dos maiores violonistas que o Brasil produziu, além de compositor de páginas inesquecíveis como Manhã de Carnaval, The Gentle Rain e Samba de Orfeu e Tom como o compositor inigualável, bastando citar Desafinado(com Newton Mendonça), Samba de uma nota só(com Newton Mendonça), Corcovado, Insensatez(com Vinicius de Moraes), Samba do Avião, Dindi( com Aluisio de Oliveira), Retrato em branco e preto(com Chico Buarque) e tantas outras mais. Focalizamos neste artigo os momentos mais marcantes de tal colaboração, com destaque para a parceria entre ambos em 7 músicas gravadas.


(1) O Encontro.


Na emocionante e emocionada biografia de Tom Jobim escrita por sua irmã Helena(1) o primeiro e inusitado encontro, nada musical, entre Tom e Bonfá é descrito de forma tão bela e singela que optei por transcrevê-lo, para não perder uma palavra sequer de tão deliciosa narrativa:
Foi na Continental que Tom reencontrou Luiz Bon fá, que conhecera como pescador anônimo nas pedras do Arpoador. Ao vê-lo, lembrou que certa vez estava pescando há bastante tempo e só conseguira um pampinho-gualhudo. Tinha esperança de pescar outros peixes, mas já antecipava o prazer de fritar o papinho quando chegasse a casa. Outro pescador, a certa distância dele, aproximou-se e perguntou se Tom se importaria em ceder um pedaço do peixe para fazer iscas. Acreditava que as enchovas estavam chegando. Constrangido, Tom deu-lhe um pedaço do peixe. Naturalmente jamais esqueceria o rosto desse pescador. Os dois se divertiram com a lembrança do fato e vieram a se conhecer e a se respeitar como músicos.
Com 12 discos na Continental como solista e tendo várias composições suas gravadas por intérpretes do quilate de Dick Farney, Johnny Alf e Nora Ney, Bonfá já era um violonista consagrado, capaz de acordes impossíveis e um grande compositor quando por lá encontrou Tom Jobim. Este, após sair do “cubo das trevas”, o circuito de boates e inferninhos da zona sul, onde varava as noites tocando piano, conseguiu um lugar na Radio Clube, onde ficou por um breve período, até ser convidado por seu amigo Paulo Soledade para trabalhar na Continental, como assistente de direção artística, no início de 1954. Aprendeu com Radamés Gnattali, diretor artístico da gravadora neste período, muitos dos segredos da orquestração (2).
É bem provável que Tom e Bonfá já se conhecessem quando a Continental fez desfilar o seu elenco para promover o lançamento das canções para o segundo semestre de 1954. Todos os intérpretes foram acompanhados por um trio memorável, formado por Garoto (gentilmente cedido pela Odeon) na guitarra, Galhardo no contrabaixo e Antônio Carlos Jobim (Tom), pianista e acessor musical da Continental (3). Luiz Delfino, o apresentador do evento, anunciava os nomes dos artistas e as músicas que iriam interpretar. Desta forma apresentaram-se Dick Farney com Outra Vez (Tom Jobim), Lúcio Alves com Esperança Perdida (Tom Jobim) e Valsa de Uma Cidade (Antônio Maria e Ismael Neto), Lúcio e Dick (juntos) em Tereza da Praia (Tom e Billy Blanco) e Casinha pequenina (Lúcio Alves), Nora Ney com Solidão (Tom Jobim) e O Que Foi Que Eu Fiz? (Luiz Peixoto e Augusto Vasseur), Luiz Bonfá com duas músicas de sua autoria: Triste Dúvida e Velhos Tempos. Também participaram deste evento os seguintes artistas: Jorge Goulart, Bill Far, Marlene, Os Cariocas, Trio Nagô e Bené Nunes. No final da apresentação, que foi realizada no Clube do Cinema, Garoto compôs na hora uma música por ele chamada de Noite Maravilhosa. Deve ter sido mesmo... Este evento marca o nascimento da parceria musical de Luiz Bonfá e Tom Jobim, além da afirmação deste como compositor.


(2) As Primeiras Colaborações:


Surgem então os primeiros discos, em que Bonfá aparece como líder de conjunto e Tom como pianista e arranjador. Jayme Negreiros (4) fez a resenha do disco 78 RPM lançado pela Continental, o primeiro da colaboração entre eles:
“Velhos Tempos e Baião em Bagdad-Luiz Bonfá e seu Conjunto. Continental 16952.
Dois números do próprio Bonfá. As linhas melódicas de ambos não apresentam nada de novo, sendo que a do chorinho é melhor, captando, bastante, um sabor antigo. Os arranjos (excelentes em simplicidade, profundos, porém, em concepções) são do pianista e compositor Tom e a turma que gravou com Bonfá ficou assim composta: Donato (acordeom), Gagliardi( Contrabaixo), Juca (bateria com escovinha), Cópia (clarinete) e o próprio Tom ao piano celeste. Todos tirando sons modernos”.
O mesmo crítico musical (5) faz o seguinte comentário sobre um Lp que estava sendo gravado por Bonfá:
“ O LP Luiz Bonfá, com Claudio (violino), Donato (harmônica), Nestor (violão seco), Gagliardi (contrabaixo), Juca (bateria) e com o próprio Bonfá em seu instrumento, será realizado pela Continental. Músicas suaves, bonitas, como só o Bonfá sabe apresentar, variando os temas. Enfim, vai ser um LP ( que se sair como eu ouvi nos ensaios)inesquecível”.
Realmente saiu o LP Luiz Bonfá pela Continental, LPP-21, mas com algumas alterações em relação aos músicos participantes(6), (7). Na contracapa do mesmo encontramos as seguintes informações:
“ LUIZ BONFÁ, solista de violão e compositor dos mais aplaudidos da música popular brasileira, é a figura central deste disco, que reúne uma série de números selecionados, sendo alguns de sua própria autoria.
DONATO, acordeonista, é o arranjador do samba de sua autoria Minha Saudade, tomando parte, além desta, nas gravações do choro de Bonfá Chora Chorão! E no fox do mesmo autor Canção de Outono.
ANTÔNIO CARLOS JOBIM (TOM), pianista e maestro consagrado por sua grande personalidade, está neste disco tocando a valsa Dúvida (Luiz Bonfá) e o conhecido bolero Perfídia(Armando Rodriguez), do qual fez o arranjo. Foi o idealizador também da apresentação de O Barbinha Branca, choro do qual é autor juntamente com Bonfá.
ALTAMIRO CARRILHO, consagrado flautista e compositor de sucesso, é o artista que se escuta executando o bolero Perfídia.
CLAUDIO( VIOLINO) tem oportunidade magnífica em Uma Prece e Canção de Outono, ambas de Bonfá.
QUINIDIO TEIXEIRA é o sax-tenor que executa O Barbinha Branca.
Em Violão no Samba, de sua autoria e de grande efeito, Bonfá demonstra seu grande virtuosismo.
Completando o disco, o ritmo de João Stockler (Juca) na bateria, e Vidal e Galhardo revezando-se no contrabaixo”.
Este disco, todo ele instrumental, traz a primeira composição de Tom e Bonfá, o choro moderno O Barbinha Branca. Na opinião do autor deste artigo, a faixa Minha Saudade, onde se percebe o violão seco de Nestor Campos, antecipa a Bossa Nova em 4 anos.
Tom Jobim adorava o violão tocado por Luiz Bonfá, e gostava muito de suas composições. Numa entrevista(8) ele declarou que “Gravou muito, depois eu gravei com ele, como instrumentista. Gravei muita música do Luiz Bonfá. Eu ainda carregava aqueles instrumentos pesadíssimos, os auto-falantes do violão. Aquilo era um desastre, um peso que o Bonfá não podia levar, por causa da mão de tocar violão”.



3) As Composições da Dupla:


O Barbinha Branca teve apenas aquela gravação no LP 10 pol Luiz Bonfá, que já comentamos. João Gilberto faz uma citação do início desta música em sua composição Um Abraço no Bonfá, onde presta uma homenagem ao violonista.


Samba não é Brinquedo foi gravado pela primeira vez por Dora Lopes, acompanhada de Luiz Bonfá e seu conjunto(Tom ao piano), pela Continental (C-3773) em 24 de fevereiro de 1956. A letra é um manifesto contra as versões que assolavam o mercado fonográfico brasileiro nos anos 50: “Se Noel (Rosa) ainda estivesse aqui, acabava logo com a versão”
Um ano após a morte de Tom Jobim, foi lançado na França, pela Kardum, um cd(KAR 270) com “músicas inéditas” de sua autoria. Trata-se de um engodo! Parte desse disco foi aproveitada no cd duplo “Do Brasil”, The Gold Colletions. No cd 1, são atribuídas ao Tom a autoria de 10 músicas: Three Notes Samba, Samba de Amor, Cupids, Live For Tomorrow, Janelas Abertas, Samba Não é Brinquedo, Girl Upstairs, Estrada Branca, Incerteza e O Morro. Entretanto, apenas as músicas sublinhadas são de autoria de Tom Jobim. Estas foram executadas por um quarteto instrumental (não identificado) com a seguinte formação: piano, baixo, guitarra e bateria. As demais músicas são de autoria de Luiz Bonfá, quase todas com títulos falsos! Apenas Samba de Amor (que integra o cd Jazz Samba Encore! Stan Getz/ Luiz Bonfá) está com o título correto. Three Notes Samba é, na verdade, Ebony Samba, do cd Getz/Bonfá. As demais são composições de Bonfá, encontradas no cd Luiz Bonfá Plays and Sings Bossa Nova: Cupids= Ilha de Coral, Live for Tomorrow=Domingo a noite, Girl Upstairs= Silêncio do Amor. Na mesma faixa de Samba Não é Brinquedo encontra-se Sambalamento, de Bonfá. Neste lamentável episódio foram lesados Tom (principalmente), Bonfá e o já mencionado quarteto instrumental, por sinal excelente, que não recebeu nenhum crédito. De qualquer forma esta foi a segunda gravação, e a única em versão instrumental, de Samba não é Brinquedo.



Engano(samba-canção) foi gravada por Dóris Monteiro em 10 de fevereiro de 1956, acompanhada pela Orquestra Continental (C-3756). Uma partitura encontrada no acervo do Instituto Antonio Carlos Jobim, com o ano de 1955 ao lado do título da música, sugere que tenha sido este o ano em que foi composta. Esta música foi recentemente interpretada por Fátima Guedes, no interessante cd Outros Tons, gravado em 2006 pela Rob Digital.
Domingo Sincopado (instrumental), a segunda parceria instrumental da dupla, foi gravado por Edú da Gaita pela Continental em 20 de abril de 1956 com arranjo orquestral (para 4 trombones, 4 violinos, piano(Tom), contrabaixo, guitarra(Bonfá) e gaita) de Tom Jobim. Esta música também consta do LP Noite e Dia, de Luiz Bonfá e Ed Lincon, gravado pela Continental e lançado em 1957. Motivado pelas homenagens prestadas aos 80 anos de Tom Jobim, o músico Mario Adnet lançou o maravilhoso Jobim Jazz, com Domingo Sincopado abrindo o cd. Encontra-se no maravilhoso acervo do Instituto Antonio Carlos Jobim(IACJ) um outro arranjo para esta música, feito por Tom: 5 saxofones, 3 trompetes, 2 trombones, 8 violinos, guitarra(Luiz Bonfá) e contrabaixo.



A Chuva Caiu (toada-baião) gravada em 1956 por Ângela Maria(9) na Continental, disco nº 5540, obteve grande sucesso. Certamente isso motivou o compositor paraguaio Amado Smendel a abrir um processo contra os autores desta música, por considerá-la plágio de uma composição de sua autoria intitulada Mboracjhu(10). Esta música, uma guarânia, foi gravada por Smendel , acompanhado peloTrio Guaraní (do qual Luiz Bonfá era integrante), na RCA Victor em 27 de abril de 1939...Smendel disse que Bonfá copiou a música! É bem verdade que eles tiveram uma longa convivência musical: foram parceiros na rumba Buenas Noches Senõrita, lançada pela Continental em julho de 1945 e Smendel também se apresentou no Cassino São Vicente, acompanhado do Trio Campesino, do qual Bonfá participava(11). Mas daí a dizer que Bonfá copiou a música... O processo não deu em nada, já que o autor do mesmo não anexou nenhum documento comprobatório.
Bonfá e seu conjunto gravaram a versão instrumental de A Chuva Caiu pela Continental em 20 de abril de 1956. Nesta gravação, em que ocorrem variações ritmicas(da toada-baião até o jazz) e improvisos, percebemos o grande entrosamento musical que existia entre Bonfá e Tom e como este estava à vontade no seu piano!
Outras gravações: Eugene D’Hellemmes e sua orquestra(1957), Orquestra Violinos de Ouro (1962) e Fátima Guedes(2006).



Amor sem Adeus. O Lp O Violão de Luiz Bonfá, gravado no Rio de Janeiro em 1959 e relançado recentemente em cd pela MCD(veja o comentário de Luis Nassif em 05/08/2006), traz a primeira gravação dessa música na voz e violão de Bonfá. Em 22 de dezembro do mesmo ano Dick Farney (voz e piano), acompanhado por Valdemiro Lemke e Sua Orquestra, gravou pela Odeon (disco nº 14 578) este belo samba-canção. Ainda naquele ano, esta música foi gravada na RCA Victor(BBL 1065) pelo cantor Luis Claudio.Em 1960, pela Odeon, outra gravação: Novamente Bonfá, mas dessa vez acompanhando ao violão a cantora Norma Sueli. No ano seguinte, no Lp Sylvia Telles USA(Odeon), a cantora interpreta esta música de forma magistral. A última gravação, até a presente data, desta música foi feita por Itamara Koorax, em 1996. A cantora dedicou um álbum inteiro à música de Bonfá, que também participa do disco: Almost in Love-Itamara Koorax sings the Luiz Bonfá Songbook.
Esta bela música foi provavelmente composta entre 1955/56. Uma anotação encontrada no acervo do IACJ, feita num caderno de partituras, revela que esta música foi concebida como um bolero e que permaneceu como “música inédita de Tom e Bonfá” durante algum tempo.O próprio Bonfá declarou(12): Uma das muitas canções feitas em parceria com Tom Jobim em meados dos anos 50.



Correnteza é, sem dúvida alguma, a música mais conhecida da dupla Tom/Bonfá, especialmente por estar na trilha sonora de uma das melhores novelas da Globo: O Rei do Gado.Não há quem não se emocione com a interpretação de Djavan para esta música, com destaque para o belíssimo arranjo feito por ele. Contabilizamos 29 gravações dessa música! A primeira delas foi feita pelo cantor mineiro Luis Cláudio no LP Cantigas, lançado pela Odeon em 1973. A segunda foi feita por Miucha, no LP de mesmo nome, lançado pela Philips em 1975, e a mais bela de todas por Tom Jobim no maravilhoso álbum Urubú, lançado pela WB Records/WEA em 1976. Dois anos depois Wilson Miranda, no disco Relêvo, da Continental. Com participação especialíssima de Tom Jobim, o grupo vocal Boca Livre, no LP independente Bicicleta,em 1980. Em 1988 no LP Grupo Chovendo na Roseira interpreta Tom Jobim, lançado pela Som Livre. Fechando a década de 80, Amazonas-Familia Jobim(1989), BMG-Ariola/Som Livre. The Other Side of Jobim-Ana Karam(1992). No ano de 1995:Dori Caymmi e a cantora holandesa Josee Koning, cd lançado pela Columbia; Joyce e Toninho Horta, cd Sem Você, lançado no Japão(Omagatoki), relançado pela Biscoito fino em 2007. Ithamara Koorax em Rio Vermelho. Claudio Nucci e Nós & Vozes pela Atração Fonográfica. Vânia Bastos & Cordas-Canções de Tom Jobim, pela Velas e 16 canções de tamanha ingenuidade- Eliete Negreiros e Quinteto, pela Eldorado. Em 1996: Almost in Love, Ithamara Koorax, pela Imagem; Malásia-Djavan, pela Sony Music eEdú Lobo, no Songbook Antonio Carlos Jobim, vol 1, pela Lumiar. Em 1998 Saulo Laranjeira em Fulô da Laranjeira, vol 1.Ainda no mesmo ano em Bambú, com o grupo formado por Cristina Braga(harpa), Ricardo Medeiros (contrabaixo), José Staneck(gaita de boca), Bárbara Lau (voz) e Russel May (percussão). Fechando a década de 90, Quarteto Jobim-Morelenbaum, pela Velas em 1999. Pena Branca no cd Semente Caipira, pela Kuarup em 2000. Tavinho Bonfá em Um Banquinho, um Violão, pela Seven Music em 2001.Ainda no mesmo ano Tibó Delor em No Tom da História-A Música de Antonio Carlos Jobim. Em 2002:Gilvan de Oliveira em Violão Caipira, pela Kuarup; Orquestra Popular de Câmara, em Danças, Jogos e Canções e o grupo vocal Tom da Terra em Brasil Branconegro,cd lançado pela CPC-Umes. Em 2004, Maria Bethânia, com participação especial de Miucha em Brasileirinho ao vivo, pela Biscoito Fino. No mesmo ano e pela mesma gravadora, Quarteto Maogani em Água de Beber. Filó Machado e Cibele Coutinho em Tom Brasileiro, pela Lua Discos em 2005. Finalmente, a dupla Mayck e Lyan no cd Defendendo a Tradição, lançado pela EMI em 2006.


Num dos cadernos de música de Tom Jobim (Acervo IACJ) há uma anotação feita de próprio punho com o seguinte conteúdo:
Músicas Inéditas com Luiz Bonfá.
1)Adeus
2)Toada-(ter Saudade)
3) Tudo foi sem querer
4)Brigamos outra vez.
As respectivas partituras não foram ainda localizadas, o mesmo acontecendo com as letras.
Suspeitamos que Amor se trate, na verdade, da composição Amor sem adeus e que a toada seja Correnteza.
Na parceriaTom/Bonfá, a exemplo do que também acontecia na de Tom/Newton Mendonça, ambos faziam letra e música.


4) Orfeu da Conceição, Orfeu do Carnaval, Copacabana Palace, Carnegie Hall e Jazz Samba Encore!

Maio de 1956. Numa das mesas da Casa Vilarino, que ainda funciona na esquina da Av.Presidente Wilson com Calógeras, estavam Vinicius de Moraes, Lucio Rangel e Haroldo Barbosa. A conversa entre eles naquele final de tarde girava em torno da peça Orfeu da Conceição, de Vinicius. O poeta convidara o maestro e compositor Oswaldo Gogliano (Vadico), mais conhecido por suas parcerias com Noel Rosa em sambas como Feitiço da Vila, Conversa de Botequim e Feitio de Oração, dentre outras. Vadico não pode aceitar o convite devido à problemas de saúde, já que sofrera um enfarte há pouco tempo. Quem poderia então musicar a peça de Vinicius, na qual o mito grego de Orfeu era transposto para uma favela carioca? Justamente naquela hora, numa mesa perto deles, estava o então jovem compositor e arranjador Antonio Carlos Jobim, bebendo uma cervejinha. Lucio Rangel percebeu a presença de Tom e sugeriu seu nome para Vinicius. Surgiu daí aquela célebre história em que Tom ao ser convidado por Lucio, teria perguntado a este: Tem um dinheirinho nisso aí? O fato é que desse encontro surgiu uma, quem sabe a mais, importante parceria da música popular brasileira. A lira do Orfeu grego deu lugar ao violão do Orfeu negro, vivido por Haroldo Costa. O violão deveria ser tocado por mãos hábeis, daí então a escolha de Luiz Bonfá. Este era o responsável pelos solos de violão, como na Valsa de Eurídice em que ele toca com uma Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal sob a regência do Maestro Léo Peracchi, quanto nos acompanhamentos dos sambas Um Nome de Mulher, Se Todos Fossem Iguais a Você,Mulher sempre mulher,Eu e o Meu Amor e Lamentos no Morro, compostos por Tom e Vinicius. Bonfá fazia a “dublagem” do violão que Haroldo Costa fingia tocar. A peça cuja estréia se deu em 25 de setembro no Theatro Municipal, foi por lá apresentada até o dia 30 de setembro. O desempenho de Luiz Bonfá mereceu o seguinte comentário(13): Maravilhosamente executadas pelo grande artista que é Luiz Bonfá, as composições de Antonio Carlos Jobim se enriqueceram e ganharam ainda maior estatuto, como que para demonstrar a injustiça do conceito de que o violão é instrumento de poucos recursos. A valsa Eurídice, aproveitada sinfonicamente, é digna de figurar nos programas dos concertos eruditos.
Ainda em 1956 a gravadora Odeon lançou o LP 10 pol (MODB. 3.056) Orfeu da Conceição, com Tom Jobim regendo a Orquestra Odeon e Roberto Paiva interpretando os sambas da dupla Tom/Vinicius e no violão, novamente Bonfá. No texto da contracapa do disco Vinicius de Moraes assim se referiu ao violonista: Notável, sob todos os pontos de vista, o violão de Luiz Bonfá. O nosso caro e grande Bonfá, como é sabido de todos, é responsável pela execução, na orquestra, do violão de Orfeu da Conceição- o que lhe assegura de saída a excelência de qualidade que o mito requer.
Marcel Camus dirigiu o filme Orfeu do Carnaval (Orphée Noir na França e Orfeo Negro na Itália) adaptando para o cinema o texto de Vinicius em roteiro assinado por ele e por Jacques Viot e com produção de Sacha Gordine. Camus não desejava aproveitar nenhuma das músicas compostas para a peça Orfeu da Conceição, pedindo então a Tom Jobim e Vinicius de Moraes que escrevessem novas canções. Nesta época Vinicius encontrava-se em Montevidéu a serviço do Itamarati, e com grande dificuldade produziram A Felicidade, O Nosso Amor e Frevo. Sergio Cabral(14) mostra em detalhes a participação da dupla Tom/Vinicius no filme Orfeu do Carnaval. Luiz Bonfá (15) acrescenta: Já estava morando dos EUA quando, no intervalo de uma turnê com Mary Martin em 1958, viajei ao Brasil e fui convidado pelo Sacha Gordine para compor a trilha do Orfeu Negro, do diretor Marcel Camus. Era um filme baseado na peça de Vinicius, com músicas do Tom. Mas o Camus não queria usar as mesmas canções e pediu ao Tom para fazer novos temas. Mesmo assim, ficou insatisfeito e praticamente me implorou para escrever uma nova trilha. Eu disse que não tinha tempo, ele insistiu e acabei concordando em escrever duas canções. Uma delas era o samba de Orfeu, uma canção muito simples que só usaram nos últimos minutos do filme. Pra minha surpresa tornou-se muito famosa, principalmente da gravação que fiz com Tony Bennett. Hoje em dia é considerada um clássico do jazz, gravada por Joe Pass, Chris Connor, Paul Desmond, Charlie Rouse e muitos outros.
A outra canção é a esplêndida Manhã de Carnaval, uma das músicas mais executadas em todo o mundo. Ambas possuem letra de Antonio Maria. Bonfá procurou inicialmente Rubem Braga para fazer as letras, mas esse alegou ser muito lento para tal e indicou o gordo, como era conhecido Antonio Maria, nascendo dessa forma a parceria entre eles.
Este filme recebeu, em 1959, a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de melhor filme em língua estrangeira. Tal fato aumentou o prestígio de Tom e Bonfá no exterior, como também chamou a atenção para a nossa música! A trilha sonora original foi relançada em cd pela Universal, em 2008.
Lançado em 1962 o filme Copacabana Palace, uma produção ítalo-franco-brasileira traz uma rara imagem onde aparecem sentados na areia da praia Luiz Bonfá, João Gilberto e Tom Jobim interpretando Canção do Mar, música de Bonfá e letra de Maria Helena Toledo, para deleite das atrizes Sylva Koscina, Mylène Demongeot e Gloria Paul. Ainda na trilha do filme a música Tristeza de Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo, interpretada por Norma Benguell e duas músicas de Tom Jobim: Samba do Avião e Só Danço Samba, esta interpretada por João Gilberto e Os Cariocas.

Luiz Bonfá, Tom Jobim e João Gilberto já eram relativamente conhecidos nos EUA quando participaram do famoso concerto no Carnegie Hall em 21 de novembro de 1962, onde ocorreu a apresentação da Bossa Nova através de um grande número de artistas nossos, alguns deles completamente despreparados para um evento desse porte. Muito amadorismo e uma produção caótica transformaram aquilo que seria um cartão de visitas da Bossa Nova num verdadeiro fiasco, produzindo manchetes em alguns jornais norte-americanos do tipo: Bossa Nova, go home! Alguns jornais nossos, como o Correio da Manhã(16) anunciavam o fracasso, dizendo que: O único brasileiro que causou uma impressão positiva foi Luiz Bonfá, um violonista de estilo sutil e lírico. Há um certo exagero nisso pois além de Bonfá também se apresentaram com algum sucesso o cantor Agostinho dos Santos, João Gilberto e Tom Jobim.
Com a Bossa Nova em ascensão nos Estados Unidos, Stan Getz e Luiz Bonfá gravam em fevereiro de 1963 o LP Jazz Samba Encore! , contando com a participação de Tom Jobim em 5 das 11 faixas do disco. Em Insensatez(Tom/Vinicuis)ele tocou piano, enquanto que em Sambalero(Luiz Bonfá), Um abraço no Getz(Luiz Bonfá), Só Danço Samba(Tom/Vinicius) e O Morro Não Tem Vez(Tom/Vinicius) ele tocou o 2º violão. É interessante notar a performance de Tom ao violão, em particular a sua maneira de acompanhar o samba, bem distante da famosa “batida” de João Gilberto. Esta foi a última colaboração musical expressiva entre dois músicos maravilhosos, que não dependeram da Bossa Nova para mostrar sua arte, muito embora tenham participado de forma intensa neste movimento.



Referências:
1) Antonio Carlos Jobim -Um homem iluminado.Helena Jobim, Ed. Nova Fronteira,1996.Pg. 86.
2) Antônio Carlos Jobim-Uma Biografia. Sérgio Cabral, Ed. Lumiar, 1997. Pg 78.
Como aponta Sergio Cabral em sua excelente biografia, o crítico musical Jayme Negreiros, cujo nome verdadeiro é Chaim Israel Triflin, foi o jornalista que mais escreveu sobre Tom Jobim. Isto é fato. O autor entretanto comete um pequeno equívoco ao atribuir à Jayme Negreiros uma nota sobre Tom Jobim, em abril de 1954, com o seguinte teor(pg.80): “A dupla compositora de Podes voltar, Tom e Newton Mendonça (apesar do samba não ter sido gravado) continua compondo lindas canções no Posto Cinco. Lúcio Alves está interessado em gravar algumas músicas de ambos”. O texto da nota está correto, mas o mesmo foi publicado em 30 de agosto de 1952 por J. Fomm, na coluna Ronda na Meia-Noite, do jornal Última Hora( veja O Primeiro Sucesso da Dupla Tom Jobim e Newton Mendonça, escrito por Jorge Mello e publicado na série Outras Bossas, desse portal)
3) A Arte (no Brasil) Ainda Não Morreu. Jayme Negreiros, seção Discos- O Jornal, 04/06/1954.
4)Luiz Bonfá e seu conjunto. Jayme Negreiros, seção Discos- O Jornal, 20/07/1954.
5) LP Luiz Bonfá. Jayme Negreiros, seção Discos- O Jornal, 19/09/1954.
6) Minha Saudade- Artigo de Jorge Mello publicado em 12/03/2008 na série Outras Bossas , no portal Sovaco de Cobra.
7) O Extraordinário Guitarrista Nestor Campos (segunda parte). Artigo publicado por Jorge Mello em 09/10/2008 no portal Sovaco de Cobra.
8) Tons sobre Tom-Márcia Cezimbra, Tessy Callado, Tárik de Souza-Rio de Janeiro:Revan,1995.
9) Bonfá e Tom: Reunidos pela primeira vez(sic) como compositores, Luiz Bonfá e Tom Jobim entregaram à Ângela Maria a toada A Chuva Caiu. Correio da Manhã,04/03/1956.
10) Recorte de jornal encontrado no acervo IACJ.
11) Garoto: A Brilhante Temporada de 1944, por Jorge Mello. Publicado no Sovaco de Cobra-Ensaios-em 25 de fevereiro de 2009.
(12) Comentários de Luiz Bonfá sobre as músicas gravadas por Ithamara Koorax em Almost in Love,no encarte do cd.
(13) A música em Orfeu da Conceição- Enio Silveira-Diário Carioca, sd. Recorte encontrado no acervo do IACJ.
(14) Sergio Cabral, op. cit. pg.109 à 114.
(15)Comentários de Luiz Bonfá sobre Samba de Orfeu. Encarte do cd Almost in Love.
(16) Bossa Nova Fracassou no EUA: cantilena monótona-Correio da Manhã, 2º caderno- 23/11/1962.

domingo, 1 de março de 2009

Desaparece Ernani de Figueiredo





















Desaparece Ernani de Figueiredo.
por Jorge Mello.


Em 26 de Fevereiro de 1917 perdia o violão brasileiro um de seus maiores divulgadores, o Maestro Ernani de Figueiredo. Dias antes fora acometido por forte crise de uremia, logo após ministrar uma aula de violão. Ao ser atendido por uma ambulância o médico constatou a gravidade de seu estado, julgando melhor que não fosse removido para sua residência em Jacarepaguá(1). Foi então para a casa de um amigo que morava na Glória, mais precisamente na rua Barão de Guaratiba nº 18(2).
Na ocasião o Jornal do Commercio(3) assim se manifestou: Falleceu hontem, com grande sorpresa para seus amigos e apreciadores, o Maestro Hernani Figueiredo, músico dos mais distinctos e paladino incansável do violão, instrumento de que era exímio tocador". Tal notícia mereceu destaque na 1ª página do jornal Rio de Janeiro, da cidade de Campos(4): " Falleceu no Rio, repentinamente, o nosso estimado conterrâneo Ernani Figueiredo, moço que dedicou ao violão todo o ardor de sua alma de mestiço e que, ao lado de Brant Horta, trabalhava com ardor para que o violão conquistasse o logar de honra a que tem direito e o destaque que hoje tem". O enterro realizou-se no dia 27 de fevereiro às 17 horas no cemitério de São João Batista, saindo o féretro da rua Barão de Guaratiba.
Foi de fato uma morte não anunciada, pois o maestro encontrava-se em plena atividade. Ocupava o cargo de amanuense no Correio Geral, onde entrou através de concurso.Pouco menos de uma semana antes do ocorrido ele se apresentara na Associação Brasileira de Imprensa, com grande êxito. Deixou também um tratado inédito de harmonia que pretendia ver publicado e o texto de uma conferencia que seria realizada em Campos, historiando seu trabalho em prol do violão. Felizmente, graças a colaboração do Dr. Brant Horta e de Ernani Figueiredo Filho, pode esse texto ser publicado na revista O Violão (5), 17 anos após a morte do maestro. O texto assim começa:
" Na edade em que começam a desabrochar os sonhos e as paixões, já dispunha eu de pequeno cabedal artístico-musical, ministrado pelo saudoso e competente mestre Leopoldo Muylaert e robustecido depois não só pelo pranteado professor Francisco Chagas como pela convivência dos companheiros da " Lyra de Apollo" e os práticos ensinamentos do seu fundador, maestro Lourenço Soares". De acordo com o professor Vicente Marins Rangel Junior(6), em livro sobre os músicos campistas, Ernani Esmeraldo de Figueiredo foi admitido na Sociedade Musical Lyra de Apollo em 1889, constando no registro que, na época, era solteiro e exercia a profissão de alfaiate. Tinha ele como companheiros Horacio Souza, Alberto Rangel, José Ferraz, Lourenço Soares e Joaquim Passos Barroso. Seus instrumentos eram o piano, clarinete, violino e trombone, tendo o violão entrado em cena por insistência de um amigo de infância, Pedro Silva, que resolveu aprender a tocar violão e elegeu Ernani, que nada sabia do instrumento, como seu professor...O ponto de partida para esse novo desafio foi o método de violão de Matteo Carcasi, já um clássico na época. O aprendizado informal em serestas e rodas de choro foi de extrema importância para Ernani, que se beneficiou do convívio musical com Seraphim Coelho, Chico Barbosa, Chico Pires, Antonico Braulio, Lodugerio Tinôco e principalmente Bernardino José Pereira, o Bernardino Colchoeiro, que o ajudou a desvendar os mistérios da técnica violonística. Já mais seguro em relação ao violão, Ernani deu vários concertos em Campos entre 1889 e 1902, apresentando-se no Gremio Musical Carlos Gomes e no Teatro São Salvador.
Tendo esgotado suas possibilidades artísticas em sua cidade natal, mudou-se para a então capital do pais, em busca de aperfeiçoamento técnico e musical. Ao mesmo tempo em que estudava violão com um professor particular, desenvolvia seus conhecimentos de harmonia, contraponto, fuga, composição e instrumentação com o Maestro Darbelly, então diretor do Conservatório Livre. Por essa época conhece o já famoso violonista Quincas Laranjeiras, apelido de Joaquim Francisco dos Santos, que iniciou sua carreira musical como trombonista da banda da Fábrica de Tecidos Alliança, em Laranjeiras. Passaram então a se apresentar em duo e/ou individualmente(geralmente em eventos contando também com a participação de cantores, pianistas, violinistas, etc...): Audições em casa do Dr. Pedro Tavares-participavam dessas reuniões Fernando Senra, Arthidoro Costa, Zezé Fragoso,José e Mário Cavaquinho, dentre outros; concerto no Conservatório Livre (contando também com Levino Albano da Conceição); Orquestra de Mandolinos do Professor Santos Couceiro; Theatro Lyrico (em 31/10/1904); Concerto em benefício das vítimas da enchente do rio Paraiba, realizado noTheatro S. Pedro de Alcantara(Atual João Caetano); Club Gymnastico Portuguez(11/06/1907), contando também com a presença dos professores Paganini, Eurico Costa e a Maestrina Thereza Deslandes, dentre outros; Fenianos do Meyer(7), apesentação musical de vários artistas, dedicada à Imprensa Carioca-nesta ocasião Ernani apresentou duas composições suas: Souvenir e Enchanteresse.
Em 1909 Ernani foi convidado para se apresentar na Exposição de Belo Horizonte, tendo realizado depois uma série de concertos em várias localidades. Antes de retornar ao Rio de Janeiro, Ernani se apresentou em Juiz de Fora, onde conheceu Brant Horta, que veio a ser seu companheiro em memoráveis concertos.
Em 1910 participa da exibição do guitarrista portugues Santos Coelho, em 8 de maio, na Associação dos Empregados no Commercio e, ainda no mesmo ano, participa da apresentação de Magalhães Peixoto, no Club Gimnastico Portuguez. No ano seguinte fez várias apresentações: Festa no Club dos Democráticos, em 12 de janeiro(8); Concerto em beneficio da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, realizado em 24 de fevereiro na Associação Cristã de Moços; Audição na Associação dos Empregados no Commercio, em 8 de setembro.
Através de um amigo comum, Dr. Paranhos de Macedo, Ernani foi convidado pelo próprio Presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca, para uma audição musical no Palácio do Catete, onde acompanharia ao violão a Primeira Dama, Nair de Teffé da Fonseca, exibindo-se também em solos de violão (9). Este acontecimento gerou uma grande polêmica, por constar do progama da audição a música Corta Jaca, autoria da Maestrina Francisca( Chiquinha) Gonzaga. O cronista carioca João Ferreira Gomes ( JOTA EFEGÊ) em artigo originalmente publidado em O Globo(10) e depois relançado no seu excelente livro Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira(11), historia este acontecimento citando a indignação (por motivação politica) do senador Ruy Barbosa (adversário político de Hermes da Fonseca)quanto a apresentação da música de Chiquinha Gonzaga. Em discurso no senado ele assim se pronunciou:" Uma das folhas de ontem (referia-se ao vespertino A Noite) estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, a da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam ao País o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o Corta-Jaca à altura de uma instituição social. Mas o Corta-Jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? É a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmão gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas, nas recepções presidenciais o Corta-Jaca é executado com todas as honras de música de Wagner e não se quer que a consciência deste País de revolte, que as nossas se enrubesçam e que a mocidade se ria!". Tal discurso foi publicado em 8 de novembro de 1914 no Diário do Congresso Nacional e teve ampla divulgação na imprensa oposicionista. Cabe dizer que o Corta-Jaca foi executado pela Primeira Dama em solo de violão. Ainda neste instrumento ela executou Pensée Melodique, de Cotin, cantou Cart du Gondolier com Ernani de Figueiredo a acompanhá-la ao violão e depois, ao piano, executou a Rapsodie, de Liszt. Ainda segundo Efegê, participaram daquela audição em 26 de outubro de 1914, além da sra. Nair de Teffé, sra. Nícia Silva, Comendador Artur Napoleão, Dr. Leopoldo Duque Estrada, Maestro Ernani de Figueiredo e o sr. Monteiro Diniz.
O restante dessa história está registrada no meu artigo O Concerto Ernani de Figueiredo/Brant Horta em 1916, publicado neste blog em 18 de janeiro de 2009. Vale lembrar que Ernani aparece no famoso livro O Choro(12), como Hernandes Figueiredo: Infelizmente o que é bom dura pouco. A morte com seu alfange tudo corta, apaga da vida homens que se ainda vivesse, faria a maior gloria do nosso caro Brasil. Hernandes de Figueireso está nesse caso...O grande professor sustentou uma polemica pelos jornaes desta capital, quando aqui esteve o tambem immenso violão Bairrios, sobre o violão, sua tonalidade, o encordoamento...". Este livro, apesar de mal escrito, é de fundamental importância para a história do choro e de seus personagens.

Para finalizar vamos citar Domingo Prat, que assim se referiu à Ernani de Figueiredo em seu famoso Diccionario de Guitarristas: En su patria se le ha considerado, y en verdad que lo ha sido, la más alta e indiscitible autoridad guitarristica...Fué indudablemente, y antes que Quincas Laranjeiras quem ha impuesto por toda la grande extension brasilena la pasion por la guitarra".
Quero fazer aquí um agradecimento especial ao meu amigo Godo Quincas, que muito me auxiliou nas pesquisas sobre o violão brasileiro realizadas no setor de microfilmagens da Biblioteca Nacional.



REFERENCIAS:

(1) O Fallecimento do Maestro Ernani Figueiredo- A Noite. 27/02/1917.
(2) Actos Funebres: Ernani Figueiredo- Correio da Manhã. 27/02/1917.
(3) Fallecimentos- Jornal do Commercio-27/02/1917.
(4) O Violão perdeu seu maximo cultor no Brazil- O Rio de Janeiro. 28/02/1917
(5) A voz de uma autoridade sobre o violão- Revista O Violão- fevereiro de 1929.
(6) Recortes da Memória Musical de Campos(1839-1965)- Vicente Marins Rangel Junior- Ed. Damadá, 1992.
(7) Fenianos do Meyer- Jornal do Commercio, seção: Festas e Bailes. 19/07/1908.
(8) "Foram trocados vários brindes e a reunião terminou com um concerto, de que o magnífico violão do Ernani foi a nota palpitante"-A Tribuna. 13/01/1911.
(9) O Violão, op. citt.
(10) O Globo. 27/03/1973.
(11) Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira, vol II, pg 128/130-Jota Efegê-ed. Funarte 2007(2ª edição)
(12) O Choro- Alexandre Gonçalves Pinto- MPB reedições-Ed. Funarte-1978.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Garoto: A brilhante temporada de 1944




GAROTO: A BRILHANTE TEMPORADA DE 1944.
(publicado originalmente pelo autor no blog do Clube de Choro de Santos) Por Jorge Mello






1-Introdução.


Nascido em 29 de junho de 1915 em São Paulo, capital, Garoto em pouco tempo tornou-se um músico respeitado no cenário musical paulista.
Sua maravilhosa arte transpôs os limites de seu estado a partir de 1936, quando de uma turnê dos astros cariocas Silvio Caldas, Luis Barbosa, Arací de Almeida e o pianista Romualdo Peixoto (Nonô) em São Paulo, iniciada em 09 de julho de 1936.
Apresentaram-se com grande sucesso na Rádio Cruzeiro do Sul e estavam a procura de músicos locais que os acompanhassem no Recital de Música Brasileira no Teatro Santana, no dia 17 de julho. Para acompanhá-los nesta apresentação, Armando Neves (Armandinho) indicou os músicos Garoto e Aimoré (que na época atuavam na Rádio S. Paulo), o que inicialmente gerou certo mal estar entre os cariocas. No primeiro ensaio, realizado em 15 de julho, Garoto exibiu-se na guitarra havaiana, bandolim e violão tenor, conquistando a admiração deles e o direito de participar, em dupla com Aimoré, não somente como acompanhantes, mas como solistas em dois números (“Apanhei-te Cavaquinho”, choro de Ernesto Nazareth e “Carioca”, fox-rumba de autor não identificado) naquelas apresentações! Com o sucesso obtido no Teatro Santana, a dupla Garoto e Aimoré seguiu para Santos com os quatro ases cariocas, onde se apresentaram no Teatro Coliseu. Esta foi a primeira vez que Garoto se apresentou em Santos. Garoto compôs o choro 15 de Julho, uma bem humorada alusão ao episódio do ensaio.
Em 15 de setembro de 1936 a dupla Garoto e Aimoré já aparecia na programação da então toda poderosa Rádio Mayrink Veiga, integrando também o Conjunto Havaiano de Gastão Bueno Lobo. A partir daí sua carreira ganha um novo impulso, culminando com o convite feito por Carmen Miranda para atuar com ela e o Bando da Lua em turnê pelos Estados Unidos em 1938.
Em 16 de dezembro de 1942 Garoto fez sua estréia na Rádio Nacional, participando de todos os regionais e orquestras da emissora. Sua primeira grande temporada deu-se em 1944, onde ele fez uso de suas férias e de licença obtida na Rádio Nacional, através de requerimento feito ao Dr. Gilberto de Andrade, diretor geral daquela emissora.
A estréia de Garoto no Palace Cassino de Poços de Caldas, Minas Gerais, ocorreu em 22 de janeiro de 1944, estendendo-se até 31 de março daquele ano. Outras atrações foram Orlando Silva, Dorival Caymmi, Marguerita Lecuona, Januário de Oliveira e Jean Sablon.


2-A temporada de 1944 em Santos.


É bem provável que Moise Lion, amigo particular de Garoto, tenha articulado sua temporada em Santos, iniciada em 1º de abril. “Faço minha estréia com sucesso no Cassino do Guarujá, em Santos. Estão nesta temporada Jean Sablon e Hugo Del Carril”, disse Garoto em seu diário. Para ele a temporada no Guarujá terminou em 9 de abril.
O jornal A Tribuna em sua edição de 13 de abril anuncia em grande estilo a estréia de Garoto, o mágico do violão-tenor, neste mesmo dia no Cassino São Vicente, na Ilha Porchat. O trio argentino Los Pamperitos também estreou naquele dia. Outras atrações durante a temporada de Garoto naquele cassino, que se estendeu com grande êxito até o dia 26 de abril, foram Maria Rosa (a soprano de ébano), Amado Smendel e Trio Campesino (artistas paraguaios(?) em canções pan-americanas), Ira Ari (magnífico ballet integrado por oito “girls” em quadros coreográficos), Tatuzinho (o mais destacado humorista brasileiro), a cantora Tamara (apresentando melodias francesas, inglesas e russas, além de riquíssima toillete) e Januário de Oliveira, grande cantor e humorista. Garoto fez grande amizade com os Srs. Palhares, Helvécio e Gomes Costa, respectivamente diretor artístico, gerente e ajudante de diretor do Cassino São Vicente.

Carlos Baccarat, diretor da Rádio Atlântica, PRG 5, convidou Garoto para uma série de apresentações na “Dinâmica”, apelido carinhoso daquela emissora. As suas primeiras apresentações ocorreram nos dias 8 e 9 de abril, reaparecendo no dia 16 obtendo estrondoso sucesso. Este mesmo sucesso, com o público aplaudindo de pé e pedindo bis por várias vezes, aconteceu em sua apresentação na terça-feira, dia 18, no programa Fazendo Cera. Gentil de Castro e Nelsinho do violão-tenor estreitam laços de amizade com Garoto e este dedica dois choros aos novos amigos: Gentilíssimo e Pequenininho, ambos compostos em 25 de dezembro de 1944, no Rio de Janeiro. Sua última aparição na Atlântica nesta temporada ocorreu em 23 de abril no programa Rapsódia do Riso, de Paulo Leblon. Sua despedida coincidiu com a estréia de Januário de Oliveira naquela emissora, justamente naquele programa. Nas palavras de Garoto: “Despedida na Rádio Atlântica no programa de Paulo Leblon. Grande sucesso! Toco até fado!”. Na foto com Januário de Oliveira, tirada nesta ocasião, Garoto aparece empunhando o famoso violão-tenor branco, de Nelsinho.

Garoto gostou tanto de Santos que fez um choro em 15 de abril e o dedicou a José Menino! Nesta temporada ele contou com o forte apoio do seu amigo Moise Lion, que organizou para ele uma grande festa de despedida em 25 de abril. No dia seguinte, fez sua despedida do Cassino São Vicente, escrevendo em seu diário “Terminei hoje esta brilhante temporada em Santos”.

3- O retorno à Rádio Nacional.


Os jornais locais noticiaram que Garoto iria em seguida fazer temporada em Curitiba, rumando depois para Buenos Aires. De fato ele estreou em Curitiba no dia 28 de abril e lá permaneceu até o dia 15 de maio, mas não foi a Buenos Aires. Já em 17 de maio ele retornava ao Rio de Janeiro a tempo de participar do famoso programa da Rádio Nacional, Um Milhão de Melodias. Acompanhado da Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali ele tocou naquele programa o choro de sua autoria Aquí Estou. O título original deste choro é Aquí Estou, Sr. José! numa bem humorada alusão a uma provável bronca dada em Garoto pelo diretor artístico da Rádio Nacional, Sr. José Mauro, em função desta temporada tão longa...
Nos dois anos seguintes Garoto retornou a cidade de Santos em temporada. Em 1945 após se apresentar em Curitiba no período compreendido entre 17 de fevereiro a 2 de março, ele rumou com sua esposa Dugenir e sua pequena filha Denise para Santos, onde estreou em 16 de março no Cassino São Vicente. Participou de três programas na Rádio Atlântica e encerrou esta temporada com grande êxito no cassino em 2 de abril. Em 1946 ele inverteu a ordem: iniciou sua temporada em Santos em 28 de março. Neste meio tempo compôs a música 7as Maiores e participou, em 12 de abril, de um Festival do Santos F C, realizado no Teatro Coliseu.

Em 15 de abril Garoto despediu-se de Alonsito e Gomes Costa, após jantar com seu amigo Moise Lion, onde tocou violão para ele e seus convidados. Encerrou sua temporada em Santos no dia 17 de abril, seguindo para Curitiba onde se apresentou no Cassino Ahú de 21 de abril até 02 de maio, data em que o Presidente Eurico Gaspar Dutra, descumprindo uma promessa de campanha, fechou os cassinos.
Artigo e documentação enviado por:
jorge mello

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

LUIZ EÇA- O Primeiro Sucesso


Luiz Eça

O Primeiro Sucesso

por Jorge Mello.








Luiz (Mainzl da Cunha de) Eça bem cedo revelou seu talento para a música. Com apenas 5 anos de idade impressionou sua professora, a pianista russa Zina Stern, ao mostrar sua primeira composição. Prosseguiu seus estudos com Madame Petrus Verdier (que foi amiga de Debussy), Jacques Klein, Homero Magalhães, Lucia Branco e Heitor Alimonda (veja Bodas da Solidão, um olhar azul para Luiz Eça-pg 165-Fernanda Quinderé-Ed. Livro Técnico, 2007).
Com sólida formação clássica Luiz Eça também se interessava pela música popular, tanto em interpretação quanto em composição. Com 15 anos de idade compôs o choro Melancolia, apresentado pela 1ª vez em 3 de abril de 1952, no programa Um Fio de Melodia da Rádio Nacional. O arranjo orquestral, autoria de Alexandre Gnattali, foi escrito para sax tenor(2), barítono e alto(2), violino(4), viola, cello, piano, baixo, bateria e guitarra. O guitarrista desta orquestra, Garoto, apresentava-se nesse programa desde o seu retorno à Rádio Nacional em 3 de abril de 1951 até julho de 1952. Esta foi, portanto, a primeira aproximação de Luiz Eça com Garoto (consultei o diário do Garoto e constatei sua participação naquele programa em 03/04/1952).
Por essa época Luizinho já tocava, com permissão do Juizado de Menores, em bailes como integrante do conjunto de Bené Nunes, este um grande amigo de Garoto. Por diversas vezes Garoto e Bené se apresentaram em bailes no Country Club e é bem provável que Luizinho ( assim Garoto o chamava) também participasse dessas gravações. Passa a integrar, em 1954, o conjunto de Sivuca e depois o Trio Penumbra, com Candinho ao violão e Jambeiro no contrabaixo. Por sinal Luizinho e Candinho frequentaram algumas vezes o sítio de Garoto em Areal. Passagens muito interessantes de Garoto com Luiz Eça estão na série Cancioneiro Garoto, Duas Contas-segunda parte, publicada em http://sovacodecobra.uol.com.br/
A primeira gravação comercial do choro Melancolia encontra-se no Lp Rádio 10 pol Uma Noite no Plazza, que foi o primeiro disco de Luiz Eça. Gravado em 1955 com Luiz Eça ao piano, Eduardo(Ed) Lincon no contrabaixo e Paulo Ney na guitarra, o disco trazia também O Relógio da Vovó, música de Garoto. O trio que gravou este disco é o mesmo que atuava na boate Plazza em 1955, com Luiz Eça substituindo Johnny Alf, que partira para São Paulo a convite do empresário Heraldo Funaro, para tocar na Baiúca.
Antes de partir para estudar, com bolsa concedida pelo governo brasileiro, com Frederich Gulda e Hans Graff no Conservatório de Viena em 1958, Luiz Eça gravou com seu trio o Lp Um Piano na Madrugada(1956).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Johnny Alf, Rapaz de Bem.






Johnny Alf, Rapaz de Bem.
por Jorge Mello.




Uma notícia encheu meu coração de alegria: Johnny Alf estava de volta! Após uma luta de dois anos contra um câncer de próstata, ele retoma sua carreira artística, em duas apresentações dias 31 de janeiro e 1 de fevereiro no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. A tal doença impediu que participasse das comemorações do cinquentenário da Bossa Nova no ano passado. Prestes a completar 80 anos Alf, ele é considerado como um dos alicerces desse movimento, ao lado de João Gilberto, Tom Jobim e Newton Mendonça. Vamos agora rememorar alguns acontecimentos da sua história pré bossa nova.


Lá por volta de 1952 surgiam os sons fundamentais de dois pianos amigos, mas com destinos opostos. Ao primeiro estava reservada a glória. Ao segundo, o esquecimento....Falo dos pianos de Tom Jobim e de Newton Mendonça, que dariam forma à canções como, por exemplo, Incerteza e Brigas. É bem verdade que de um violão revolucionário (Garoto) também saiam Duas Contas e Relógio da Vovó. Mas de um outro piano alguns sons ainda mais ousados se faziam notar, dando luz à canções como O Que É Amar, Ceu e Mar e Rapaz de Bem...Estamos falando de Johnny Alf, nome artístico do carioca(nascido em Vila Isabel) Alfredo José da Silva.
Seu primeiro disco (78 RPM) foi lançado pela Sinter em setembro de 1953. Percebe-se neste disco a seguinte formação: Piano, contrabaixo e violão. Em muitos textos, e vou citar apenas dois (1), (2), encontramos Alf no piano (claro!), Vidal no contrabaixo e Garoto no violão. Eu ouví essas gravações inúmeras vezes, sem reconhecer naquele violão a sonoridade característica de Garoto, e confesso que fiquei incomodado com isso. Sentí um grande alívio quando, numa das minhas costumeiras incursões ao setor de microfilmagens da Biblioteca Nacional, encontrei na revista Carioca, edição de julho de 1953(3), o seguinte informe assinado por Daniel Taylor: A Sinter acaba de contratar Alf, uma grande revelação como pianista e compositor. Johnny Alf formou seu trio e já colocou na cera De Cigarro em Cigarro, o grande sucesso do momento (de Luis Bonfá) e Falseta, um choro de sua autoria. Seu trio está formado de piano (Alf), Kid (violão) e Vidal (contrabaixo).


No seu segundo disco Johnny Alf estreia como cantor, sem contudo abandonar o piano. Os arranjos foram feitos por Lirio Panicali para violinos, viola, cello e harpa. Com o piano de Alf estavam Nestor Campos(guitarra), Vidal (contrabaixo), Manoel Dias(bateria) e Gaucho no acordeon. O crítico Jayme Negreiros assim se manifesta(4): " A mais moderna interpretação posta em disco brasileiro até hoje, de um cantor nosso. O rapaz é artista mesmo, sente modernamente a música, conhece o piano, sua arte logo se espalha, o que ele faz com as frases é de uma naturalidade e de um jogo espontaneo tremendos". Nesse disco lançado pela Sinter, Alf interpreta dois sambas canções: Dizem por aí (Haroldo Eiras/Victor Berbara) e Beija-me mais(Amaury Rodrigues).


Dois anos se passaram(1956) até o lançamento seguinte de Alf, pela gravadora Copacabana. A bolacha traz Rapaz de Bem e O Tempo e o Vento, ambas de sua autoria. A primeira delas é, de acordo com Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello (5): A mais bossa nova das músicas que antecederam a bossa nova, "Rapaz de Bem" é de autoria de um pianista muito ouvido e admirado pelos criadores do movimento". Na gravação original esta música é apresentada por Alf a frente de um trio e revela algo inteiramente novo naquela época: Um samba com acompanhamento no estilo jazzístico! Não quero dizer com isso que ele tenha transformado o samba em jazz, nada disso! A mudança se dá no modo de acompanhar, sem fazer uma ostensiva marcação rítmica, e sim fazendo os acordes como que cercando o solista. Nas palavras de Alf(6): Não há uma marcação certa, regular, mas uma espontaneidade ritmica do pianista em função da harmonia. O mais importante é notar que o samba não deixou de ser samba por isso...Ao invés de subtrair, só acrescentou uma nova possibilidade de expressão! Maravilhoso!
Muito embora não seja um disco do Johnny Alf, o Lp 10 pol da Sinter, Convite ao Prazer (1952), pode ser considerado como tal. Do total de 8 faixas cantadas por Mary Gonçalves, quatro são de autoria dele: Podem Falar, O Que é Amar, Estamos Sós e Escuta. Acompanham Mary nesse disco o piano de Alf, a guitarra de Zé Menezes, o sax de Quincas, o violino de Irany Pinto e a flauta de Ary Ferreira. A direção musical e os arranjos orquestrais são de Lirio Panicali.
Mary Gonçalves, cujo nome verdadeiro é Nice Figueiredo Rocha, nasceu em Santos, Sp, em 25 de outubro de 1927. Gravou pela Sinter e pela Odeon, sendo suas últimas gravações realizadas em 1956. Abandonou sua carreira artística e foi morar na Colombia (7).
Esta é a discografia básica de Alf no periodo pré Bossa Nova. Algumas de suas composições dessa época apareceram em discos posteriores, como é o caso de Céu e Mar e Seu Chopin, Desculpe (Esta música é também conhecida como Choro do Minuto).


Johnny Alf estreou profissionalmente na Cantina do Cesar(Do famoso radialista Cesar de Alencar), indo depois para o Monte Carlo, convidado por Fafá Lemos. Em seguida foi para o Mandarim, onde por cerca de oito meses revezou no piano com Newton Mendonça. Na já citada entrevista , Alf assim falou sobre seu amigo (8): Houve uma grande aproximação com Newton Mendonça, pois ele também tinha estudo de música clássica e tinhamos idéias comuns. Ele foi o primeiro músico com quem tive afinidade musical e composições no mesmo estilo, músicas nos moldes mais avançados da época, inclusive uma inédita que ele me deu. Eu tinha a partitura, mas nesse negócio de muda pra cá, muda pra lá, perdí a música". Uma passagem pelo Clube da Chave e daí para o Plaza, então alugado por Djalma Ferreira. Na mesma entrevista, Alf arremata: Eu me revezava ao piano no conjunto dele. Os crooners eram o Miltinho e a Elena de Lima. Ele alugou o Plazza para fazer alí um ambiente musical, mas não deu certo porquê não tinha muito movimento. Fui então para o Club de Paris, mais tarde Bacará, no Beco das Garrafas. Depois para o Stud do Théo, onde toquei com Ribamar e seu irmão Esdras. Dalí fui de novo chamado pelo Djalma Ferreira, já no Drink; nesse conjunto tinha o Bola Sete. De lá fui pela segunda vez para o Plaza, na categoria de atração. Fiquei lá de outubro de 1954 a abril de 1955. Sai porque o Heraldo foi me procurar no Rio para inaugurar a Baiúca de São Paulo. A esse respeito Jayme Negreiros assim comentou(9): Luiz Eça irá para o Plaza Bar em substituição ao pianista cantor Johnny Alf, que se transferiu para São Paulo. O conjunto de Luizinho Eça será composto por Paulo Ney (guitarra) e Lincon(contrabaixo).


Johnny Alf retorna ao Rio de Janeiro para participar, como convidado, da Noite do Amor, do Sorriso e da Flor, realizada em 21 de maio de 1960 no Anfiteatro da Faculdade de Arquitetura da UFRJ, na Praia Vermelha. Ele foi anunciado por Ronaldo Bôscoli com as seguintes palavras: Os verdadeiros entendidos na história da Bossa Nova não poderão estar esquecidos desse nome. Faz 10 anos que ele toca música bossa nova e por isso foi muitas vezes chamado de vigarista e maluco. Atualmente ele está em S. Paulo, aliás estava. Numa gentileza do jornal Última Hora, conseguimos a passagem para trazer para vocês Johnny Alf.


A continuação dessa história, que será abordada em outro artigo, traz Johnny Alf de volta ao Rio de Janeiro, integrado ao ambiente efervescente do Beco das Garrafas em 1962, já com o seu primeiro lp gravado( RCA): Rapaz de Bem.


REFERÊNCIAS:


1) Ruy Castro-Chega de Saudade, pg 95- Companhia das Letras, 1ª Ed. 1991.

2) Irati Antônio e Regina Pereira- Garoto, Sinal dos Tempos, pg 71-Ed Funarte. 1979.

3) Revista Carioca, nº928, seção Variedades- 18/07/1953.

4) O Jornal, seção Discos-21/07/1954.

5) Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello-A Canção no Tempo, vol 1, pg 324- Ed. 34-1997.

6) Zuza Homem de Mello-Música Popular Brasileira, pg 38-Ed. Melhoramentos, Sp-1976.
7) Sylvio Tullio Cardoso- Dicionário Biográfico de Música Popular, pg 76- 1965.

8) Op. Cit, pg 84.
9) O Jornal, seção Discos-11/05/1955.

Carmen Miranda e Garoto









Carmen Miranda e Garoto.

Por Jorge Mello.



Introdução.



Tendo em vista as comemorações do centenário de nascimento da Pequena Notável, apresento este ensaio onde fica evidenciada a importância de Carmen Miranda na vida musical de Anibal Augusto Sardinha, o Garoto.



1) O DUO DO RITMO SINCOPADO.
No início do mês de fevereiro de 1939 (1) foi dado grande destaque à estréia da “dupla do rythmo syncopado”, formada por Garoto, no violão tenor e Laurindo Almeida, no violão de seis cordas. Esta dupla apresentou-se, com grande sucesso, no microfone da Mayrink até o final de setembro daquele ano. O violão tenor usado por Garoto, na ocasião, já é o modelo dinâmico fabricado pela Del Vecchio. Estes fabricantes passaram a construir também o violão de seis cordas dinâmico.
Em 13 de março, com a volta de Zezinho à Mayrink, formou-se o trio Garoto, Laurindo e Zezinho (2), que se apresentou até o final do mês de abril, quando não mais se vê o nome deste último na programação da emissora. Ele embarcou para os Estados Unidos, para integrar-se à Orquestra de Romeu Silva, que se apresentava no estande brasileiro da Feira de Nova York (3), interrompendo, assim, sua carreira no Butantã, onde foi funcionário de 1918 até 1939. Antes que perguntem, ele foi, sim, um funcionário exemplar!
A última participação de Garoto na Mayrink, naquele ano, deu-se em 30 de setembro, no Duo do Ritmo Sincopado, com Laurindo (4). De abril a setembro o duo participou de nove discos, como acompanhantes, pela Odeon, tendo gravado apenas um disco solo, pela RCA Victor. Nestes seis meses de intensa atividade radiofônica, gravaram com Carmen Miranda, Jararaca e Zé Formiga, Alvarenga e Ranchinho, Henricão e Carmem Costa, Dorival Caymmi e, por fim, Ary Barroso.
Veja os detalhes a seguir: No dia 05 de abril, no disco no 11.787, acompanharam junto a um regional, a cantora Carmen Miranda, que interpretou dois sambas de Laurindo: Mulato antimetropolitano e Você nasceu para ser granfina, lançado em outubro. Em 24 de maio, acompanharam também com um regional, a dupla formada por Henricão e Carmen Costa nos sambas Onde está o dinheiro, autoria dos intérpretes e Não dou motivo, de Max Bulhões e Felisberto Martins, no disco no 11.749, lançado em agosto. No dia 29 de maio, no disco no 11.753, acompanharam Jararaca em dois choros, Terrível dilema, de Sá Roriz e Gadé e Aventura do Seu Ventura, de Jararaca e Felisberto Martins. Este disco foi lançado também em agosto. No dia 20 de junho, dois pot-pourris de Ary Barroso, o próprio ao piano, tendo Laurindo e Garoto a acompanhá-lo nas músicas Sem ella/Tabuleiro da baiana, de um lado, e Por causa desta cabrocha/Novo amor, do outro lado do disco no 11.859, lançado exatamente um ano depois da gravação. No dia 26 daquele mês, mais duas músicas de Ary, com o próprio ao piano, tendo Laurindo e Garoto a acompanhá-lo no samba Na baixa do sapateiro e em Boneca de piche, no disco no 11.796, que foi lançado em agosto de 1939. No dia seguinte foi a vez de gravarem com Dorival Caymmi duas canções de sua autoria: Rainha do mar e Promessa de pescador, formando o disco no 11.760, lançado em setembro. Com Alvarenga e Ranchinho, gravaram em 30 de junho, a rancheira Morena minha morena, de autoria daquela dupla e a valsa Despertar de minha vida, de Alvarenga e César Cruz, formando o disco no 11.773, lançado em outubro. No dia 18 de julho, acompanharam Jararaca e Zé Formiga em quatro músicas de autoria destes: A mulher e as cartas e Carta da namorada, no disco no 11.770, lançado em outubro e Tempo de criança e A muié e o teatro, no disco no 11.843, lançado em abril de 1940. Em 12 de setembro, finalmente, gravaram, na RCA Victor, o disco solo de no 34.516, com o fox Dá-me tuas mãos, de Roberto Martins e Mario Lago e Música Maestro, por favor, fox de A Wrubel e H Magidson, lançado em novembro. Este é o único disco solo desta dupla!


2)CARMEN MIRANDA VAI AOS ESTADOS UNIDOS!
Desde a época das excursões de artistas brasileiros à Argentina, a cantora Carmen Miranda era considerada a embaixatriz do samba. Ao abraçar agora a chamada “política da boa vizinhança” proposta por Roosevelt, o governo Vargas iria mantê-la na função de principal divulgadora de nossa música no exterior (5). Carmen acabara de regressar de uma excursão ao interior do Estado de São Paulo com o Bando da Lua (6) e, com eles e as Irmãs Pagãs, preparava-se para estrear no Cassino da Urca naquela sexta feira, 03 de fevereiro de 1939 (7). Seria mais um show, não fosse pelo fato do empresário norte americano Lee Schubert tê-la assistido e gostado muito. Tanto que a convidou para um jantar a bordo do transatlântico Normandie, onde lhe apresentou uma proposta para atuar nos Estados Unidos, mas sem levar o Bando da Lua. Carmen rejeitou a proposta, pois não concebia ir sem levar o grupo que a acompanhava desde 1934. Falavam muito num romance entre Carmen e Aloísio de Oliveira, o líder do Bando, para justificar sua insistência em levá-los (8). Ficou acertado, finalmente, que o governo brasileiro bancaria as passagens do grupo, em troca de apresentações no Pavilhão Brasileiro da Feira Mundial de Nova York, inaugurada em 30 de abril. Como parte dos agradecimentos Carmen foi a Caxambu no final de abril (9), acompanhada do Bando da Lua, Laurindo e Garoto para dar uma audição para o Presidente da República.
Considerado como o melhor conjunto vocal pela crítica especializada e contabilizando dez anos de uma vitoriosa carreira, incluindo aí algumas temporadas em Buenos Aires com a própria Carmen, isto sem contar os três discos pela Odeon e os trinta e nove pela RCA Victor, o Bando da Lua tinha vida própria. Ivo Astolfi e Hélio Jordão Pereira temiam que o Bando se transformasse num mero coadjuvante de uma cantora, mesmo que esta fosse Carmen Miranda! Razões suficientes para que pensassem em desistir da viagem, às vésperas do embarque!
Ruy Castro, em sua admirável biografia de Carmen Miranda (10), conta-nos que já existia um “plano B” para o caso de se confirmar a desistência dos dois: em seus lugares seguiriam Garoto e Laurindo Almeida. Entretanto o argumento usado, realçando a grandiosa missão que teriam ao representar a música brasileira nos Estados Unidos, talvez tenha sido suficientemente forte para vencer as resistências. Deste modo, embarcaram todos do Bando, a saber: Aloísio de Oliveira (vocal e violão), Ivo Astolfi (violão), Stênio Osório (cavaquinho), Hélio Jordão Pereira (violão), Osvaldo de Morais Éboli (Vadeco) e Afonso Osório (ambos na parte rítmica).
Como parte integrante da política de Roosevelt existia a “frota da boa vizinhança” da Moore McComark. Eram os navios Argentina, Brasil e Uruguai. A bordo deste último embarcou Carmen Miranda, no dia 04 do mês de maio, às 21 horas. Uma verdadeira multidão comprimia-se nas dependências do Touring Club no Cais do Porto, sendo necessária a intervenção da polícia para que a cantora pudesse chegar ao navio. Noticiou-se também que o Bando seguiu naquele mesmo navio, para trabalhar na feira, a convite do Departamento Nacional de Propaganda. Todos eles, então, passaram por treze dias de ansiedade e expectativa a bordo, segundo Aloísio (11).
Carmen e o Bando iriam fazer parte do elenco de Street of Paris, em que também atuavam os franceses Ivone Bouvier e Jean Sablon, além dos estreantes cômicos norte americanos Bud Abbott e Lou Costello. A pré-estréia deu-se no Shubert Theatre de Boston, onde Carmen eletrizou a platéia, obtendo os mais expressivos aplausos por conta de sua atuação surpreendente. A estréia, propriamente dita, desta revista na Broadway, ocorreu em 19 de junho, no Broadhurst Theatre, que quase veio abaixo quando ela cantou O Que é Que a Baiana Tem? . Carmen roubou a cena, era a dona da revista (12).


3) GAROTO A CAMINHO DOS ESTADOS UNIDOS
Não durou mais que cinco meses a permanência de Ivo Astolfi na terra do Tio Sam. A versão oficial é que ele, apaixonado e comprometido com uma moça de Porto Alegre, voltou ao Brasil para se casar, o que aconteceu alguns meses depois (13). Qualquer que seja o motivo, esta ruptura e seu conseqüente regresso motivou o envio do bilhete que tinha o seguinte teor (14): “Queridíssimo Garoto, espero que você tenha gostado da idéia de vir para cá e aceite-a, pois esta terra é a melhor do mundo, só estando aqui é que acreditará. Estamos ansiosos que você venha, eu e os rapazes. Abraços da Carmen”.
Causa estranheza um convite apenas para Garoto quando muitos sabiam, e Carmen ainda mais, que este duo do Ritmo Sincopado fazia um enorme sucesso. Se a idéia era aumentar a qualidade da parte instrumental, onde o Bando não se destacava, o natural seria levar a dupla...
Numa entrevista, um pouco antes de sua partida, Garoto assim se manifestou (15): “Não sei dizer o que senti quando li o telegrama. E mesmo agora ao pensar que daqui a pouco estarei embarcando no ‘Brasil’ rumando para os Estados Unidos, só sei dizer que algo maravilhoso está me acontecendo, mas não tenho uma idéia precisa ainda. É tudo tão rápido, tão surpreendente!”. O único contrato que possuía era de 50 dólares por semana para atuar na revista Street of Paris, o mesmo valor pago aos rapazes do Bando. No tal bilhete, Carmen acenava com um possível ganho de 200 dólares semanais...
Já a bordo do “Brasil” anotava suas impressões de viagem numa espécie de diário de bordo (16), onde revelava seu espírito mordaz e um senso acurado de observação. Dentre seus companheiros de viagem estava o famoso guitarrista flamenco, Carlos Montoya (1903/1993), que embarcara em Buenos Aires com seu grupo, que incluía bailarinas e cantores. A seu respeito Garoto anotou em seu diário: “Carlos Montoya, guitarrista hespanhol e muito bom companheiro, mas muito cheio de si. Quando tocava violão, tocava sempre a mesma coisa e fazia questão de dizer o quão difícil era aquilo que tocava, fazia mesmo questão de frisar isso... Só tocava música hespanhola. Queria sempre tocar Mamãe Eu Quero em ritmo hespanhol, mas muito mal!”. A música não poderia mesmo faltar nesta viagem, pois além de tocar com Montoya, fez amizade com os músicos de bordo tendo tocado inúmeras vezes com eles.
Em seus cadernos de partituras foram encontradas as seguintes músicas compostas por ele, durante a viagem: Reflexos de Prata no Mar, um fox-blue composto em 27 de outubro e mais duas outras músicas sem título, uma canção e um samba canção, compostos no dia 29 aos quais chamaremos de Tema 1 e Tema 2.
Por fim ele arremata: “Cheguei à Nova York no dia 30 de outubro e fiz uma viagem maravilhosa do Rio até N Y”.
Se a viagem foi maravilhosa o mesmo não se pode dizer quanto ao seu desembarque, pois, de acordo com Aluisio de Oliveira (17), nosso artista chegara com vistos e papéis incompletos, ficando, por este motivo, detido na Ellis Island, a ilha dos imigrantes ilegais. Foi necessária a ação e influência dos advogados das empresas de Lee Shubert, para tirá-lo de lá!
Após examinar a lista impressa dos passageiros que embarcaram naquele navio, o nome de Annibal Augusto Sardinha estava escrito a lápis, provavelmente pelo próprio, espremidinho entre dois nomes que estavam impressos... Isto é uma evidência da pressa com que foi feito este embarque!



4)COM CARMEN E O BANDO DA LUA EM NOVA YORK!
No livro “Garoto, sinal dos Tempos” (18), afirma-se que ele esperou por quarenta dias na tal ilha dos imigrantes ilegais, até que todas as dificuldades fossem superadas. Se isto fosse verdade, não haveria tempo hábil para que se apresentasse com o Bando da Lua no Pavilhão Brasileiro da Feira Mundial de Nova York com a Orquestra de Romeu Silva, que participou daquele evento, de junho até novembro. Apareciam com destaque, além de seu líder Romeu Silva, o pianista Vadico, parceiro de Noel Rosa em tantos sambas de sucesso, o saxofonista e clarinetista Zaccarias, o baterista Sut, e o Zezinho do Banjo, que ali tocava violão e demais instrumentos de corda que dominava. Sobre este encontro Garoto disse (19): “O Pavilhão Brasileiro em Nova York é um pouco do nosso país. Ali sentimos a nossa grandeza, a nossa casa enfim. Nele encontramos Romeu Silva com a sua formidável orquestra, que prazer acharmo-nos entre patrícios”, dizia um emocionado Garoto. Novamente juntos como grandes amigos, Zezinho e ele... Voltariam a se encontrar em São Francisco, quando Zezinho lhe confidenciou seu desejo de fixar residência nos Estados Unidos (20), o que de fato aconteceu, tendo ele uma carreira fulgurante.
Em 26 de dezembro de 1939 Carmem Miranda, o Bando da Lua e Garoto gravaram três discos, pela Decca. O primeiro, de no 23.130, com as músicas South Americam Way (Al Dubin e Jimmy Mchugh) e Touradas em Madri, de João de Barro e Alberto Ribeiro. O segundo, de no 23.131 com as músicas O que é que a Baiana tem? (Dorival Caymmi) e a marchinha Co, Co, Co, Co, Co, Co, Ro de Lamartine Babo e Paulo Barbosa. Finalmente o terceiro, de no 23132, com a marchinha Mamãe eu Quero, de Jararaca e Vicente de Paiva e o samba embolada Bambu Bambu, de Patrício Teixeira e Donga.
Down Argentine Way, filme de Irving Cummings, estrelado por Don Ameche e Betty Grable, foi lançado no Brasil, cercado de grande expectativa, com o nome de Serenata Tropical. Os milhares de fãs de Carmem Miranda sentiram-se frustrados com sua participação na trama, onde ela atuava apenas como uma atração internacional num Cassino em Buenos Aires. Uma Carmem Miranda quase estática em cena, acompanhada do Bando da Lua e Garoto, em South American Way, Mamãe Eu Quero, Bambu Bambu e Touradas em Madrid, em nada se parecia com aquela figura exuberante, capaz de eletrizar as platéias. Mas não era um filme seu! Ela fazia apenas uma participação discreta.
A revista Street of Paris, após oito meses em cartaz em Nova York partiu em excursão pelos Estados Unidos, apresentando-se em Chicago, no Colonial Night Club, em Detroit, Pittsburgh, Saint Louis e Filadélfia. Eles também se apresentaram no National Theater de Washington, onde foi notada a ilustre presença do Presidente Roosevelt na platéia. Carmem, Garoto e o Bando da Lua foram convidados para uma recepção na Casa Branca, onde se exibiram em alguns números para o Presidente e os demais convidados. Para Garoto foi uma emoção muito forte entrar naquela casa tão falada e tocar para Roosevelt. “O Presidente, muito camarada, veio nos abraçar, trocando impressões sobre coisas brasileiras”, disse ele a um jornal (21). Depois, a trabalho com Carmen e o Bando, foi até o Canadá, onde ficou deslumbrado com as nevadas em Toronto e as cataratas de Niagara.
Um público cada vez mais numeroso ia às apresentações de Carmen com o Bando da Lua e Garoto. A Pequena Notável era a coqueluche do momento e seu prestígio podia ser medido através do resultado de uma pesquisa sobre as maiores celebridades de Nova York. Ficou em segundo lugar, à frente de Fiorello la Guardia, então prefeito daquela metrópole (22).
Um público mais seleto, composto também por grandes nomes da música norte americana, como Duke Ellington e Art Tatum, ia também para assistir às introduções que Garoto fazia no seu violão-tenor. É muito provável que ele tenha interagido com os grandes do Jazz, principalmente nos night clubs de Chicago.
Shubert concedeu férias a Carmem, o Bando e Garoto. No dia 10 de julho de 1939, a bordo do navio Argentina, eles retornaram ao Brasil. O fim das férias e a volta de todos para os Estados Unidos estava prevista para setembro. Com o sucesso obtido, quem sabe não voltariam com um contrato mais vantajoso?


5)O HOMEM DOS DEDOS DE OURO
Desembarcaram cercados por repórteres ávidos por novidades. Carmem foi recebida como verdadeira heroína e desfilou em carro aberto, sendo ovacionada pela multidão que se aglomerava para vê-la. Garoto voltava consagrado! O organista Jesse Crawford apelidara-o de “O Homem dos Dedos de Ouro” (23). Já no Brasil, numa entrevista concedida a Fernando Lobo pelos rapazes do Bando e Garoto, Vadeco olhou para este e disse (24): “Só se fala em você, heim??!! bichão?”. Aquele rapaz de 25 anos assombrou as platéias norte-americanas por sua maneira tão peculiar de tocar o seu instrumento. Ele era responsável pelos arranjos, introduções e fraseados das músicas e seu bom desempenho o colocava cada vez mais em evidência. Nos nightclubs, mais solto, podia mostrar ainda mais seu talento, fazendo verdadeiras proezas com o seu violão tenor. Numa outra entrevista, um repórter do Cine-Rádio-Jornal perguntou-lhe se tinha novidades, ao que Garoto respondeu: “Algumas... Em Chicago, por exemplo, travei relações com um músico norte americano possuidor de um órgão elétrico. Ofereci-lhe então a Aquarela do Brasil e todas as noites ouvíamos a linda música de Ary Barroso tocada num instrumento raríssimo no Brasil” (25).
Trouxe de lá o “co-reckt” que, a julgar pela foto mostrada nesta reportagem, muito se assemelha aos captadores usados no tampo do violão acústico, para amplificação do som. Confessou sua admiração por Bing Crosby, Ella Fitzgerald e, principalmente, pelas grandes orquestras norte americanas. Em suas folgas, além dos passeios, tinha ele por distração fazer adaptações das músicas de lá para nosso ritmo! Ainda nesta reportagem perguntam-lhe se trouxera melodias de lá para apresentar no Brasil ao que ele respondeu: “Trouxe músicas havaianas e melodias do sul da Califórnia: Quando os Pássaros Voltam à Capistrano, Castelo dos Sonhos, Irene, Tuxedo Junction e Em Cima da Lua, que é um dos maiores sucessos nos Estados Unidos, são algumas delas”. Em outra entrevista, ao ser perguntado sobre que novidade tinha apresentado aos norte americanos, Garoto não hesitou ao responder (26): “O violão tenor, instrumento construído por Del Vecchio em São Paulo, foi realmente uma novidade e um sucesso ainda maior. Eles gostaram! ”.
O uso deste instrumento é percebido nas gravações que por lá fez, nas aparições na revista Street of Paris, bem como em Serenata Tropical. Nas apresentações informais é provável que Garoto tenha também se exibido com outros instrumentos.



6)E GAROTO NÃO VOLTOU...
Cinco dias após a chegada apresentam-se numa festa beneficente no Cassino da Urca para uma platéia formada por pessoas da alta sociedade. Todos eles esperavam por uma recepção calorosa, mas o que se viu naquela apresentação foi inexplicável. Algo misterioso que um importante protagonista desta história, o líder do Bando da Lua, Aloísio de Oliveira, não conseguiu desvendar (27): “Aquele mesmo público que tanto aplaudiu Carmen há um ano, recebeu-a com a maior frieza. Cantamos juntos O que é que a baiana tem? e o gelo foi ainda maior. Carmem retirou-se do palco aos prantos, revoltada!”.
Muito embora não fosse aquele o público de um ano atrás, esta reação foi suficiente para que a Pequena Notável reagisse mostrando, através das músicas Disso é Que Eu Gosto e Disseram que Eu Voltei Americanizada, ambas de Luis Peixoto e Vicente Paiva, que continuava a mesma. Já refeita, apresentou-se em programas da Mayrink Veiga. Em 12 de setembro, com o Bando da Lua e já sem Garoto, iniciou uma nova temporada naquele mesmo Cassino da Urca. Ela gravou seu novo repertório, pela Odeon.
Carmen e o Bando da Lua voltaram para os Estados Unidos a bordo do navio Uruguai em 02 de outubro de 1940 e desta vez pouca gente foi assistir a este embarque.
Em todas as entrevistas que concedeu ao desembarcar, Garoto sempre foi muito afirmativo em relação ao seu retorno aos Estados Unidos. Disse a um repórter, quando perguntado se voltaria (28): “Quando lá voltar, o que será em breve, hei de levar mais um pouco de nossa música típica”, nessa mesma matéria (29): “É claro! Em setembro devo seguir novamente e ignoro quando voltarei”. Destas declarações percebe-se claramente que, pelo menos ao desembarcar e nos cinco dias seguintes, pensava mesmo em voltar! Uma nota encontrada em um recorte de jornal no seu álbum dá o tom certo (30): “Uma notícia em primeira mão: O notável violonista Garoto, que foi a maior sensação do Bando da Lua em Nova York, não voltará com o referido conjunto para os Estados Unidos no próximo dia dois de outubro”.
E porque ele não voltou?
Existem três grandes motivos, não excludentes, para explicar este fato:
Inicialmente a questão racial, um grave problema que foi observado por ele em sua estada nos Estados Unidos. Imaginou as situações desagradáveis que encontraria se voltasse com sua esposa, de origem negra.
Uma segunda possibilidade, encontrada na biografia de Garoto (32?), aponta o seu descontentamento com os termos do contrato oferecido, como sendo a razão principal. Queria alçar vôos mais altos, investir em sua carreira solo e as cláusulas contratuais impediam isso, restringindo suas apresentações com Carmem e o Bando da Lua. Esta versão é também satisfatória. É provável que ambas tenham pesado, não sabemos em que proporção, na difícil e sofrida decisão final. Existe, contudo, uma terceira possibilidade a ser considerada: sua saúde frágil!
Garoto interrompeu sua primeira temporada no Rio de Janeiro em 1936, por problemas de saúde, devido ao excesso de trabalho. Imagine então como ele se sentiu nos Estados Unidos, ao enfrentar um batente duríssimo! Fizeram uma verdadeira maratona, descrita nas palavras de Aloísio de Oliveira (33): “Às oito horas da noite chegávamos ao teatro para fazer o final do primeiro ato de Street of Paris — partíamos rapidamente, então, para o primeiro show da boate Versailles — voltávamos ao teatro para o final da revista. Retornávamos ao Versailles para o segundo show que acontecia à uma hora da manhã — dormíamos às três ou quatro horas da manhã — acordávamos às seis horas da manhã para a filmagem de Down Argentine Way, que durava até as quatro ou cinco horas da tarde - tirávamos uma ligeira soneca — às oito horas voltávamos ao teatro e tudo se repetia!”. Esta rotina durou duas semanas, mas tempo suficiente para levar qualquer pessoa a uma estafa... Pode ser que Garoto tenha ponderado que, na impossibilidade de construir a sua carreira solo nos Estados Unidos, estaria sempre sujeito, como acompanhante de Carmen, a esquemas alucinados como este, o que comprometeria ainda mais a sua frágil saúde.
Ruy Castro (34) afirmou que Carmen, por esta época, foi apresentada à primeira das muitas cápsulas mágicas de que faria uso em sua carreira. Tratava-se da anfetamina Bezendrine, que era consumida com freqüência no meio artístico daquela época. A combinação deste medicamento com barbitúricos formava uma mistura explosiva e seu uso continuado causava enormes danos à saúde, como no caso de Carmen.
Não retornar aos Estados Unidos representou uma imensa frustração, já que tinha certeza do êxito que obteria graças ao seu já reconhecido talento numa terra que possuía uma estrutura profissional muito superior à nossa, especialmente naquela época. Adiou, pelo menos ele assim pensava, o sonho de uma carreira internacional com enormes chances de reconhecimento. Preferindo reestruturar sua carreira em São Paulo, onde ficou até o final do ano de 1940 (35). “Teve excelente repercussão a notícia de que Garoto, atualmente na paulicéia, pretende organizar uma orquestra de ritmos brasileiros para ir aos Estados Unidos”. Ir para lá passou a ser uma questão recorrente para ele e que se estendeu até o fim de seus dias. Tempos depois, ao se referir àquele episódio, ele tentou minimizar a dor através de uma versão com novos ingredientes (36): “Não retornei aos Estados Unidos e indiquei para o meu lugar o Nestor Amaral, cuja situação financeira era precária e que tinha passagens muito engraçadas como a de fugir do hotel com as malas”. É provável que nesta estadia em São Paulo tenha participado de alguns programas na Rádio Cruzeiro do Sul (37). Um recorte sem identificação encontrado em seu álbum mostra: “Nicácio Luna, o aplaudido cantor argentino, fará sua estréia hoje na Rádio Cruzeiro do Sul. Os acompanhamentos de guitarra estarão a cargo de Pavani, Aymoré, Sampaio e provavelmente Garoto”. Por outro lado, a revista Carioca, numa de suas edições de novembro (38), noticiava o ingresso do cantor argentino como uma excelente aquisição daquela emissora, confirmando assim que Garoto efetivamente estava em São Paulo àquela época!







REFERÊNCIAS



1) Fon Fon, 04/02/1939-Novas attracções da sua PRA 9: Laurindo e Garoto, a Nova Dupla do Rythmo Syncopado.
2)Jornal do Commercio – Sabbado, 30/09/1939 – Rádio Mayrink Veiga – 19:35 as 19:45: Garoto e Laurindo.
3)Última Hora(SP)-Segunda-feira-27/12/1954- Zé Carioca inventou nos Estados Unidos a "Lata de Tomate".
4) Jornal do Commercio-Sabbado,30/09/1939-Rádio Mayrink Veiga-19:35 às 19:45: Garoto e Laurindo.
5)Ana Rita Mendonça – Carmen Miranda foi a Washington, p.57, ed.Record, 1999.
6)A Noite – Sabbado, 04/02/1939 – Pelo avião da Vasp regressaram ontem. Carmen Miranda e o Bando da Lua, de uma vitoriosa excursão artística ao interior de São Paulo
7)Ruy Castro – Carmen, p.182 – Companhia das Letras, 2005. – Aloysio de Oliveira – De Banda pra Lua, p.64, ed.Record, 1983 – A Noite – Sabbado, 04/02/1939. Constitui um verdadeiro sucesso a estréia, ontem, no Cassino da Urca, de Carmen Miranda; Irmãs Pagãs e o Bando da Lua
8)Carioca nº 207 – 30/09/1939, p.42 – O Romance de Carmen Miranda.
9)Ana Rita Mendonça, op.cit., p.56.
10)Ruy Castro, op.cit., p.217
11)Aloysio de Oliveira, op.cit., p.566.
12)Aloysio de Oliveira, op.cit., p.71..
13)Ruy Castro, op.cit., p.217.
14)Irati Antonio e Regina Pereira, op.cit., p.43.
15)Carioca – nº 213, p.38, novembro 1939 - Garoto foi-se encontrar com Carmen Miranda.
16)Libreto encontrado junto ao álbum de Garoto.
17)Aloysio de Oliveira, op.cit., p.75.
18)Irati Antonio e Regina Pereira, op.cit., p.33.
19)Cine Rádio Jornal – 25/07/1940 – Agora o samba vive na Rua 42, diz-nos Garoto.
20)Incidente com Garoto nos Estados Unidos, recorte encontrado no álbum de Garoto.
21)Carioca nº 395 – Maio de 1943 – Miscelânia Radio Artística de Carlos Antonio: Garoto voltou entusiasmado com o Niagara e apertou a mão de Roosevelt.
22)Carioca nº 224, p.26, 1940 – Derrotou o Prefeito de Nova York.
23)Irati, Antonio e Regina Pereira, op.cit., p.33.
24)Carioca nº 265, p.34, 02/11/1940 – Dez minutos de conversa com a Banda da Lua – Fernando Lobo.
25)Cine-Rádio Jornal – 25/07/1940 – Agora o samba vive na Rua 42, diz-nos Garoto.
26)Carioca nº 395, maio de 1943.
27)Aloysio de Oliveira, op.cit., p.83.
28)Cine – Rádio Jornal – 25/07/1940.
29)Cine – Rádio Jornal – 25/07/1940.
30)Recorte encontrado no álbum de Garoto.
31)Aloysio de Oliveira, op.cit., p.85.
32)Irati Antônio e Regina Pereira, p.36.
33)Aloysio de Oliveira, op.cit., p.75.
34)Ruy Castro, op..cit., p.235.
35)Carioca nº 263, outubro de 1940 – Por Trás do Dial.
36)Correio Paulistano – 18/12/1949 – Garoto conta a sua história.
37)Recorte encontrado no álbum de Garoto.
38)Carioca – Novembro de 1940.